Casas com telhado em duas águas, padarias com cuca quente e placas escritas em alemão a 50 km de Vitória. Domingos Martins guarda na serra capixaba uma herança europeia que começou às vésperas do Natal de 1846. A história ali ainda se vê na arquitetura, no idioma e até no que se come.
Como 39 famílias mudaram o destino da serra capixaba
Os primeiros imigrantes alemães desembarcaram em Vitória em 21 de dezembro de 1846. Segundo registros da Paróquia Evangélica de Confissão Luterana de Domingos Martins, o grupo participou do calçamento da Praça João Clímaco na capital e ergueu a primeira árvore de Natal do estado.
Em 27 de janeiro de 1847, 39 famílias seguiram pelo Rio Jucu rumo à Serra da Boa Vista, em uma região que os indígenas botocudos chamavam de Cuité. De acordo com a Secretaria de Turismo do Espírito Santo (Setur-ES), eram 23 famílias católicas e 16 luteranas, vindas em sua maioria da região do Hunsrück, na atual Renânia-Palatinado.
As divergências religiosas levaram os luteranos a subirem mais a serra, fixando-se em um lugar chamado Campinho. Foi ali que nasceu a futura cidade, rebatizada em 1921 como Domingos Martins em homenagem ao patriota capixaba executado na Conspiração de 1817, conforme registra a Biblioteca do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O templo escondido na serra que entrou para a história protestante
No coração do centro histórico fica a Igreja Evangélica de Confissão Luterana, consagrada em 1866 e finalizada apenas duas décadas depois. A torre foi inaugurada em 30 de janeiro de 1887, com três sinos trazidos diretamente da Alemanha.
Esse detalhe carrega um peso histórico raro. A construção é o mais antigo templo protestante adornado com torre da América do Sul, segundo a Paróquia Evangélica local. À época, a Constituição brasileira proibia que igrejas não católicas tivessem campanários, mas a comunidade germânica seguiu adiante mesmo contra os entraves do governo imperial.
Em frente à igreja fica a Casa de Cultura e Museu Histórico, instalada em um casarão de 1915 que pertenceu à família Schwambach. O acervo reúne fotografias, móveis, vestidos de noiva pretos da época da colonização e xícaras especiais para homens de bigode.

O que ver na cidade e na rota mais charmosa do Espírito Santo
O distrito de Aracê concentra os passeios mais famosos do município, a cerca de 50 km do centrinho. A região reúne pousadas, restaurantes premiados e a montanha que dá nome ao parque.
- Parque Estadual da Pedra Azul: formação rochosa de 1.822 m que muda de tom ao longo do dia, com trilhas e piscinas naturais.
- Rota do Lagarto: estradinha de 8 km na BR-262 com pousadas em estilo alpino, cafés e ateliês.
- Igreja Luterana do Campinho: o templo histórico com torre no centro de Domingos Martins.
- Cascata do Galo: queda d água em meio à Mata Atlântica, ideal para banho e fotos.
- Casa de Cultura e Museu Histórico: acervo da imigração instalado em casarão de 1915.
Quem deseja descobrir o charme de uma autêntica colónia alemã encravada nas montanhas capixabas vai adorar este vídeo do canal Rota 408 – Cidades do Brasil. Com mais de 12 mil visualizações, o episódio oferece um passeio detalhado por Domingos Martins, no Espírito Santo, revelando a arquitetura europeia, a rica gastronomia e a história da imigração na região:
Gastronomia, sotaque alemão e o festival que toma a cidade
A culinária local mistura raízes germânicas e pomeranas com produtos da serra capixaba. Cafés coloniais com cuca, geleias caseiras, eisbein, marreco recheado e cervejas artesanais aparecem nos cardápios das pousadas e dos restaurantes da Rota do Lagarto.
A herança aparece também no idioma. Segundo o portal oficial Descubra o Espírito Santo, muitas famílias ainda preservam o alemão, o pomerano, o hunsrückisch e o italiano em casa. O artesanato tradicional inclui a Bauernmalerei, técnica de pintura camponesa europeia aplicada em peças de madeira e objetos decorativos.
A grande festa do calendário é o Sommerfest, festival da imigração alemã realizado em janeiro e fevereiro. As bandas de metais, os corais, as danças folclóricas e os trajes típicos transformam o centro em um cenário que poderia estar em qualquer vilarejo bávaro.
Quando ir e como chegar à serra capixaba
O clima de altitude é o grande atrativo para quem foge do calor do litoral. O inverno é seco, com noites frias e dias ensolarados, enquanto o verão concentra as chuvas.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
O Aeroporto de Vitória fica a cerca de 50 km do centro de Domingos Martins, distância percorrida em 1 hora pela BR-262, rodovia que liga a capital capixaba a Belo Horizonte. Para chegar à Pedra Azul, o trajeto se estende por mais 50 km serra acima. O carro é praticamente indispensável, já que as atrações ficam espalhadas pelo município.
Vale subir a serra
Domingos Martins reúne história imigrante, clima de montanha e uma das paisagens mais fotografadas do Sudeste em um só roteiro. Poucas cidades conseguem manter viva uma cultura europeia depois de quase 180 anos de mistura com o Brasil.
Você precisa subir a serra capixaba e descobrir Domingos Martins, a cidade onde o sotaque alemão ainda ecoa entre montanhas verdes.

