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O submarino civil de 45 milhões de euros que desceu quase 11 mil metros até o ponto mais profundo e escuro da Terra

Laila Por Laila
04/04/2026
Em Engenharia

Em 28 de abril de 2019, o explorador americano Victor Vescovo pilotou o Limiting Factor até 10.928 metros de profundidade, o ponto mais fundo já alcançado por qualquer ser humano na história. Esse submarino civil não apenas chegou lá: repetiu o mergulho mais quatro vezes nos dez dias seguintes, algo que nenhum veículo havia feito antes. Custou 45 milhões de euros e mudou o que se sabia sobre o que a engenharia consegue construir.

Qual era o problema que nenhum submarino havia resolvido antes do Limiting Factor?

Dois submersíveis chegaram anteriormente à Challenger Deep, o ponto mais profundo da Fossa das Marianas: o Trieste, em 1960, e o Deepsea Challenger, de James Cameron, em 2012. Ambos foram aposentados após um único mergulho cada. A engenharia que os tornava capazes de chegar ao fundo os tornava, ao mesmo tempo, incapazes de repetir a façanha com segurança.

O desafio apresentado à Triton Submarines foi diferente: construir um submersível certificado para mergulhos repetidos e ilimitados até a profundidade máxima dos oceanos, com capacidade para dois tripulantes e função como plataforma científica operacional. Ninguém havia conseguido isso antes.

Em 28 de abril de 2019, o explorador americano Victor Vescovo pilotou o Limiting Factor até 10.928 metros de profundidade, o ponto mais fundo já alcançado por qualquer ser humano na história

Leia também: Submarino autônomo descobre estruturas misteriosas sob plataforma de gelo inexplorada na Antártida e desaparece sem deixar rastros

Como é o casco de titânio que permite ao submarino suportar 1.100 kg por cm²?

A peça central do Limiting Factor é sua esfera de pressão, uma casca de 90 mm de espessura em liga de titânio grau 5 (Ti-6Al-4V ELI), com diâmetro interno de 1.500 mm. Essa esfera foi usinada com precisão de 99,933% de esfericidade perfeita, a esfera de titânio mais precisa já fabricada até então. Os dados técnicos do casco revelam a escala do desafio de engenharia:

  • Pressão no fundo da Fossa das Marianas: aproximadamente 1.100 kg por cm², mais de 1.000 vezes a pressão atmosférica ao nível do mar.
  • Teste estrutural realizado até o equivalente a 14.000 metros de profundidade, com margem de segurança superior a 27% acima do limite operacional certificado.
  • Qualquer desvio da forma esférica ideal cria pontos de concentração de tensão que, sob pressão extrema, podem iniciar uma falha catastrófica.
  • Material escolhido: titânio forjado, e não fibra de carbono, considerada inadequada para pressão cíclica em profundidades extremas.

Por que o Limiting Factor é radicalmente diferente do submarino Titan da OceanGate?

O Limiting Factor é o único submersível de profundidade total certificado pela DNV (Det Norske Veritas), uma das principais classificadoras navais do mundo, para mergulhos repetidos até 11.000 metros. Nenhum outro submersível de profundidade total recebeu essa certificação antes ou depois dele.

Esse detalhe ganhou relevância após o colapso do Titan, da OceanGate, em junho de 2023, veículo que operava sem certificação de terceiros e com casco híbrido de fibra de carbono. O contraste é total: casco de titânio forjado, tolerâncias de fabricação sem precedentes e auditoria externa independente em cada etapa do processo construtivo.

O canal Blueprint, com mais de 184 mil inscritos no YouTube, detalha em documentário a engenharia revolucionária por trás do Limiting Factor, desde a fabricação do casco esférico de titânio até o sistema de descarte de lastro magnético de emergência:

Quais são os sistemas internos do submarino que garantem 16 horas de autonomia?

No casco esférico, dois ocupantes dispõem de 16 horas de autonomia operacional, com reserva de emergência para suporte de vida por até 96 horas adicionais. O sistema foi projetado para operar em ambiente de visibilidade zero, onde não existe absolutamente nenhuma luz natural abaixo dos 1.000 metros. Os principais componentes do sistema interno incluem:

  • 10 propulsores de 5,5 kW cada: quatro principais, quatro verticais e dois de manobra, permitindo movimentação precisa em qualquer eixo.
  • Banco de baterias de 65 kWh para alimentar propulsão, sistemas de suporte de vida e eletrônica de bordo.
  • 10 holofotes LED de 20.000 lúmens cada, necessários porque a escuridão abaixo de 1.000 metros é total e permanente.
  • Sistema de descarte de lastro magnético que garante subida automática à superfície em caso de perda total de energia.

O que a Expedição Five Deeps descobriu no fundo dos oceanos?

O Limiting Factor foi construído especificamente para a Expedição Five Deeps, o projeto de Victor Vescovo para alcançar o ponto mais profundo de cada um dos cinco oceanos. Entre 2018 e 2019, a expedição completou todos os cinco mergulhos: Atlântico (Fossa de Porto Rico, 8.376 m), Índico (Fossa de Java, 7.187 m), Pacífico Sul (Fossa de Tonga, 10.823 m), Ártico (Fossa de Molloy, 5.550 m) e Pacífico (Challenger Deep, 10.928 m, posteriormente corrigido para 10.935 m após pós-processamento dos dados).

No fundo da Challenger Deep, a expedição coletou amostras de água, sedimentos e organismos vivos. Encontrou também fragmentos de plástico e um saco de supermercado, evidência de contaminação humana no ponto mais remoto e inacessível do planeta.

Encontrou também fragmentos de plástico e um saco de supermercado, evidência de contaminação humana no ponto mais remoto e inacessível do planeta

O que o submarino fez depois da expedição histórica?

Após a expedição, o Limiting Factor foi adquirido pela Inkfish e continuou operando ativamente. Segundo o registro histórico do veículo, entre seus feitos posteriores estão a localização e filmagem dos destroços do USS Johnston (6.469 m) e do USS Samuel B. Roberts (6.865 m) na Fossa das Filipinas, os mergulhos a destroços mais profundos da história. O submarino também realizou mergulhos ao RMS Titanic e ao submarino francês Minerve.

De acordo com a Triton Submarines, mais de 21 pessoas já visitaram a Challenger Deep a bordo do DSV Limiting Factor, tornando-o o único veículo da história a levar múltiplos tripulantes ao ponto mais profundo da Terra de forma repetida e certificada.

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Após a expedição, o Limiting Factor foi adquirido pela Inkfish e continuou operando ativamente

O submarino que provou que o fundo do oceano pode ser visitado mais de uma vez

O que o Limiting Factor representa não é apenas um recorde de profundidade. É a prova de que mergulhos repetidos ao ponto mais extremo do planeta são tecnicamente possíveis com engenharia suficientemente rigorosa e certificação independente. Um padrão que o colapso do Titan tornou ainda mais relevante.

O fundo da Fossa das Marianas não é mais um destino de ida só. É um lugar que esse submarino visitou mais de dez vezes e ao qual, com a tecnologia certa, outros poderão continuar voltando.

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