No centro do planalto iraniano, onde o termômetro ultrapassa os 40°C no verão e a chuva quase não cai, mais de 500 mil pessoas vivem em uma das maiores cidades de adobe do planeta. Yazd, no Irã, resolveu o problema do calor extremo séculos antes da eletricidade: ergueu cerca de 700 torres de vento que capturam a brisa, reduzem a temperatura interna dos edifícios em até 12°C e dispensam qualquer fonte de energia. A UNESCO reconheceu a cidade como Patrimônio Mundial em 2017, chamando-a de “testemunho vivo do uso de recursos limitados para a sobrevivência no deserto”.
Como funciona o ar-condicionado de barro e vento
As torres de vento, chamadas badgir em persa (literalmente, “caçador de vento”), são estruturas erguidas acima dos telhados com aberturas verticais em uma ou mais faces. O vento entra pelas frestas superiores, desce pelo interior da torre e chega aos cômodos abaixo. No caminho, o ar pode passar sobre um tanque de água ou sobre o fluxo de um qanat (aqueduto subterrâneo), o que amplifica o resfriamento por evaporação.
Estudos citados pelo Tehran Times indicam que os badgirs reduzem a temperatura interna entre 8°C e 12°C. Em reservatórios públicos de água equipados com várias torres, a temperatura pode cair a níveis próximos do congelamento, mesmo em pleno verão. A torre funciona também sem vento: quando o ar está p

arado, as paredes aquecidas pelo sol criam uma corrente ascendente que puxa o ar fresco do subsolo e dos pátios internos.
A torre mais alta do mundo fica em um jardim persa
O Jardim de Dowlatabad, construído durante a dinastia Zand em 1747, abriga o badgir mais alto do planeta: 33,8 metros de altura, com formato octogonal e decoração elaborada tanto por dentro quanto por fora. O jardim é um dos nove Jardins Persas inscritos na lista da UNESCO e ocupa cerca de 40 mil m². A torre resfria o pavilhão central sem nenhum mecanismo elétrico, usando apenas o desenho dos dutos internos e a passagem do ar sobre canais de água.
Yazd tem também o único reservatório de água com seis torres de vento do mundo, o Shesh Badgir Ab Anbar. A combinação das seis torres cria uma circulação de ar tão eficiente que a água armazenada se mantém fresca por meses. Na cidade, a mais antiga torre de vento preservada data do século XIV, mas referências históricas sugerem que a tecnologia existe há pelo menos 2.500 anos.
Quem deseja conhecer o Irã, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Adele Journeys, que conta com mais de 55 mil visualizações, onde mostram a arquitetura de Yazd, uma cidade desértica de 5.000 anos:
A água que viaja por baixo do deserto
As torres de vento não funcionariam sozinhas. Sob Yazd, corre uma das maiores redes de qanats do mundo, canais subterrâneos escavados à mão que transportam água de lençóis freáticos e montanhas até o interior da cidade. A técnica é tão importante que a UNESCO também reconheceu os qanats persas como Patrimônio Mundial. O Irã ainda tem cerca de 33 mil qanats em operação, embora o número venha caindo com o esgotamento dos aquíferos.
A combinação de badgirs, qanats, paredes grossas de adobe, pátios internos e ruelas cobertas cria um microclima urbano que torna Yazd habitável apesar dos seus míseros 49 mm de precipitação anual. Tudo isso sem eletricidade, sem emissão de carbono e sem custo de manutenção além do trabalho manual.

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Um fogo que arde há mais de 1500 anos
Yazd é um dos últimos redutos do zoroastrismo, uma das religiões mais antigas do mundo. O Templo do Fogo de Yazd (Atashkadeh) mantém uma chama que, segundo a tradição, arde ininterruptamente desde o ano 470 d.C., mais de 1.500 anos. A chama é protegida por um vidro e cuidada por sacerdotes. Cerca de mil zoroastrianos ainda vivem na cidade, ao lado de uma maioria muçulmana e de uma pequena comunidade judaica.
Essa coexistência pacífica entre três religiões é uma das razões pelas quais a UNESCO reconheceu o valor cultural de Yazd. Na periferia da cidade, as Torres do Silêncio (Dakhma), estruturas circulares elevadas onde os zoroastrianos realizavam rituais funerários, permanecem como testemunho de práticas que antecederam a era islâmica. Marco Polo passou por Yazd em 1272 e registrou a prosperidade da indústria local de seda, que ainda existe.
A cidade antiga que inspira a arquitetura do futuro
O princípio dos badgirs está sendo replicado em construções contemporâneas mundo afora. A cidade sustentável de Masdar, nos Emirados Árabes, incorporou ventilação natural inspirada nas torres persas. O Eastgate Centre, complexo comercial em Harare (Zimbábue), usa ventilação baseada em cupinzeiros, uma abordagem que arquitetos comparam diretamente ao sistema de Yazd. O arquiteto iraniano Roland Dehghan Kamaraji, baseado em Paris, resumiu o conceito à AFP: os badgirs provam que soluções sustentáveis não precisam ser complexas nem de alta tecnologia.
Yazd recebe 49 mm de chuva, enfrenta verões acima de 40°C e existe há mais de 5 mil anos. Enquanto o restante do mundo tenta inventar formas de resfriar edifícios sem destruir o clima, essa cidade de barro no meio do deserto iraniano já tinha a resposta pronta, escrita em argila e vento.

