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O paraíso dos piratas habitado por 6500 pessoas que afundou no oceano em minutos e hoje funciona como um laboratório vivo para geólogos

Vitor Por Vitor
19/03/2026
Em Cidades

Em 7 de junho de 1692, o chão de areia sob Port Royal se comportou como líquido. Em poucos minutos, dois terços da cidade mais próspera do Caribe inglês deslizaram para dentro do mar, levando ruas inteiras, fortes, tavernas e cerca de 2 mil pessoas. O que restou debaixo d’água se conservou tão bem que arqueólogos a comparam a Pompeia.

De forte espanhol a capital mundial da pirataria

Construída sobre uma faixa de areia na entrada do porto de Kingston, na Jamaica, Port Royal cresceu rapidamente depois que os ingleses tomaram a ilha dos espanhóis em 1655. Em menos de quatro décadas, a cidade reuniu mais de 6.500 habitantes, 2 mil edifícios comprimidos em cerca de 21 hectares e pelo menos uma taverna para cada dez moradores. Em julho de 1661, quarenta novas licenças para bares foram concedidas em um único mês.

A riqueza vinha do corso e do contrabando. Piratas como Henry Morgan usavam o porto de águas profundas como base para atacar frotas espanholas carregadas de ouro. Comerciantes, ourives e prostitutas dividiam as ruas com corsários. Cronistas da época chamavam Port Royal de “a cidade mais perversa e pecadora do mundo”. Moedas de ouro circulavam com tanta frequência que substituíam o escambo comum nas demais colônias.

Um relógio parado às 11h43 marca o instante exato em que a cidade pirata mais rica das Américas afundou no Caribe (imagem ilustrativa)

O terremoto que transformou areia em areia movediça

Na manhã de 7 de junho de 1692, três tremores sucessivos atingiram a Jamaica. O terceiro, o mais violento, provocou um fenômeno que cientistas hoje chamam de liquefação: o solo arenoso e saturado de água se comportou como uma pasta, incapaz de sustentar qualquer peso. Edifícios pesados de alvenaria, construídos no estilo europeu sobre uma língua de areia e coral, simplesmente afundaram.

Cerca de 33 acres, quase dois terços da cidade, desapareceram abaixo do nível do mar em minutos, segundo registros compilados pela Wikipedia com base em relatos históricos e análises sísmicas. Um tsunami atingiu o que restava logo em seguida. O navio HMS Swan foi arrancado do porto e depositado sobre o telhado de um edifício. Relatos de testemunhas descrevem pessoas engolidas pelo chão até o pescoço, com a terra se fechando sobre elas como uma armadilha.

Quem se fascina por histórias de pirataria, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Reino Arcano | Piratas e Lendas do Mar, que conta com mais de 8 mil visualizações, onde Leonardo Arcano explora a ascensão e o trágico fim de Port Royal, na Jamaica:

O relógio que congelou o desastre no tempo

Em 1959, o explorador e inventor americano Edwin Link liderou uma das primeiras investigações arqueológicas subaquáticas no porto de Kingston. Entre os artefatos recuperados estava um relógio de bolso fabricado na Holanda pelo relojoeiro francês Blondel, por volta de 1686. Os ponteiros estavam parados às 11h43 da manhã, coincidindo com os relatos da época sobre o horário do terremoto.

Esse objeto se tornou o símbolo mais conhecido de Port Royal. A peça funciona como evidência física que cruza dados históricos com achados arqueológicos, confirmando a cronologia do desastre com uma precisão rara para eventos do século 17.

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Um relógio parado às 11h43 marca o instante exato em que a cidade pirata mais rica das Américas afundou no Caribe (imagem ilustrativa)

A Pompeia do Caribe sob 12 metros de água

Entre 1981 e 1990, o Nautical Archaeology Program da Texas A&M University, em parceria com o Jamaica National Heritage Trust e o Institute of Nautical Archaeology (INA), conduziu a mais extensa campanha de escavações subaquáticas no sítio. O trabalho se concentrou na antiga Lime Street, próxima à interseção com Queen Street e High Street, coração comercial da cidade pré-terremoto.

Oito edifícios foram investigados. A água com baixos níveis de oxigênio preservou materiais orgânicos que normalmente se perderiam: pisos de tijolo em padrão espinha de peixe, paredes com reboco, batentes de madeira, porcelanas chinesas, talheres de prata, cachimbos de argila e até vidraças de chumbo intactas. Diferente de sítios arqueológicos convencionais, onde camadas de ocupação se sobrepõem ao longo de séculos, Port Royal oferece um retrato congelado de um único momento: a manhã em que tudo parou.

Leia também: 13.416 pessoas por km² e nenhum metro quadrado de área rural: a cidade mais apertada do Brasil fica colada em São Paulo

Patrimônio Mundial e o futuro da cidade submersa

Em 12 de julho de 2025, o Comitê do Patrimônio Mundial inscreveu o Conjunto Arqueológico de Port Royal do Século 17 na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO. Port Royal se tornou o segundo sítio jamaicano na lista, ao lado das Montanhas Blue e John Crow, e o primeiro a combinar patrimônio terrestre e subaquático em uma única inscrição. A nomeação, conduzida pelo Jamaica National Heritage Trust (JNHT), levou mais de uma década entre a inclusão na lista indicativa, em 2009, e a aprovação final em Paris.

A área permanece protegida por duas legislações nacionais: o JNHT Act de 1985 e o NRCA Act de 1991. As ruínas submarinas continuam intactas sob camadas de sedimento, e especialistas do JNHT afirmam que nenhum outro assentamento britânico no mundo apresenta estado de conservação comparável. Hoje, Port Royal é uma pequena vila de pescadores com menos de 2 mil habitantes, a 27 km de Kingston, onde o Fort Charles, único forte completamente de pé, e a St. Peter’s Church sobrevivem como últimos vestígios visíveis do século 17.

A cidade que parou no tempo sob o mar do Caribe

Port Royal existiu como potência por apenas 37 anos antes de desaparecer no oceano. Esse intervalo curto, porém, deixou um dos registros arqueológicos mais completos de uma cidade colonial inglesa. Cada artefato resgatado do fundo do porto de Kingston é uma janela direta para a vida cotidiana do século 17, sem filtros de séculos de ocupação.

Se você estiver na Jamaica, vale a caminhada até a ponta da península de Palisadoes para ver o lugar onde a cidade mais rica e temida do Caribe dormiu por três séculos sob lâminas de água verde.

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