No extremo norte do Amapá, Oiapoque tem uma peculiaridade que nenhuma outra cidade do Brasil compartilha: fica colada na única fronteira terrestre entre o país e a União Europeia. A travessia dura três minutos pela Ponte Binacional.
A ponte que ficou seis anos fechada depois de pronta
A Ponte Binacional Franco-Brasileira atravessa o rio Oiapoque com 378 metros de extensão e duas torres estaiadas de 83 metros de altura. A construção terminou em agosto de 2011, mas a estrutura ficou fechada ao público até março de 2017 por atrasos na alfândega brasileira.
A inauguração oficial aconteceu em 18 de março de 2017, com cerimônia no meio da ponte unindo autoridades do Brasil e da França, segundo registros do Governo do Amapá. O projeto havia sido anunciado 20 anos antes pelos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Jacques Chirac, com custo total de cerca de 30 milhões de euros divididos entre os dois países.

O lado brasileiro de uma fronteira europeia
A Guiana Francesa é departamento ultramarino da França desde 1946 e, portanto, parte integrante da União Europeia. Isso significa que a fronteira de 730 km entre Amapá e o território francês é a maior fronteira terrestre da França em todo o mundo, segundo o Projeto Diplomacia Federativa do Amapá da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP).
A definição do rio Oiapoque como divisor oficial saiu de uma arbitragem internacional em 1º de dezembro de 1900, sob mediação do presidente suíço Walter Hauser. O parecer encerrou a chamada Questão do Amapá, disputa que chegou a produzir um conflito armado em 1895 com mais de cem mortes entre militares e civis.
Quem deseja desvendar os mistérios da divisa entre a Amazônia e a União Europeia, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Boa Sorte Viajante – Matheus Boa Sorte, que conta com mais de 4,8 milhões de visualizações, onde Matheus Boa Sorte explora a vida em Oiapoque, no Amapá, e a curiosa relação com a Guiana Francesa:
Quando é mais fácil ter troco em euro
A economia de Oiapoque roda no ritmo das visitas dos vizinhos. Moradores da Guiana Francesa atravessam o rio diariamente para comprar no lado brasileiro, onde os preços são fração do que pagam em euros do outro lado. Reportagem da National Geographic registrou que, em muitos comércios locais, é mais fácil conseguir troco em euros do que em reais.
Carros com placas da União Europeia circulam nas ruas, e estabelecimentos mantêm placas bilíngues em português e francês. Açougues, churrascarias, lojas de bebidas e salões de beleza funcionam voltados para o público que desce a ponte ou atravessa nas catraias tradicionais. O cabeleireiro Otávio Araújo, entrevistado pela National Geographic, afirmou que a maioria dos clientes do seu salão é francesa.
91 mil brasileiros vivem do outro lado
O fluxo reverso também existe: brasileiros que atravessam para trabalhar no território francês. Segundo dados oficiais do Itamaraty citados em 2022, cerca de 91.500 brasileiros viviam na Guiana Francesa, o que representa aproximadamente 30% da população do departamento ultramarino.
A diferença econômica explica a migração. O salário mínimo na Guiana Francesa segue o padrão francês e passa de 1.700 euros mensais. A maioria dos brasileiros trabalha em construção civil, comércio e serviços, e muitos alunos brasileiros cruzam o rio diariamente para estudar em escolas francesas.
A travessia que acontece por três caminhos
Quem quer atravessar o rio Oiapoque tem três opções principais com características bem distintas:
- Ponte Binacional: três minutos de carro, aberta gratuitamente a veículos particulares, com posto da Polícia Federal do lado brasileiro.
- Catraias: canoas motorizadas dos catraieiros locais, atravessam em 10 minutos e ainda concentram o maior volume diário de pessoas.
- Balsas: transportam veículos de carga entre as margens, usadas sobretudo por comerciantes.
Brasileiros que atravessam pela ponte precisam de visto francês, com custo próximo de 60 euros, além de seguros e taxas. Guianenses entram no Brasil sem visto nem taxa, o que torna o fluxo comercial assimétrico e mantém as catraias como opção preferida por muitos moradores de ambos os lados.
Uma cidade isolada do próprio país
Oiapoque fica a 600 km de Macapá, a capital do Amapá, pela BR-156. Até hoje, cerca de 105 km dessa rodovia federal não foram asfaltados, segundo informações da Wikipédia cruzadas com reportagens do Agência Brasil.
Ironicamente, com a ponte aberta, ficou possível dirigir de Caiena, capital da Guiana Francesa, até Macapá em condições razoáveis no período seco. No período chuvoso, trechos de terra da BR-156 ficam intransitáveis para carros baixos. O paradoxo é concreto: é mais fácil chegar à Europa pela ponte do que chegar ao restante do Brasil por estrada.
Vale a pena conhecer Oiapoque
Oiapoque é o único ponto do Brasil onde se pode sair do país em três minutos e chegar em território da União Europeia sem cruzar o oceano. A cidade abriga a fusão de duas moedas, dois idiomas e duas realidades administrativas em ruas empoeiradas da Amazônia.
Você precisa conhecer Oiapoque e atravessar a ponte que liga o mapa do Brasil diretamente à França no coração da floresta.

