O escritório islandês s.ap architects desenvolveu a lava vulcânica como material estrutural de construção civil, propondo direcionar magma derretido por canais controlados até que esfrie e forme fundações sólidas. O projeto se chama Lavaforming e representou a Islândia no Pavilhão Nacional da Bienal de Arquitetura de Veneza 2025.
O que é o Lavaforming e como o projeto chegou à Bienal de Veneza?
O Lavaforming foi criado pela arquiteta Arnhildur Pálmadóttir, à frente do escritório s.ap architects, em parceria com Arnar Skarphéðinsson, Björg Skarphéðinsdóttir e Sukanya Mukherjee. A proposta foi apresentada pela primeira vez no festival DesignMarch de Reykjavík, em 2022, e ganhou projeção internacional ao ser selecionada para representar a Islândia em Veneza.
É importante ressaltar que o Lavaforming é, até o momento, um projeto conceitual e de pesquisa. A equipe realizou experimentos reais com basalto e lava para demonstrar a viabilidade técnica do conceito, mas o projeto ainda está na fase de prototipagem, sem aplicação em obras reais.

Como a lava vulcânica é controlada para virar material de construção civil?
A proposta consiste em perfurar o solo até atingir a lava derretida e direcioná-la por canais controlados até que esfrie e forme estruturas sólidas. Segundo a cobertura da ArchDaily sobre o Pavilhão Nacional da Islândia em Veneza, uma única erupção efusiva pode fornecer material suficiente para as fundações de uma cidade inteira em poucas semanas, sem mineração prejudicial ou uso de energia não renovável.
O projeto prevê três formas distintas de aproveitamento da lava vulcânica como material construtivo:
- Direcionamento para câmaras de moldagem, onde a lava esfria em formatos predefinidos conforme o projeto estrutural
- Uso em estado derretido para impressão 3D, permitindo geometrias complexas e personalizadas
- Condução por canais paralelos onde a lava solidifica no próprio local, formando a base estrutural diretamente no terreno
O maior obstáculo: manipular um material que supera 1.100°C
A lava vulcânica pode superar 1.100 °C, o que exige extremo cuidado em toda a cadeia de manipulação. Geólogos e engenheiros trabalham em colaboração com o escritório para estudar como resfriar a lava de maneira controlada, de forma que ela solidifique com firmeza e sem fissuras. Se o resfriamento ocorrer inadequadamente, a estrutura resultante pode apresentar fragilidades estruturais graves.

O canal Docs Fabricando, com mais de 60,2 mil inscritos, publicou um vídeo detalhando como engenheiros e autoridades na Islândia constroem barreiras gigantes, utilizam água do mar e mobilizam máquinas para desacelerar o avanço da lava e proteger cidades e infraestruturas, ilustrando na prática os desafios de trabalhar com esse material em escala real:
Por que a lava vulcânica pode substituir o cimento e reduzir emissões de CO₂ na construção civil?
O maior argumento a favor do Lavaforming é a redução drástica das emissões de CO₂. A produção de cimento convencional é uma das maiores fontes de gases de efeito estufa na indústria da construção. A lava, por ser um recurso geológico já disponível e ativo, dispensa mineração intensiva e geração de energia não renovável para ser produzida.
A tabela abaixo compara os dois materiais nos critérios mais relevantes para a construção civil sustentável:
| Critério | Cimento convencional | Lava vulcânica (Lavaforming) |
|---|---|---|
| Emissão de CO₂ | Alta, processo industrial intensivo | Nenhuma emissão no processo de obtenção |
| Necessidade de mineração | Sim, extração de calcário e argila | Não, recurso geológico já ativo |
| Disponibilidade local | Depende de logística e transporte | Abundante em regiões vulcânicas ativas |
| Estágio de desenvolvimento | Técnica consolidada | Fase de pesquisa e prototipagem |
O Lavaforming transforma a geologia da Islândia em modelo para a construção civil global
A Islândia já é referência mundial no uso de energia geotérmica, e o Lavaforming segue a mesma lógica: transformar uma força geológica que sempre foi vista como risco em solução prática e de baixo impacto ambiental. O projeto não propõe domar a natureza, mas trabalhar com ela dentro de limites tecnicamente viáveis.
Se os desafios de resfriamento controlado e escalonamento forem superados nas próximas fases de pesquisa, o conceito tem potencial de inspirar uma nova geração de arquiteturas em regiões vulcânicas ativas ao redor do mundo, onde o material já existe no subsolo esperando ser aproveitado.

