Uma lendária metrópole portuária submersa há 1200 anos que foi descoberta intacta no fundo do oceano por arqueólogos marinhos
Antes mesmo que a cidade de Alexandria ser fundada, qualquer navio de origem grega que tivesse a intenção de adentrar o território do Egito era obrigado a passar por um único e estratégico local. A cidade atendia pelo nome de Thonis para os egípcios e de Heracleion para os gregos, e o fato de que essas duas denominações se referiam a um mesmo porto permaneceu como um grande mistério durante séculos. Nos dias de hoje, a cidade de Thonis-Heracleion repousa a uma distância de 6,5 quilômetros da costa egípcia, submersa sob cerca de 10 metros de água na Baía de Aboukir, e até agora apenas 5% de toda a sua extensão foi devidamente escavada.
Como foi possível que uma cidade inteira desaparecesse sem deixar vestígios
O solo que caracteriza o delta do Rio Nilo é composto por camadas de argila que se encontram saturadas de água e por uma areia de consistência bastante solta. No momento em que terremotos de grande intensidade atingiam essa região, esse tipo de solo perdia por completo a sua capacidade de resistência e passava a se comportar de maneira semelhante a um líquido, em um fenômeno que é conhecido pelo nome de liquefação. Templos, estátuas e residências afundaram diretamente no próprio chão que lhes servia de base. Pesquisas que foram conduzidas pelo Instituto Europeu de Arqueologia Subaquática (IEASM), em regime de cooperação com o Smithsonian Institution e com a Universidade Stanford, confirmaram que houve uma ação conjunta de três fatores: o afundamento lento e gradual do solo, a elevação contínua do nível do mar e a ocorrência de eventos sísmicos.
Um grande terremoto que ocorreu por volta do século II a.C. foi o responsável por derrubar blocos colossais que faziam parte do templo de Amon sobre as embarcações que estavam ancoradas no canal sul da cidade. Apesar da catástrofe, uma parcela da população ainda insistiu em permanecer no local. Pequenas ilhas continuaram a existir acima da linha d’água até o século VI d.C., período em que ainda se tem notícia de um convento de freiras que funcionava sobre os escombros. Foi somente no século VIII d.C. que um segundo e poderoso abalo sísmico terminou por engolir aquilo que ainda restava. Thonis-Heracleion permaneceu selada sob uma espessa camada de lodo e areia por longos 1200 anos.

A descoberta que finalmente solucionou um enigma de séculos
No ano de 1933, um piloto que servia à Força Aérea Real britânica relatou ter avistado estranhos contornos submersos enquanto sobrevoava a região de Aboukir. Décadas mais tarde, precisamente em 1996, o arqueólogo francês Franck Goddio deu início a uma série de varreduras sistemáticas utilizando equipamentos como magnetômetros de ressonância magnética nuclear, sonares de varredura lateral e perfiladores de subfundo. Os primeiros vestígios concretos da cidade perdida só vieram a aparecer no ano 2000. A equipe do IEASM levou cerca de seis anos para conseguir mapear toda a área de interesse da pesquisa, que abrange impressionantes 110 quilômetros quadrados.
A descoberta que se mostrou mais reveladora foi a de uma estela esculpida em granodiorito negro, que foi encontrada nas proximidades do templo dedicado a Amon. O texto que estava gravado na pedra, que consistia em um decreto do faraó Nectanebo I (que reinou entre 378 e 362 a.C.), fazia menção explícita ao nome Thonis e determinava que a estela deveria ser colocada justamente naquela cidade. Ali estava a prova definitiva que faltava: Thonis e Heracleion eram, de fato, uma única e mesma cidade, e não dois locais distintos, como acreditavam os historiadores havia muitos séculos.

