O lixo que parece desaparecer depois do descarte pode terminar em um lugar onde quase nenhum ser humano consegue chegar. No Abismo Calypso, a 5.112 metros de profundidade, pesquisadores encontraram resíduos cotidianos acumulados no ponto mais profundo do Mar Mediterrâneo.
Como o lixo foi encontrado no ponto mais profundo do Mediterrâneo?
A expedição desceu ao Abismo Calypso, no Mar Jônico, a cerca de 60 quilômetros da costa do Peloponeso grego. A missão foi conduzida a bordo do submersível tripulado Limiting Factor, da Caladan Oceanic, em uma imersão científica considerada inédita para essa fossa.
De acordo com a Universidade de Barcelona, a equipe internacional foi liderada pelo professor Miquel Canals, da Faculdade de Ciências da Terra. O objetivo era observar diretamente o leito marinho em uma das regiões mais profundas e isoladas do Mediterrâneo.

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Quais números mostram a escala do lixo no Abismo Calypso?
Durante 43 minutos de survey, os pesquisadores percorreram aproximadamente 650 metros do fundo marinho. Nesse trecho curto, registraram 167 objetos, dos quais 148 foram confirmados como lixo e 19 permaneceram como suspeitos.
A leitura dos dados ganha força quando os números são colocados lado a lado, porque a concentração encontrada é alta mesmo para ambientes de mar profundo.
| Indicador observado | Registro da expedição | O que o dado revela |
|---|---|---|
| Profundidade | 5.112 metros | Resíduos chegaram ao ponto mais profundo do Mediterrâneo |
| Percurso analisado | 650 metros | Amostra direta do leito marinho |
| Objetos registrados | 167 itens | Presença densa de resíduos visíveis |
| Concentração estimada | 26.715 itens por quilômetro quadrado | Uma das maiores já documentadas em mar profundo |
Segundo o registro científico disponível no PubMed, os resultados foram publicados no periódico Marine Pollution Bulletin em 2025. A concentração observada ficou atrás apenas de duas ravinas profundas no Mar do Sul da China.

Que tipo de lixo apareceu no fundo do mar?
O achado chama atenção porque os objetos não pareciam materiais raros ou industriais distantes do cotidiano. A maior parte era formada por resíduos de uso comum, especialmente plásticos descartáveis, aproximando a descoberta dos hábitos de consumo em terra firme.
A composição identificada pelos pesquisadores mostra como diferentes materiais alcançaram o fundo do Mar Mediterrâneo:
- 88% dos itens identificados eram plástico, incluindo sacolas, copos descartáveis com tampas, garrafas e embalagens de uso único.
- Vidro, metal e papel completaram o restante dos resíduos visíveis durante o percurso submarino.
- A presença de papel indica poluição relativamente recente, porque esse material se degrada com mais facilidade ao longo do tempo.
- Alguns objetos apareceram em alinhamentos lineares, padrão que pode indicar descarte deliberado por embarcações.
Por que o lixo chega a 5.112 metros de profundidade?
O Abismo Calypso funciona como uma armadilha natural. A fossa tem quase 20 quilômetros de extensão, cerca de 5 quilômetros de largura, paredes íngremes e fundo plano, uma combinação que favorece o acúmulo de detritos transportados pela água.
Existem dois caminhos principais para esse material chegar tão fundo. Correntes oceânicas podem arrastar itens leves a partir da costa, enquanto o descarte direto por embarcações ajuda a explicar objetos encontrados em padrões mais organizados no leito marinho.
Para visualizar a dimensão desse problema, o canal India Today Global, com 179 mil inscritos, publicou um vídeo com 1.653 visualizações sobre a transformação do ponto mais profundo do Mediterrâneo em depósito submarino de resíduos:
O lixo no Mediterrâneo revela uma contaminação maior do que a superfície mostra?
O estudo reforça que a poluição marinha não fica restrita às praias, portos ou áreas costeiras visíveis. No mar profundo, o material tende a permanecer por longos períodos, porque a baixa circulação e a ausência de um mecanismo natural de saída dificultam qualquer dispersão rápida.
Em reportagem do Independent, a descoberta foi tratada como um sinal de que a poluição humana alcança até os ambientes que pareciam mais protegidos pela distância e pela profundidade. A imagem do fundo oceânico como um espaço intocado fica mais difícil de sustentar diante de resíduos visíveis a milhares de metros abaixo da superfície.
O fundo do mar virou o destino final de resíduos invisíveis para a maioria das pessoas
O achado no Abismo Calypso mostra que o descarte cotidiano pode atravessar praias, correntes e rotas marítimas até se acumular em regiões extremas. Quando o resíduo chega a esse nível de profundidade, ele deixa de ser apenas um problema visual e passa a representar uma marca duradoura da presença humana no oceano.
A força da descoberta está justamente nessa distância entre o gesto simples de jogar algo fora e o destino final encontrado pela ciência. O fundo do Mediterrâneo revela que não existe “fora” quando o planeta inteiro está conectado por água, vento, consumo e descarte.

