A 30 km do centro de Xangai, ruas de paralelepípedo, terraços vitorianos, cabines telefônicas vermelhas e uma réplica de igreja gótica de Bristol compõem um cenário que parece arrancado do interior da Inglaterra. Thames Town foi projetada para abrigar 10 mil moradores. Na prática, tornou-se uma cidade fantasma onde a principal atividade econômica são ensaios fotográficos de casamento.
O plano de Xangai que criou nove cidades temáticas
Thames Town nasceu do programa “One City, Nine Towns”, lançado em 2001 pela Comissão de Planejamento de Xangai sob a gestão do então prefeito Chen Liangyu. A ideia era desafogar a cidade mais populosa da China, que crescia em ritmo insustentável, construindo nove bairros-satélite nos subúrbios. Cada um teria uma identidade arquitetônica inspirada em um país diferente: alemão, holandês, espanhol, escandinavo, italiano, canadense, americano e dois em estilo tradicional chinês. O britânico ficou com o distrito de Songjiang.
A firma britânica de engenharia Atkins venceu uma competição internacional para planejar Songjiang New City e desenhar Thames Town. A construção ocorreu entre 2003 e 2006, sobre terras que antes eram campos de arroz e repolho. O custo total chegou a 5 bilhões de yuans, equivalentes a cerca de US$ 700 milhões na época.

Uma Inglaterra de encomenda em 1 km²
Thames Town ocupa 1 km² e concentra cerca de 500 anos de história arquitetônica britânica num único perímetro. O centro de alta densidade mistura estilos medievais, georgianos e vitorianos, enquanto os bairros residenciais ao redor reproduzem casas de subúrbio em estilo Tudor, com fachadas em preto e branco.
Algumas das construções são cópias diretas de edifícios reais. A igreja foi modelada a partir da Christ Church de Clifton Down, em Bristol. O pub e a loja de fish and chips replicam fachadas de Lyme Regis, em Dorset. A cruz no centro da praça é uma reprodução da Chester High Cross. Há estátuas de Winston Churchill, Florence Nightingale, William Shakespeare e até de James Bond. O layout geral se inspira no movimento das cidades-jardim e tem como referência moderna a cidade de Milton Keynes, na Inglaterra.
95% dos imóveis vendidos e quase ninguém morando
No lançamento, 95% das unidades foram vendidas rapidamente. O problema é que os compradores não tinham intenção de morar ali. A maioria eram investidores ricos que adquiriram as propriedades como segundo imóvel ou reserva de valor. Os preços dispararam e se equipararam aos do centro de Xangai, afastando exatamente o público que o projeto buscava atrair: professores universitários e profissionais de classe média que trabalhariam nas oito universidades instaladas no entorno de Songjiang.
Em 2008, dois anos após a inauguração, a população permanente era de apenas 900 pessoas. A proporção entre imóveis ocupados e imóveis vazios transformou Thames Town no que a imprensa internacional chamou de cidade fantasma. Lojas e restaurantes abriam e fechavam em sequência. Um dos pubs inspirados em Brindleyplace, de Birmingham, nunca chegou a funcionar. Uma fachada de Costa Coffee existia apenas como cenário, sem operação real por dentro.
A capital chinesa dos ensaios de casamento
Sem moradores suficientes para sustentar o comércio, Thames Town encontrou uma vocação inesperada. A praça central, a igreja gótica e as ruelas de paralelepípedo se tornaram o cenário favorito dos casais de Xangai para fotos de casamento. Nos meses de verão, grupos de noivos chegam a partir das 9h e ocupam os espaços até o fim da tarde.
Estúdios de fotografia, salões de beleza e lojas de aluguel de vestidos de noiva são hoje os negócios mais estáveis do local. A ironia é evidente: uma cidade construída para 10 mil habitantes sobrevive economicamente graças a visitantes que ficam por algumas horas e vão embora. Fora da temporada de casamentos, as ruas voltam ao silêncio. Críticos compararam Thames Town ao cenário do filme The Truman Show, de 1998, onde o protagonista vive sem saber que sua cidade inteira é um set de gravação.

O que deu errado no projeto
Urbanistas apontam uma combinação de falhas. A primeira é de design: Thames Town foi concebida com moradias unifamiliares de baixa densidade, poucos equipamentos comunitários e quase nenhuma oferta de emprego local. Moradores teriam que se deslocar até Xangai para trabalhar, mas a estação de metrô mais próxima, na linha 9, ficava a vários quilômetros do centro da cidade temática, exigindo carro ou táxi.
A segunda falha é econômica. O mercado imobiliário chinês, na época do lançamento, incentivava compras especulativas. Com os preços subindo rápido, a função residencial foi substituída pela função financeira. A terceira é cultural: o projeto não considerou o estilo de vida chinês contemporâneo. Ruas estreitas, casas sem varandas, ausência de praças de convivência ao estilo local e comércio pensado para um público que nunca chegou criaram um espaço bonito, mas inabitável no cotidiano.
Thames Town e o fenômeno das cidades-réplica na China
Thames Town não é um caso isolado. A China construiu dezenas de réplicas de cidades ocidentais nas últimas duas décadas: uma Paris com Torre Eiffel em escala em Hangzhou, uma Hallstatt (Áustria) em Guangdong e até uma Jackson Hole (Wyoming) como condomínio de luxo. O fenômeno foi batizado pela crítica arquitetônica de “duplitecture”, termo que descreve a cópia intencional e funcional de obras preexistentes.
Nos últimos anos, Thames Town viu um leve aumento de frequentadores. Galerias de arte, uma livraria premiada (a Zhongshuge, famosa pelo design interior) e eventos culturais pontuais trouxeram algum movimento. A área residencial, no entanto, permanece fechada a turistas e segue com baixa ocupação. O destino de Thames Town resume um dilema do urbanismo especulativo: é possível construir uma cidade inteira, mas não se pode fabricar uma comunidade.
Se você se interessa por lugares onde ambição arquitetônica e realidade urbana colidiram de forma surreal, Thames Town é uma parada obrigatória nos arredores de Xangai.

