A estagflação voltou ao centro do debate econômico em um momento de inflação resistente, crescimento mais fraco e menor margem de atuação para os bancos centrais. No Painel BM&C, apresentado por Paula Moraes, os economistas Roberto Dumas e Carlos Honorato analisaram como esse ambiente desafia a política monetária, pressiona mercados e aumenta o custo das decisões econômicas em diferentes países.
O ponto central da discussão é que os bancos centrais enfrentam um dilema cada vez mais complexo: subir juros para conter a inflação pode enfraquecer ainda mais a atividade, enquanto manter os juros baixos pode prolongar a pressão sobre os preços. No caso brasileiro, Dumas lembrou que o Banco Central tem como principal mandato o controle da inflação.
“O objetivo do Banco Central, obviamente, é controlar a inflação e de modo a minimizar a volatilidade dos ciclos econômicos”, afirmou Roberto Dumas.
Estagflação no radar: choques de oferta ampliam o risco de espalhamento
Dumas destacou que a reação da política monetária depende da natureza do choque. Quando se trata de um choque temporário de oferta, como uma alta passageira do petróleo, o Banco Central pode evitar uma resposta imediata. O problema surge quando o choque se torna persistente e começa a contaminar outros preços da economia.
Na avaliação do economista, mesmo que a taxa de juros não tenha capacidade de alterar diretamente o preço do petróleo, ela pode reduzir o risco de espalhamento desse aumento para tarifas, passagens aéreas, transporte e outros serviços. Essa transmissão é especialmente sensível em países com histórico de indexação, como o Brasil. “Se ele for temporário, não precisa mexer na taxa de juros, porque o preço do petróleo vai cair em uma semana, duas semanas. Não é o caso aqui”, explicou Roberto Dumas.
Cenário global exige cautela
Carlos Honorato ponderou que falar em estagflação global exige cautela, já que as economias têm estruturas, políticas e capacidades de reação diferentes. Países como China e Índia, por exemplo, contam com maior capacidade de intervenção estatal, o que pode alterar a dinâmica interna de oferta, demanda e crescimento.
Ainda assim, Honorato afirmou que as distorções atuais têm origem em processos acumulados desde a crise de 2008 e foram ampliadas pela pandemia, quando houve forte injeção de dinheiro nas economias. A esse quadro se somam tensões geopolíticas, dificuldades logísticas e encarecimento das cadeias de produção, fatores que podem afetar diretamente a economia real.
“Estagflação global talvez seja meio complexo porque você tem muitas variações de economias”, ponderou Carlos Honorato.
Europa, Ásia e Estados Unidos entram no alerta
Ao ampliar a análise para Europa e Ásia, Dumas destacou que o problema não está restrito a uma única região. Na Ásia, ele citou a dependência de alguns países em relação ao suprimento de petróleo e o risco de racionamento de energia. Na Europa, o quadro combina crescimento fraco, envelhecimento populacional, dívida pública elevada, necessidade de gastos com defesa e maior custo energético após a redução da dependência do gás russo.
Nos Estados Unidos, a preocupação passa pela curva de juros, pela inflação ainda acima da meta e pela possibilidade de o Federal Reserve não ter espaço para cortar juros. Para Dumas, esse ambiente pode manter a economia americana pressionada, com risco de recessão acompanhada de inflação ainda relevante.
“O mundo está crescendo menos”, avaliou Roberto Dumas.
Brasil enfrenta crescimento baixo e custo financeiro elevado
No caso brasileiro, Honorato avaliou que o país segue com crescimento limitado e dificuldade de sustentar uma expansão mais forte. Segundo ele, a falta de acesso a dinheiro mais barato pesa sobre empresas e negócios, mesmo quando há projetos com potencial econômico.
A discussão também passou pela fragilidade estrutural do Brasil diante de choques externos. Honorato observou que o país tem setores relevantes, como o agronegócio, mas continua exposto a riscos internacionais por depender de insumos, fertilizantes, energia e fluxos globais de produção.
