Dias atrás, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou que o “sistema” trabalhava contra a sua administração. Lembrou o momento em que um de seus antecessores, Jânio Quadros, reclamou da falta de apoio do Congresso ao renunciar ao Planalto. “Sinto-me, porém, esmagado. Forças terríveis levantam-se contra mim e me intrigam ou infamam, até com a desculpa de colaboração”, escreveu Jânio em sua carta de renúncia.
Embora Lula não tenha a menor intenção de desistir de seu mandato, há algo que o une a Jânio: a total falta de sintonia com o Congresso e a frustração de não poder realizar suas vontades por conta de má vontade dos parlamentares. A derrota sofrida por ele na semana passada ficará registrada na história como a primeira rejeição de um indicado ao Supremo Tribunal Federal da era moderna.
O discurso de candidato antissistema, no entanto, não deve vingar – assim como não vingou a ladainha de “forças terríveis” (expressão muitas vezes confundida com “forças ocultas”) perpetrada por Jânio. Não deixa de ser esquisito alguém que está em seu terceiro mandato presidencial (e influiu diretamente na eleição de sua sucessora, Dilma Rousseff) dizer que é contrário a essa entidade sem rosto, mas que supostamente manda em tudo: o sistema.
No dia 22 de abril, pouco mais de uma semana antes de Lula levantar essa bola, MONEY REPORT publicou um artigo sobre o tema, intitulado “Quem seria o candidato do sistema?”. Nesse texto, escrevi o seguinte: “Onde está concentrada a maior autoridade neste país? O Supremo Tribunal Federal. Teoricamente, quem estiver mais próximo do STF é aquele que seria o candidato do sistema. Neste caso, é possível dizer que Lula é aquele está mais próximo dos ministros do Supremo – até porque o PT indicou a maioria dos juízes que atuam na mais alta corte do país”.
Curiosamente, os últimos políticos a usarem esse argumento para concorrer a cargos eletivos foram políticos de direita: o ex-presidente Jair Bolsonaro e o ex-coach Pablo Marçal, quando tentou a prefeitura de São Paulo. Ao tentar se mostrar contra o establishment, Lula tenta angariar o voto dos mais jovens, que estão insatisfeitos com todo o cenário político. O problema dessa estratégia, no entanto, é que os jovens formam o grupo etário que mais rejeita o presidente. São 74% aqueles que desaprovam o presidente entre quem tem entre 16 e 34 anos.
O que Lula pode esperar ao se posicionar como alguém que desafia os poderosos? Há mais alguma semelhança com Jânio Quadros, além dessa?
Em tese, Lula poderia obter algum apoio entre eleitores que se sentem distantes das instituições e que veem a política como um ambiente controlado por interesses que não se revelam. Esse tipo de discurso costuma atrair quem está frustrado com o funcionamento do Estado e busca alguém que verbalize essa insatisfação. O problema é que essas palavras saem da boca de alguém que já ocupou o centro do poder por tantos anos, não de um outsider que enfrenta estruturas rígidas. A tentativa de se colocar como antagonista de um sistema que ele próprio ajudou a moldar vai gerar dúvidas sobre a autenticidade dessa postura.
Existe outra semelhança possível com Jânio Quadros. Ambos recorreram a explicações externas para justificar momentos de desgaste político. Jânio falava em pressões difusas para explicar sua incapacidade de avançar com sua agenda. Lula atribui resistências a um conjunto de forças que o impediria de governar como deseja. Nos dois casos, a ideia de um adversário invisível funciona como recurso para reorganizar a narrativa e deslocar o foco da incompetência política. A diferença é que Jânio usou esse argumento como parte de um gesto abrupto que encerrou seu governo. Lula utiliza a mesma lógica para tentar reforçar sua posição e recuperar influência dentro do próprio sistema que critica.
Conseguirá? No quadro atual, depois das derrotas impostas pelo Senado, isso é quase impossível.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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