Conhecemos mais a superfície da Lua do que o fundo dos nossos próprios oceanos. Em março de 2025, a NASA divulgou os resultados do satélite SWOT (Surface Water and Ocean Topography), uma parceria com a agência espacial francesa CNES: com apenas um ano de dados, o equipamento produziu mapas do fundo oceânico com resolução duas vezes superior à obtida com 30 anos de altimetria convencional.
Como um satélite consegue enxergar o fundo do oceano do espaço?
O satélite SWOT não usa sonar. Ele mede com precisão milimétrica as variações na altura da superfície do oceano causadas pela gravidade. Montanhas submarinas e estruturas tectônicas possuem mais massa do que o leito plano ao redor, e essa massa cria pequenas elevações detectáveis na superfície da água acima delas.
O instrumento central do satélite, o KaRIn (Ka-band Radar Interferometer), opera com varredura bidirecional em faixa de 120 km de largura e cobertura global a cada 21 dias, a uma altitude orbital de 890 km. Os resultados foram publicados em dezembro de 2024 no periódico Science pelos pesquisadores Yao Yu e David Sandwell do Scripps Institution of Oceanography (Universidade da Califórnia, San Diego).

O que o satélite encontrou no fundo dos oceanos?
As descobertas superaram todas as expectativas da equipe científica. Segundo o comunicado oficial da NASA, a precisão obtida com apenas um ano de dados supera as melhores medições acumuladas em três décadas de altimetria convencional. Entre as estruturas reveladas estão:
- Colinas abissais individuais com 200 a 300 metros de altura, distribuídas nos 75% do fundo oceânico nunca mapeados por navios com sonar.
- Milhares de seamounts (montes submarinos) com menos de 500 metros de altura, abaixo do limiar de detecção dos satélites anteriores, que só captavam estruturas acima de 1 km.
- Estruturas tectônicas soterradas sob sedimentos e gelo, incluindo zonas de fratura e cadeias vulcânicas formadas há milhões de anos.
- Cânions submarinos e margens continentais com detalhes nunca antes registrados.

Por que as colinas abissais são tão importantes para a ciência?
As colinas abissais são particularmente relevantes porque seus padrões de alinhamento registram a direção e a velocidade de espalhamento do fundo oceânico ao longo de milhões de anos. Com esses dados, é possível reconstruir com maior precisão os movimentos passados das placas tectônicas e entender melhor a história geológica do planeta.
O modelo de gravidade gerado pelo satélite SWOT, denominado SWOT_02, oferece resolução de 1 minuto de arco (aproximadamente 1,8 km no equador) com cobertura entre 80° S e 80° N. Os melhores modelos anteriores tinham resolução efetiva de 12 a 16 km, suficiente para grandes cadeias de montanhas submarinas, mas incapaz de capturar feições menores.
O canal Scripps Oceanography, com 15,7 mil inscritos, publicou um vídeo com os pesquisadores Yao Yu e David Sandwell revelando as primeiras imagens de alta resolução do fundo oceânico obtidas pelo SWOT. O vídeo já acumula mais de 40.106 visualizações:
Quais são as aplicações práticas desses mapas do fundo oceânico?
Os mapas gerados pelo satélite SWOT não ficam restritos aos laboratórios de oceanografia. Eles têm aplicação direta em infraestruturas que sustentam a economia global e a segurança de milhões de pessoas. Veja as principais:
- Navegação submarina: submarinos e veículos autônomos dependem de mapas batimétricos precisos para operar com segurança nas profundezas.
- Infraestrutura de cabos e dutos: o traçado de cabos de fibra óptica e dutos submarinos exige conhecimento detalhado do relevo do fundo oceânico.
- Previsão de tsunamis: a topografia do fundo determina como as ondas se propagam e se amplificam em direção à costa.
- Circulação oceânica e clima: as colinas abissais controlam a mistura de camadas de água profunda, com impacto direto sobre o transporte de calor e o ciclo do carbono.
O satélite que está reescrevendo a geografia dos oceanos
Lançado em dezembro de 2022, o satélite SWOT já entregou em menos de dois anos o que décadas de expedições oceanográficas não conseguiram. O estudo publicado na Science representa apenas o começo: quanto mais tempo o satélite opera, mais refinados ficam os modelos e mais estruturas emergem do escuro.
Os 75% do fundo oceânico que nunca foram varridos por sonar de navio agora têm um observador permanente a 890 km de altitude. O oceano sempre foi o maior território inexplorado da Terra, e pela primeira vez existe uma ferramenta à altura do desafio.