“A gente funciona aos trancos e barrancos”, resumiu Carlos Honorato.
Consumo, investimento e problema fiscal e os riscos de estagflação
Dumas afirmou que o Brasil não precisa de mais estímulo ao consumo, mas de mais investimento. Na visão dele, o próprio Banco Central já aponta que o hiato do produto está positivo, ou seja, a economia opera acima do seu potencial, mesmo com crescimento considerado baixo.
Para o economista, novos estímulos ao consumo podem elevar a inflação e pressionar ainda mais a política monetária. A saída, segundo ele, passa por um ajuste fiscal capaz de reduzir a curva de juros, melhorar o custo de carregamento da dívida e abrir espaço para um ciclo econômico menos dependente de medidas pontuais.
“Então o que a gente precisa é de mais investimento e não consumo. Mais consumo vai gerar mais inflação”, destacou Roberto Dumas.
Inflação, meta e credibilidade
O debate também abordou a possibilidade de mudar a forma de leitura da inflação, retirando itens voláteis do cálculo, como alimentos e energia. Honorato comparou essa discussão a alterar o termômetro em vez de enfrentar a febre, argumentando que mudanças desse tipo não resolvem o problema de preços percebido pela população.
Dumas reforçou que o Federal Reserve pode observar núcleos de inflação, mas continua olhando o índice cheio. Para ele, a meta brasileira foi desenhada para acomodar choques dentro da banda de tolerância, sem transformar medidas alternativas no principal indicador de política monetária.
“A meta da inflação, ela é muito clara nesse sentido. Você vai fazer o CPI cheio, o IPC cheio”, explicou Roberto Dumas.
Mercado, política e percepção econômica
Honorato chamou atenção para a diferença entre a visão técnica do mercado e o posicionamento político dos agentes financeiros. Segundo ele, além da leitura econômica, o mercado também observa quem terá capacidade de conduzir a agenda desejada no próximo ciclo político.
A avaliação é que o governo ainda pode tentar reconstruir apoio por meio de medidas de impacto direto sobre a população, mas o efeito econômico dessas iniciativas é limitado se não houver melhora real no poder de compra. Para Dumas, retirar itens como alimentos ou combustíveis da leitura da inflação não muda a percepção do consumidor no supermercado ou no posto de gasolina.
“A população não vai fazer isso”, afirmou Roberto Dumas.
Endividamento, renda e comportamento
A discussão sobre o Desenrola e o endividamento das famílias levou os convidados a abordarem a relação entre renda, crédito e comportamento financeiro. Honorato afirmou que parte das dívidas não está ligada a consumo supérfluo, mas à tentativa de complementar uma renda insuficiente diante do custo de vida.
Dumas acrescentou que o problema envolve tanto renda quanto comportamento, especialmente pelo uso recorrente do cartão de crédito como forma de financiamento. Para ele, a falta de educação financeira agrava o quadro, mas o baixo crescimento da produtividade também limita a capacidade de avanço estrutural da renda.
“O comportamento significa que existe uma falta de educação financeira do brasileiro”, analisou Roberto Dumas.
O custo de inventar soluções
A PEC 6 por 1 também foi tratada como exemplo de medida com potencial de ampliar distorções na economia. Para Dumas, a redução da jornada pode elevar custos se não vier acompanhada de ganho equivalente de produtividade, o que tende a gerar repasses para preços e pressão adicional sobre empresas.
Honorato encerrou a análise defendendo que o Brasil precisa voltar a princípios básicos de política econômica, em vez de criar soluções pontuais ou mudanças de regra em momentos de fragilidade. A síntese do Painel BM&C é que a estagflação, mesmo sem se tornar um rótulo global uniforme, já aparece como risco em várias frentes: inflação resistente, juros altos, crescimento fraco, choques geopolíticos, fragilidade fiscal e perda de confiança.
“Não adianta fugir do que diz o manual, do que diz a regra e do que diz o que já deu certo”, concluiu Carlos Honorato.














