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A cidade científica no continente gelado que abriga 1200 investigadores sem qualquer população nativa

Vitor Por Vitor
25/03/2026
Em Cidades

No ponto mais austral de terra firme acessível por navio, a Estação McMurdo funciona como uma pequena cidade com porto, aeroportos, capela e até caixas eletrônicos. Erguida sobre a rocha vulcânica da Península Hut Point, na Ilha Ross, ela abriga até 1.200 pessoas no verão polar e é a maior comunidade de um continente inteiro que não tem nenhum habitante nativo.

Como surgiu uma cidade no continente mais frio do planeta

Tudo começou com barracas. Em dezembro de 1955, um navio quebra-gelo da Marinha dos Estados Unidos atracou na Ilha Ross como parte da Operação Deep Freeze. A ideia era montar uma base de apoio para o Ano Geofísico Internacional, programa científico que reuniu dezenas de países entre 1957 e 1958. As barracas logo deram lugar a construções pré-fabricadas, e o acampamento nunca mais foi desmontado.

Hoje a estação é administrada pelo Programa Antártico dos Estados Unidos (USAP), ligado à Fundação Nacional de Ciência (NSF). São aproximadamente 146 edifícios espalhados por 2,6 km² de rocha vulcânica, incluindo laboratórios, dormitórios, oficinas, hospital, estação de bombeiros e o Centro de Ciência e Engenharia A. P. Crary. A apenas 25 km, o Monte Erebus, vulcão ativo mais austral da Terra, completa o cenário com seus 3.794 metros de altitude.

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Estação McMurdo destaca-se como a minicidade científica na Antártida, operando 146 edifícios sobre rocha vulcânica e gelo (imagem ilustrativa)

O reator nuclear que funcionou por dez anos sobre o gelo

Entre 1962 e 1972, McMurdo teve sua própria usina nuclear. O reator PM-3A, apelidado de “Nukey Poo” pela equipe, foi projetado para caber dentro de um avião C-130 Hercules, embora tenha chegado por navio. Cada módulo pesava no máximo 13,6 toneladas e media cerca de 2,6 m × 2,6 m × 9 m. O núcleo cabia dentro de um tambor de petróleo.

A usina gerava 1,8 megawatt e substituía o consumo diário de quase 5.700 litros de óleo diesel. Durante dez anos, porém, acumulou 438 incidentes operacionais, conforme registros do Departamento de Assuntos de Veteranos dos EUA. Em 1972, fissuras e vazamentos levaram ao descomissionamento. Cerca de 12 mil toneladas de rocha contaminada foram removidas e enviadas de volta aos Estados Unidos, já que o Tratado Antártico proíbe o descarte de resíduos radioativos no continente.

Caixas eletrônicos e bares no fim do mundo

McMurdo não é só ciência. A estação tem dois caixas eletrônicos do Wells Fargo, reconhecidos pelo Guinness como os mais austrais do planeta. Como não há serviço de transporte de valores, funcionários da própria base são treinados para reabastecer as máquinas. O dinheiro circula em uma economia praticamente fechada: cafés, loja de conveniência, correios e dois bares.

A Chapel of the Snows, igreja interconfessional reconstruída em 1989 após um incêndio, recebe cultos protestantes, católicos e eventos comunitários. Na virada de cada ano, McMurdo sedia o Icestock, considerado o festival de música mais ao sul da Terra, com apresentações de moradores da estação e da vizinha Scott Base (Nova Zelândia), que fica a apenas 3 km de distância.

A cidade científica no continente gelado que abriga 1200 investigadores sem qualquer população nativa
Estação McMurdo oferece a estrutura de uma comunidade completa, contando com capela e caixas eletrônicos para até 1.200 pessoas (imagem ilustrativa)

A estrada mais austral do mundo liga McMurdo ao Polo Sul

Construída entre 2002 e 2005, a South Pole Traverse percorre cerca de 1.600 km de neve compactada e gelo entre McMurdo e a Estação Amundsen-Scott, no Polo Sul. A travessia leva aproximadamente 25 dias e transporta 280 mil litros de combustível e 9 toneladas de carga por viagem. Antes dela, tudo dependia de voos de LC-130, que levam cerca de três horas, mas são frequentemente cancelados pelo clima.

A rota precisa ser refeita parcialmente a cada temporada porque as camadas de gelo se movem. O trecho mais difícil é a subida pelo Glaciar Leverett, onde fendas se abrem com frequência. Ainda assim, a estrada reduziu o número de voos anuais ao Polo Sul de cerca de 400 para 75, segundo a NSF.

A cidade científica no continente gelado que abriga 1200 investigadores sem qualquer população nativa
Estação McMurdo brilha como a maior ocupação humana de um continente inteiro que não possui nenhuma população nativa (imagem ilustrativa)

O que a ciência faz no lugar mais isolado da Terra

A temperatura média anual em McMurdo é de -18°C, com mínimas que já atingiram -50°C. Entre abril e setembro, o sol desaparece completamente. Mesmo assim, cerca de 200 pessoas permanecem durante o inverno polar, mantendo equipamentos e coletando dados. No verão, a população salta para mais de mil, e a estação vira um centro de pesquisa em aeronomia, biologia marinha, glaciologia, geofísica e astronomia.

Toda a logística depende de entregas anuais. Navios cargueiros da Operação Deep Freeze trazem cerca de 42 milhões de litros de combustível e 5 milhões de quilos de suprimentos por temporada. A água potável vem de uma planta de dessalinização própria, e turbinas eólicas compartilhadas com a Scott Base complementam a energia gerada por diesel. McMurdo não produz quase nada do que consome, mas recicla e trata seu próprio esgoto desde que o Protocolo de Proteção Ambiental do Tratado Antártico entrou em vigor em 1998.

Quem tem curiosidade sobre a vida no gelo, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Matty Jordan – Antarctica, que conta com mais de 245 mil visualizações, onde Matty Jordan faz um tour completo pela Estação McMurdo, a maior base de pesquisa da Antártida:

Um continente inteiro sem donos

McMurdo existe sob as regras do Tratado Antártico, assinado em 1959 por 12 países e hoje ratificado por mais de 45 nações. O acordo proíbe atividade militar, mineração, testes nucleares e descarte de resíduos radioativos. A Antártida não pertence a nenhum país e não tem população permanente. Tudo o que existe ali, de laboratórios a bares, é temporário por definição.

A cabana de madeira erguida pelo explorador britânico Robert Falcon Scott em 1902, a poucos metros do porto de McMurdo, continua de pé. É protegida como Área Antártica Especialmente Protegida e pode ser visitada por moradores da estação. Entre a relíquia de mais de um século e os 146 edifícios modernos, McMurdo conta a história de como a humanidade decidiu ocupar o lugar mais inóspito do planeta, não para morar, mas para entender.

Se a ciência tem um endereço no fim do mundo, ele fica na rocha vulcânica da Ilha Ross, a 3.864 km da cidade mais próxima, onde o sol some por meses e caixas eletrônicos dispensam dólares para quem precisa comprar uma cerveja depois do expediente.

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