A passagem de Helena de Troia por ali, antes mesmo da guerra
O historiador grego Heródoto, que fez uma visita à cidade por volta do ano 450 a.C., deixou registrado em seus escritos que Páris e Helena fizeram uma parada em Thonis durante a sua célebre fuga de Esparta. Segundo o relato, os servos que acompanhavam Páris teriam procurado refúgio no templo de Héracles que ficava à beira da costa e, uma vez lá, contaram aos sacerdotes toda a história do rapto da rainha. O guardião responsável pela entrada do Nilo, que também se chamava Thonis, teria então capturado Páris e levado Helena até Mênfis para que fosse julgada pelo faraó Proteu.
Heródoto foi ainda mais além em sua narrativa: ele chegou a afirmar categoricamente que Helena nunca esteve de fato em Troia, e que os gregos sitiaram a cidade sem ter conhecimento de que ela se encontrava a salvo no Egito. Essa versão alternativa da Guerra de Troia coloca Thonis-Heracleion exatamente no centro de uma das narrativas mais famosas e debatidas de toda a Antiguidade.
A embarcação que deu razão aos relatos de Heródoto 2500 anos depois
Durante o período que vai de 2009 a 2011, a equipe liderada por Goddio realizou a escavação dos restos de uma embarcação que foi batizada com o nome de Ship 17. O seu casco, que era feito de madeira de acácia e media aproximadamente 28 metros de comprimento, foi encontrado em um impressionante estado de conservação de 70% sob a camada de lodo que o recobria. A forma como a embarcação havia sido construída era idêntica à descrição minuciosa que Heródoto havia feito de um tipo específico de barco que ele chamava de baris: pranchas de madeira de pequeno comprimento que eram dispostas como se fossem tijolos, unidas por longas nervuras internas também de madeira, e calafetadas com o uso de papiro.
Até aquele momento, nenhum vestígio arqueológico que correspondesse a esse tipo de embarcação havia sido encontrado, o que levava muitos estudiosos a duvidar da veracidade do relato de Heródoto. Uma publicação do Oxford Centre for Maritime Archaeology no ano de 2019 veio a confirmar que a descrição do historiador batia perfeitamente com o achado arqueológico. O arqueólogo Alexander Belov chegou a sugerir que essa embarcação pode ter saído do mesmo estaleiro que Heródoto teve a oportunidade de visitar.

Um verdadeiro cemitério de navios e a maior estátua de uma divindade do Egito antigo
Mais de 700 âncoras e um total de pelo menos 64 embarcações naufragadas já foram devidamente catalogados nos canais e portos que pertenciam a Thonis-Heracleion, formando o que pode ser considerado um dos maiores cemitérios navais de todo o mundo antigo. As embarcações ali encontradas cobrem um longo período que se estende do século VI ao século II a.C., e algumas delas parecem ter sido propositalmente afundadas com o objetivo de bloquear determinados canais ou de reforçar a própria infraestrutura portuária da cidade.
Entre as descobertas que mais causam impacto está a de uma estátua de proporções colossais do deus Hapy, que era a divindade associada à inundação anual do Nilo. Esculpida em um bloco de granito de cor vermelha, a estátua atinge a altura de 5,4 metros e tem seu peso estimado em cerca de 6 toneladas. De acordo com as informações do IEASM, esta é a maior estátua de uma divindade egípcia que já foi encontrada até os dias de hoje. Outras estátuas colossais, que representam um rei e uma rainha do período ptolomaico e que medem cerca de 5 metros cada, também foram recuperadas e atualmente estão em exibição no Grande Museu Egípcio, localizado em Gizé.
Thonis-Heracleion ainda esconde 95% de todos os seus segredos
A cidade que, por quatro séculos seguidos, controlou a principal porta de entrada para o Egito permanece quase que completamente intocada sob as águas do Mediterrâneo. Joias confeccionadas em ouro, delicados instrumentos rituais feitos de prata, cerâmicas de origem grega e até mesmo cestas de vime que ainda contêm sementes de uva e frutos de palma doum, todos perfeitamente intactos após transcorridos 2400 anos, não param de surgir a cada nova temporada de escavações. No ano de 2023, a equipe de arqueólogos descobriu um santuário que era dedicado à deusa Afrodite, uma evidência bastante clara de que os gregos não eram apenas comerciantes que estavam de passagem pela cidade, mas sim moradores que ali residiam de forma permanente.
O próprio Goddio já fez uma estimativa de que seriam necessários nada menos do que 200 anos de trabalho contínuo para que se possa revelar e compreender por completo toda a extensão e complexidade de Thonis-Heracleion. A cidade que jaz submersa na Baía de Aboukir representa, ao mesmo tempo, uma cápsula do tempo perfeitamente preservada e um lembrete poderoso de que civilizações inteiras podem simplesmente desaparecer sob as águas e permanecer ali, em silêncio, aguardando, com 95% de suas histórias ainda esperando para serem contadas.

