Se você já viu uma aeronave que parece sorrir enquanto voa, provavelmente estava olhando para o avião cargueiro mais famoso do mundo. O BelugaXL, da Airbus, tem fuselagem inflada, nariz que abre como uma boca enorme e silhueta inconfundível de baleia beluga, e por trás da aparência cômica está uma lógica de engenharia que sustenta toda a produção de aviões comerciais na Europa.
Por que a Airbus precisou construir um avião cargueiro tão estranho?
A Airbus não fabrica seus aviões em um único lugar. As fuselagens saem de Saint-Nazaire e Hamburgo, as asas são produzidas em Broughton, no País de Gales, as seções de cauda vêm de Cádiz e Getafe, na Espanha. Tudo isso precisa chegar à linha de montagem final em Toulouse ou Hamburgo em prazos rígidos. Um atraso no transporte de uma asa pode paralisar toda a cadeia de produção.
Caminhões e navios são lentos e limitados por pontes e canais. Aviões convencionais não comportam peças de até 30 metros de comprimento. A solução foi construir seus próprios cargueiros e torná-los tão grandes quanto a tarefa exigia.

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Como o BelugaXL foi desenvolvido a partir de um avião de passageiros?
A primeira geração, o BelugaST (Super Transporter), era baseada no A300-600 e entrou em serviço em 1995. O BelugaXL veio depois, derivado do A330-200, e recebeu certificação de tipo da EASA. Para criar o enorme compartimento superior, os engenheiros rebaixaram a ponte de comando, liberando toda a parte superior da fuselagem para a carga.
O nariz da aeronave abre completamente para cima, permitindo o carregamento frontal de peças que não passariam por nenhuma outra abertura. Em 2026, com a frota completa de seis BelugaXLs em operação, a Airbus aposentou definitivamente os cinco BelugaSTs. A partir de meados de 2027, o BelugaXL será o único avião cargueiro de componentes da Airbus na Europa.

Quais são os números que fazem o BelugaXL impressionar?
A diferença entre as duas gerações vai além da aparência. Segundo a Airbus, o BelugaXL tem 30% mais capacidade que o BelugaST e consegue transportar duas asas completas do A350 XWB, com 30 metros cada, ao mesmo tempo, numa façanha que antes exigia dois voos separados. As principais especificações comparadas são:
- Comprimento: 63,1 m no BelugaXL contra 56,2 m no BelugaST
- Capacidade de carga: 51 toneladas no BelugaXL contra 47 toneladas no BelugaST
- Volume do porão: 2.209 m³ no BelugaXL contra 1.400 m³ no BelugaST
- Alcance máximo com carga cheia: 4.000 km no BelugaXL contra 1.666 km no BelugaST
- Motores: Rolls-Royce Trent 700 no BelugaXL contra CFM56-5C no BelugaST

Como é a operação diária desse avião cargueiro na Europa?
A frota de seis BelugaXLs opera entre 11 destinos na Europa, com voos curtos e giros rápidos no solo. A rotina combina precisão logística com infraestrutura especializada em terra. Entre as características que tornam essa operação possível, destacam-se:
- Instalações especializadas em cada sítio, sincronizadas com a porta dianteira do avião para minimizar o tempo em terra
- Dimensões equivalentes a dois cachalotes azuis enfileirados e altura de um prédio de três andares
- Capacidade de transportar peças de até 30 metros que não cabem em nenhum outro avião comercial
O canal TV Cultura, com mais de 2,81 milhões de inscritos, dedicou um episódio completo do programa Asas e Histórias para contar a trajetória do Beluga, desde a inspiração nos cargueiros Super Guppy da NASA, usados no programa Apollo, até a evolução para o BelugaXL:
O sorriso no nariz foi escolhido pelo público?
O rosto sorridente pintado no nariz não é acidental. Em 2018, a Airbus realizou uma votação pública para escolher o design do focinho do BelugaXL, e o sorriso venceu por ampla maioria. O resultado foi uma aeronave com personalidade visual própria, reconhecida instantaneamente em qualquer aeroporto europeu.
O detalhe humaniza uma máquina de logística industrial e criou um vínculo afetivo entre o avião e o público, algo raro no segmento de aviação de carga. Não é à toa que o BelugaXL virou presença constante em canais de aviação e redes sociais sempre que aparece no céu.

O que vai acontecer com os aviões cargueiros BelugaST aposentados?
Com a aposentadoria da frota original, a Airbus busca novos destinos para os cinco BelugaSTs. Em janeiro de 2026, a empresa anunciou que um dos exemplares será transformado em centro de educação em STEM em Broughton, no País de Gales, perto da fábrica onde as asas do BelugaXL foram fabricadas.
É um encerramento de ciclo com uma certa poesia: a mesma aeronave que por décadas transportou as asas de outros aviões vai agora inspirar a próxima geração de engenheiros a construir os que seguem. O BelugaST não voa mais, mas ainda tem muito a ensinar.

