Duas paredes espelhadas de 500 m de altura cortando 170 km de deserto, sem um único carro nas ruas. Esse era o plano original de The Line, a cidade linear que a Arábia Saudita começou a erguer na província de Tabuk, no noroeste do país, à beira do Mar Vermelho. O projeto nasceu grandioso, tropeçou na realidade e hoje vive uma reinvenção que diz muito sobre os limites da ambição humana.
De onde veio a ideia de uma cidade em linha reta?
O conceito de cidade linear não nasceu no deserto. Em 1882, o urbanista espanhol Arturo Soria y Mata imaginou uma metrópole organizada ao longo de uma linha de bonde em Madri. O projeto foi parcialmente executado, mas a falta de apoio enterrou a proposta. Nos anos 1950, o arquiteto franco-húngaro Yona Friedman propôs uma “cidade espacial” modular e vertical para combater o espraiamento urbano. A ideia ficou no papel.
The Line resgatou essa lógica com uma escala sem precedentes. Anunciada em janeiro de 2021 pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, a cidade seria a peça central do NEOM, um megaprojeto de US$ 500 bilhões dentro do plano Vision 2030 para diversificar a economia saudita. O desenho, atribuído ao escritório americano Morphosis, previa duas estruturas paralelas revestidas de vidro espelhado, com 200 m de largura, 500 m de altura e 170 km de extensão. Capacidade: 9 milhões de moradores.

Quarenta arranha-céus e 6.000 estacas perfuradas no deserto
A engenharia por trás da Fase 1 impressiona mesmo reduzida. O plano previa 40 núcleos verticais de 500 m, erguidos ao longo de uma fundação de 2,4 km. Cerca de 2 milhões de toneladas de treliças de aço conectariam esses núcleos, formando os decks horizontais da cidade. O revestimento externo consumiria 2,1 milhões de metros quadrados de vidro espelhado, segundo dados divulgados pela Parametric Architecture.
No canteiro, 60 sondas de perfuração operaram 24 horas por dia, instalando entre 60 e 65 estacas diárias. Ao todo, aproximadamente 6.000 estacas foram cravadas em 2 km de deserto. Algumas tinham entre 2,5 e 3 m de diâmetro, classificadas por engenheiros do projeto como as maiores do mundo. Só o trabalho de fundação custou alguns bilhões de dólares, segundo relatos de profissionais que atuaram na obra.

O muro de concreto que a realidade impôs ao projeto
A escala da ambição cobrou seu preço rápido. Uma auditoria interna vazada para o Wall Street Journal em 2025 revelou que o custo total projetado da cidade chegava a US$ 8,8 trilhões, com prazo estimado de conclusão em 2080. Até setembro de 2025, cerca de US$ 50 bilhões já haviam sido gastos. O Fundo de Investimento Público (PIF), que financia o NEOM, registrou uma baixa contábil de US$ 8 bilhões em seus gigaprojetos.
O preço do petróleo agravou a situação. Com o barril girando em torno de US$ 71 em meados de 2025, bem abaixo dos US$ 96 necessários para equilibrar o orçamento saudita segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), conforme reportagem da Newsweek, a conta não fechava. Em abril de 2025, a força de trabalho ativa no NEOM foi reduzida em 35%. Em 16 de setembro de 2025, o PIF suspendeu formalmente a construção de The Line por tempo indeterminado, segundo a Wikipedia.
De megacidade a hub de inteligência artificial
A suspensão não significou abandono total do terreno. Em janeiro de 2026, a Arábia Saudita adiou indefinidamente os Jogos Asiáticos de Inverno, previstos para 2029 na estação de esqui Trojena, outra região do NEOM, conforme noticiado pela Euronews. Logo depois, em fevereiro de 2026, o NEOM anunciou uma parceria de US$ 5 bilhões com a DataVolt para construir um campus de data centers de inteligência artificial na zona industrial Oxagon, à beira do Mar Vermelho.
A localização costeira virou trunfo: a água salgada pode ser usada para refrigeração dos servidores, viabilizando operações de emissão zero sem consumo de água doce. A infraestrutura de energia solar e eólica já parcialmente instalada no NEOM alimentaria o complexo. O que nasceu como cidade futurista começou a se transformar em uma fábrica de processamento de dados.

Uma estrutura que dividiria a fauna e o deserto ao meio
Além dos custos, a barreira espelhada de 170 km levantou preocupações ambientais concretas. Biólogos alertaram que a estrutura cortaria rotas migratórias de aves na região, uma área de passagem entre a África e a Ásia. O vidro espelhado, reconhecido como uma das maiores causas de morte de aves em centros urbanos, revestiria milhões de metros quadrados de fachada exposta ao deserto.
Pesquisadores de direitos digitais, como Vincent Mosco, também alertaram para o risco de vigilância. O volume de dados coletados pelos sistemas de inteligência artificial previstos para a cidade, combinado com o histórico de direitos humanos da Arábia Saudita, levou especialistas a classificar The Line como potencial “cidade de vigilância”. A questão dos direitos humanos ganhou contornos ainda mais graves com a remoção forçada da tribo Howeitat, que habitava o território destinado ao NEOM.
O maior espelho do mundo ainda reflete algum futuro?
The Line permanece, em março de 2026, como um dos experimentos urbanos mais intrigantes e controversos do século. As fundações de concreto estão no deserto. As sondas e as fábricas de concreto seguem no canteiro, paradas. A revisão estratégica do PIF deve apresentar conclusões nos próximos meses, mas nenhum prazo oficial de retomada foi anunciado.
Se a versão original da cidade espelhada ficou para trás, o que foi construído, aprendido e debatido não desaparece. Você pode não visitar The Line tão cedo, mas vale acompanhar de perto o destino dessa aposta colossal que testou, como poucas vezes na história, o limite entre visão e miragem.

