Nas encostas da Serra do Lenheiro, onde paulistas e portugueses se enfrentaram pelo metal precioso há mais de 320 anos, São João del-Rei guarda o conjunto barroco mais singular do Campo das Vertentes. A cidade nasceu em 1704, foi elevada a vila em 1713 em homenagem a Dom João V, e hoje reúne fachadas de Aleijadinho, uma orquestra que toca há quase 250 anos sem interrupção e o trem mais antigo do Brasil em operação.
Como nasceu o Arraial Novo do Rio das Mortes?
O Arraial Novo do Rio das Mortes nasceu em 1704, quando o paulista Lourenço da Costa descobriu ouro no Ribeirão de São Francisco Xavier, ao norte da Serra do Lenheiro. Pouco depois, o português Manoel José de Barcelos achou novas jazidas no local chamado Tejuco, formando o primeiro núcleo do povoamento, segundo registro da Superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em Minas Gerais.
A disputa pelas jazidas levou à Guerra dos Emboabas (1707-1709), conflito entre paulistas e portugueses que marcou a região. Em 8 de dezembro de 1713, o arraial foi elevado a vila com o nome de São João del-Rei, em homenagem ao rei português Dom João V. No ano seguinte, tornou-se sede da Comarca do Rio das Mortes, posição que reforçou seu papel de polo administrativo da capitania.

Reconhecimentos do IPHAN e da UNESCO
O conjunto arquitetônico e urbanístico de São João del-Rei foi tombado pelo IPHAN em 1938, com cerca de 700 imóveis protegidos individualmente. A cidade foi escolhida como Capital Brasileira da Cultura em 2007, conforme registro do portal do IPHAN.
A Orquestra Lira Sanjoanense, fundada em 1776, é reconhecida como a orquestra mais antiga das Américas em atividade contínua, segundo pesquisa divulgada pela UNESCO e citada pela plataforma Sons das Vertentes da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). O grupo cumpre cerca de 272 apresentações anuais em irmandades e celebrações religiosas. O município abriga ainda a Orquestra Ribeiro Bastos, formada no século XVIII, o que faz da cidade rara concentração de corporações musicais setecentistas em pleno funcionamento.

Curiosidades que poucos turistas conhecem
São João del-Rei guarda um patrimônio invisível ao visitante comum: uma cidade subterrânea cavada por escravizados no século XVIII para extração de ouro. São cerca de 20 betas de grande profundidade conectadas por longas galerias na rocha, o ventre mineral que financiou as igrejas douradas e as pontes de pedra do centro histórico. Nenhuma outra cidade mineira reúne patrimônio semelhante ao que aparece em superfície.
Outra marca rara é o cognome de “Terra dos Sinos”. Os toques das torres barrocas seguem códigos centenários, indicando missas, mortes ou festividades, e ainda regem o cotidiano sanjoanense. A Lira Sanjoanense floresceu graças a esse universo religioso, formando compositores como o padre José Maria Xavier (1819-1887), responsável por algumas das mais antigas partituras da música sacra brasileira.
O que fazer em São João del-Rei?
O centro histórico de São João del-Rei concentra igrejas barrocas, museus e casarões coloniais em poucas quadras acessíveis a pé. As atrações mais visitadas combinam arte sacra, ferrovia centenária e memória política, conforme o roteiro descrito pelo Guia Viajar Melhor:
- Igreja de São Francisco de Assis: iniciada em 1774, com fachada e altares assinados por Aleijadinho. Abriga o túmulo do ex-presidente Tancredo Neves.
- Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar: construção iniciada em 1721, com talha dourada, seis altares barrocos e duas telas portuguesas trazidas em 1732.
- Maria Fumaça: trem turístico de 12 km até Tiradentes, operado pela VLI, com a locomotiva mais antiga do Brasil em funcionamento.
- Museu Ferroviário: instalado na antiga Estação da Estrada de Ferro Oeste de Minas, com peças originais e a rotunda histórica.
- Memorial Tancredo Neves: dedicado ao presidente eleito em 1985, com acervo digital sobre a vida política do sanjoanense.
- Museu Regional de São João del-Rei: funciona em casarão do século XIX e reúne mobiliário e objetos do Ciclo do Ouro.
A cozinha local é puro repertório mineiro, com forte influência da herança portuguesa e da tradição cafeeira:
- Pão de queijo: feito com polvilho azedo e queijo Minas curado, é servido quente na maioria das padarias e cafeterias do centro.
- Tutu de feijão com torresmo: prato emblemático, com farinha de mandioca, feijão preto e couve refogada.
- Frango com quiabo: receita do Campo das Vertentes, geralmente acompanhada de angu cremoso.
- Doce de leite artesanal: feito em tachos de cobre, vendido em pedaços ou em compota nas casas de doces.
- Queijo Minas artesanal: produzido por tradição familiar nas fazendas vizinhas, com sabor mais marcante quanto mais curado.
Quer conhecer 10 curiosidades sobre São João del-Rei (MG), uma das mais belas cidades históricas de Minas Gerais? Vai curtir esse vídeo:
Qual a melhor época para visitar São João del-Rei?
A melhor época para visitar São João del-Rei vai de abril a setembro, período mais seco e fresco, ideal para caminhar pelo centro histórico. A cidade fica a cerca de 900 metros de altitude e tem clima tropical de altitude, com inverno seco e verão chuvoso. Confira como cada estação se comporta:
Período com alto volume pluviométrico. Aproveite as manhãs para conhecer as cachoeiras localizadas na Serra de São José.
Acompanhe as tradicionais procissões de Semana Santa nas ruas. Estação marcada por temperaturas mais frescas e diminuição das chuvas.
Dias de céu aberto e clima seco dominam a região. Excelente janela climática para passear na clássica Maria Fumaça.
Termômetros voltam a subir gradativamente. Caminhe pelo centro histórico e explore o acervo dos museus da Terra dos Sinos.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
A Semana Santa é o ponto alto do calendário, com procissões barrocas, missas conduzidas pelas orquestras seculares e os toques de sinos que dão à cidade o apelido de Terra dos Sinos. Em junho, festas juninas e celebrações religiosas movimentam o centro histórico. Os meses de junho a agosto também trazem o melhor clima para o passeio de Maria Fumaça, com manhãs de céu aberto e temperaturas amenas.
Como chegar em São João del-Rei?
São João del-Rei fica a 185 km de Belo Horizonte, cerca de 3 horas pela BR-040 até Barbacena e depois pela BR-265. Quem vem do Rio de Janeiro percorre cerca de 320 km pela BR-040 e BR-265, em aproximadamente 4 horas e 30 minutos. A cidade também tem ônibus regulares saindo das duas capitais, operados por viações como Útil e Sandra.
O Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins, é o aeroporto mais próximo, a cerca de 200 km. Tiradentes está a apenas 12 km e pode ser conhecida no mesmo dia, seja de carro ou pelo passeio de Maria Fumaça que sai da estação central.
Conheça a Terra dos Sinos
São João del-Rei concentra três séculos de história em um centro histórico onde Aleijadinho talhou pedra-sabão, escravizados cavaram galerias subterrâneas e Dom Pedro II inaugurou um trem que continua rodando. Poucas cidades brasileiras conseguem reunir patrimônio barroco, ferroviário e musical em tão pouco espaço.
Você precisa subir as ladeiras de pedra de São João del-Rei e ouvir os sinos das igrejas marcando a tarde, num ritmo que segue intacto desde os tempos do ciclo do ouro.

