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A milenar metrópole oásis erguida a 258 metros abaixo do nível do mar que ostenta o título de localidade mais baixa do globo

Vitor Por Vitor
01/04/2026
Em Cidades

Antes das pirâmides, antes da escrita, antes de qualquer civilização que o mundo ocidental conhece, havia Jericó. A cidade palestina no Vale do Jordão acumula dois recordes simultâneos: é o assentamento humano habitado mais antigo do planeta e o de menor altitude já registrado, cravado 258 metros abaixo do nível do mar.

Como uma falha tectônica criou o lugar mais fundo da Terra

Jericó não escolheu sua posição por acaso. A cidade nasceu no interior do Vale do Rift, uma falha geológica que atravessa o planeta desde o norte da África até a Turquia, cobrindo cerca de 2.400 km². Movimentos tectônicos milenares empurraram o terreno gradualmente para baixo, criando uma das depressões mais profundas já habitadas por seres humanos.

O resultado é uma altitude negativa de 258 metros, confirmada por medições topográficas e registros arqueológicos citados pela Wikipédia com base em fontes acadêmicas. Estar tão abaixo do nível do mar altera o próprio ar: a pressão atmosférica é maior, o calor se concentra com mais facilidade e o verão pode ser brutal. Ainda assim, a cidade nunca foi abandonada.

A milenar metrópole oásis erguida a 258 metros abaixo do nível do mar que ostenta o título de localidade mais baixa do globo
Jericó destaca-se no Vale do Jordão como o assentamento humano habitado há mais tempo em todo o planeta (imagem ilustrativa)

Uma cidade antes das pirâmides e da invenção da escrita

Os primeiros humanos se instalaram em Jericó por volta de 9.000 a.C., segundo estimativas arqueológicas amplamente aceitas. Isso coloca a cidade cerca de 5.500 anos antes das grandes pirâmides do Egito e bem antes da invenção da escrita na Mesopotâmia. Escavações realizadas desde o final do século 19 revelaram camadas sobrepostas de ocupação humana, com restos de mais de 20 civilizações distintas identificadas no mesmo sítio.

Na Bíblia, Jericó aparece descrita como a “Cidade das Palmeiras” e é mencionada em passagens do Antigo e do Novo Testamento. No livro de Josué, as muralhas da cidade teriam desabado ao som de trombetas. No Novo Testamento, foi em Jericó que Jesus curou o cego Bartimeu e visitou Zaqueu, o cobrador de impostos que subiu numa árvore para vê-lo passar. Em 2023, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) reconheceu o sítio arqueológico de Tell es-Sultan, nas imediações da cidade, como Patrimônio Mundial da Humanidade, declarando-o “a cidade fortificada mais antiga do mundo”.

Quem sonha em conhecer a cidade mais antiga do mundo, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Viaje Por Conta, que conta com mais de 90 mil visualizações, onde Tiago e Gisele mostram as relíquias de Jericó, na Palestina:

A torre de pedra que antecede as pirâmides em 5 mil anos

Em Tell es-Sultan, a cerca de 2 km do centro moderno de Jericó, os arqueólogos encontraram algo que muda a noção de “construção antiga”. A chamada Torre de Jericó, datada de aproximadamente 8.500 a.C., é uma estrutura circular de pedra com mais de 8 metros de altura, base de 13 metros de largura e uma escada interna de 22 degraus talhados em bloco único. Ela é considerada a edificação monumental de pedra mais antiga que ainda pode ser observada, anterior às pirâmides em cerca de 5 mil anos.

Junto à torre, pesquisadores identificaram a muralha defensiva mais antiga já descoberta, construída por volta de 8.000 a.C., segundo registros citados pelo Terra. A estrutura defensiva indica que a comunidade já tinha organização social sofisticada e domínio de engenharia muito antes do que se costuma imaginar. O sítio também revelou um dos achados mais perturbadores da arqueologia pré-histórica: crânios humanos recobertos com gesso e pintados com cores naturais, numa prática ritual única no registro arqueológico mundial.

Leia também: 13.416 pessoas por km² e nenhum metro quadrado de área rural: a cidade mais apertada do Brasil fica colada em São Paulo

Por que uma nascente salvou a cidade por 11 mil anos

O paradoxo de Jericó é simples: uma cidade no deserto que nunca secou. A resposta está na Fonte de Ain es-Sultan, conhecida também como “Fonte de Eliseu”, que jorra água doce há milênios e transformou o oásis em terra agriculturável desde os primeiros assentamentos. Sem ela, nenhum dos recordes de Jericó existiria.

Graças à irrigação, a cidade se tornou uma das principais fornecedoras de tâmaras, bananas e cítricos da região. Os cerca de 20 mil habitantes atuais, segundo dados citados por diversas fontes baseadas no censo palestino, mantêm a agricultura como atividade central, assim como faziam as comunidades de 9.000 a.C. A localização no Vale do Jordão ainda oferecia vantagens estratégicas ao longo dos séculos. Veja os principais fatores que garantiram a permanência humana no local:

  • Fonte de Ain es-Sultan: nascente perene de água doce que garantiu irrigação contínua desde a pré-história, citada inclusive em textos bíblicos.
  • Solo fértil do oásis: a combinação de umidade subterrânea e calor intenso favorece cultivos como tâmaras, consideradas de alta qualidade e exportadas para outros países.
  • Posição estratégica: próxima ao Rio Jordão e a cerca de 10 km do Mar Morto, Jericó controlava rotas de caravanas e o acesso ao sal, essencial para a conservação de alimentos no mundo antigo.
  • Pressão atmosférica elevada: estar abaixo do nível do mar resulta em ar mais denso, condição que pesquisadores associam a benefícios respiratórios e de recuperação muscular.

O que a UNESCO protege e o que ainda existe para ver

A inscrição de Tell es-Sultan na lista da UNESCO em setembro de 2023 consolidou o reconhecimento internacional de Jericó como testemunho das origens da urbanização humana. O sítio reúne evidências da transição do nomadismo para a vida sedentária, com vestígios de habitações circulares de barro, ferramentas de pedra, sistemas defensivos e rituais funerários únicos. É o quarto Patrimônio Mundial reconhecido em território palestino.

Para quem visita, o roteiro histórico e espiritual da cidade inclui os principais pontos a seguir:

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  • Tell es-Sultan: sítio arqueológico com a Torre de Jericó e as ruínas da muralha mais antiga do mundo. Acesso mediante ingresso.
  • Mosteiro da Tentação: monastério grego-ortodoxo cravado na rocha do monte onde, segundo a tradição cristã, Jesus jejuou por 40 dias. Acessível por teleférico.
  • Fonte de Eliseu: nascente pré-histórica com inscrição em suas paredes: “Cidade mais antiga do mundo”.
  • Ruínas do Palácio de Herodes: construído pelo rei Herodes, o Grande, com jardins e aquedutos, durante o domínio romano. Os vestígios ainda podem ser visitados.

A cidade que o tempo não conseguiu abandonar

Jericó foi conquistada, destruída e reconstruída por cananeus, israelitas, babilônios, gregos, romanos, bizantinos e árabes. Cada povo deixou uma camada no monte de Tell es-Sultan, e a cidade ergueu novos muros sobre os escombros dos antigos. Nenhuma das civilizações que passaram por ali conseguiu fazer o que parecia mais óbvio: abandonar o lugar de vez.

Se você puder fazer apenas uma parada fora dos circuitos turísticos tradicionais do Oriente Médio, que seja Jericó, a cidade que existe há 11 mil anos porque descobriu, antes de qualquer outra, que água e organização bastam para desafiar a geografia mais improvável do planeta.

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