O que seria mais um dia comum de escavações numa rua movimentada se tornou uma das descobertas arqueológicas mais surpreendentes dos últimos anos na Europa. Durante obras para substituição do sistema de esgoto em Wijk bij Duurstede, na Holanda, operários encontraram uma viga de madeira trabalhada com até 1.300 anos de idade que pode ser parte de uma embarcação da era viking, preservada sob o solo de uma cidade que foi, há milênios, um dos maiores portos medievais do continente.
Como a viga de madeira foi encontrada durante a obra de esgoto?
A peça foi identificada ainda durante as escavações por Danny van Basten, voluntário da ArcheoTeam Wijk bij Duurstede, grupo de arqueologia amadora local. Ao reconhecer o potencial histórico da madeira, ele acionou imediatamente as autoridades municipais, evitando que a peça fosse danificada ou descartada.
Em resposta, equipes especializadas da Stichting Beheer Vikingschip (Fundação para a Gestão de Navios Vikings) e do Museum Dorestad foram mobilizadas para avaliar o material. A arqueóloga municipal responsável pela investigação, Anne de Hoop, classificou a descoberta como “única”, destacando que nunca antes haviam sido encontrados restos de embarcações da era viking naquela cidade.

O que as características físicas da viga revelam sobre sua origem?
A viga de madeira mede 3,2 metros de comprimento e 30 centímetros de espessura, com indícios de que originalmente era ainda maior. O especialista em construção naval Kees Sterrenburg analisou a peça e identificou três elementos que apontam para uma embarcação medieval:
- Formato estrutural característico: compatível com técnicas de construção naval do norte da Europa durante a Idade Média
- Marcas de entalhe nas bordas: evidência de trabalho manual com ferramentas da época, descartando origem natural ou industrial
- Acabamento manual da madeira: padrão de acabamento coerente com a carpintaria naval medieval escandinava

A viga pertence a um navio viking ou a uma embarcação medieval mais recente?
Os primeiros indícios apontam para o período carolíngio, entre os séculos VIII e IX, o mesmo período em que os vikings dominavam as rotas marítimas e fluviais do norte europeu. Essa datação se baseia nas características estruturais da viga de madeira e em fragmentos de cerâmica encontrados nas proximidades, datados pelo estilo e pela composição.
No entanto, os especialistas não descartam uma origem mais recente. Existe a hipótese de que a peça pertença a um navio do tipo “coca”, embarcação comercial medieval de fundo chato muito comum nos séculos XIII e XIV, o que indicaria uma data próxima ao ano 1300. A resposta definitiva virá da dendrocronologia, análise dos anéis de crescimento da madeira capaz de determinar com precisão o ano em que a árvore foi cortada e, portanto, a data aproximada de construção da embarcação.

Por que Wijk bij Duurstede é um dos locais mais prováveis do mundo para uma descoberta como essa?
Segundo o Dutch News, a localização da descoberta não surpreende os historiadores. A atual Wijk bij Duurstede foi, entre os séculos VII e IX, o sítio do antigo porto de Dorestad, um dos maiores e mais importantes centros comerciais da Europa medieval, com até 20.000 habitantes em seu apogeu.
Dorestad era o principal entreposto de comércio entre o Império Carolíngio e os povos do norte europeu, recebendo embarcações de toda a costa atlântica e do Mar do Norte. O porto foi repetidamente saqueado pelos vikings entre os anos 834 e 863, antes de ser definitivamente abandonado após a mudança do curso do Rio Reno.
Onde a viga de madeira está agora e quais são os próximos passos da investigação?
A peça foi retirada do solo e armazenada em câmara fria para preservar a madeira úmida, procedimento padrão para peças orgânicas arqueológicas que se deterioram rapidamente quando expostas ao ar seco. A análise dendrocronológica está prevista para as próximas semanas e deve encerrar a dúvida sobre a datação exata.
O local onde a viga foi encontrada pode ter sido um antigo canal ou braço do Rio Reno, levantando a hipótese de que os restos da embarcação tenham sido levados pela correnteza após um naufrágio ou abandono. Outras peças do mesmo navio podem ainda estar enterradas na mesma área. O Museum Dorestad já manifestou interesse em expor a peça ao público assim que as investigações estiverem concluídas.

O que essa descoberta revela sobre o que ainda está enterrado sob cidades medievais europeias
A viga de madeira de Wijk bij Duurstede é um lembrete de que o subsolo das cidades medievais europeias ainda guarda camadas de história intocadas. Em uma cidade que foi centro comercial de um continente inteiro, cada obra de infraestrutura é, potencialmente, uma janela para o passado.
E o fato de que foi um voluntário de arqueologia amadora, não uma equipe institucional, a fazer a identificação inicial revela algo igualmente importante: parte do patrimônio histórico da humanidade depende de pessoas comuns que sabem o que estão vendo quando o chão abre.

