No centro histórico de Giethoorn, o som mais alto que se ouve é o grasnado de um pato. Encravado na província de Overijssel, no nordeste dos Países Baixos, esse vilarejo de cerca de 2.800 habitantes não tem ruas no seu núcleo original. No lugar do asfalto, uma rede de canais estreitos conecta casas de telhado de palha erguidas sobre pequenas ilhas de turfa, ligadas por mais de 176 pontes de madeira. Quem chega de carro precisa estacioná-lo do lado de fora e seguir a pé, de bicicleta ou sobre a água.
Como um vilarejo inteiro foi construído sobre canais?
A primeira menção registrada de Giethoorn data de 1225. A história mais aceita sobre a fundação remonta ao século XIII, quando colonos, possivelmente fugitivos vindos da região mediterrânea, se instalaram na área pantanosa e começaram a extrair turfa para usar como combustível. A escavação manual criou valas que, com o acúmulo de água da chuva e o alagamento natural, se transformaram nos canais e lagos que hoje definem a paisagem.
O nome do vilarejo vem de Geytenhoren, que significa “chifres de cabra”. Os primeiros habitantes teriam encontrado grandes quantidades de chifres enterrados no solo, restos de cabras selvagens mortas na inundação de 1170, quando o mar do Zuiderzee invadiu a região. Monges que se estabeleceram na área ampliaram os canais para facilitar o transporte da turfa. Com o tempo, as faixas de terra entre as valas viraram ilhas particulares, e cada família passou a ter acesso à sua casa exclusivamente pela água.

É verdade que não existem ruas no vilarejo?
No núcleo histórico, não. As casas ficam em pequenas ilhas conectadas apenas por pontes de pedestres e pelos canais, que têm cerca de um metro de profundidade. Quando os automóveis chegaram aos Países Baixos, os moradores de Giethoorn votaram para preservar o traçado original. A decisão manteve o centro livre de carros e pavimentação, criando a zona sem ruas que atrai visitantes do mundo inteiro.
Na parte mais nova do vilarejo, ao redor do centro histórico, existem estradas, ciclovias e estacionamentos. Mas a área que aparece nas fotos e nos roteiros turísticos, com os telhados de palha refletidos nos canais, permanece acessível só por barco, a pé ou de bicicleta. Até o carteiro, em certas áreas, entrega a correspondência de barco.
Que tipo de barco circula pelos canais?
O transporte tradicional de Giethoorn é o punter, uma embarcação de fundo chato impulsionada por uma vara longa apoiada no leito raso do canal. Hoje, o meio mais comum são os chamados “whisper boats” (barcos sussurrantes), pequenas embarcações elétricas com motores silenciosos que não produzem ruído nem poluição. Turistas podem alugar esses barcos por hora ou embarcar em passeios guiados pelos canais.
Além dos whisper boats, caiaques, canoas e stand-up paddles também circulam pela rede de mais de 7 km de canais. Lojas e restaurantes ao longo da água têm seus próprios deques, onde os visitantes atracam antes de entrar. Giethoorn funciona, na prática, como uma pequena Veneza, mas com gramados impecáveis, jardins floridos e patos no lugar de gôndolas e pombos.
Quem sonha em conhecer a Holanda, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Conexão Bonjour, que conta com mais de 3.400 visualizações, onde Fabian, Flávio e Simone mostram o encanto de Giethoorn, a Veneza holandesa:
O que colocou Giethoorn no mapa turístico?
O vilarejo ficou conhecido na Holanda depois que o cineasta Bert Haanstra filmou ali sua comédia Fanfare, em 1958. O longa mostrou a vida pacata e excêntrica dos moradores, e as imagens dos canais e pontes encantaram o público holandês. Décadas depois, vídeos e fotos nas redes sociais transformaram Giethoorn em fenômeno global, atraindo mais de 2 milhões de visitantes por ano, segundo estimativas locais.
A fama internacional trouxe também desafios. Nos feriados holandeses e no verão europeu, o vilarejo lota e o silêncio desaparece. Para quem busca a experiência original, moradores recomendam visitar entre abril e junho ou em setembro, preferencialmente durante a semana. O entorno inclui o Parque Nacional Weerribben-Wieden, uma das maiores áreas úmidas da Europa, com trilhas, observação de aves e passeios de barco por paisagens de juncos e lagos rasos.
Como é viver num lugar sem carros?
Os 2.800 moradores de Giethoorn não abriram mão dos automóveis por romantismo. Eles estacionam fora do centro e usam barcos ou bicicletas no dia a dia. Crianças vão à escola de barco. Mudanças de casa são feitas em barcaças. Compras grandes chegam pela água. O Museum Giethoorn ‘t Olde Maat Uus, instalado em uma fazenda histórica, mostra como os habitantes viviam e trabalhavam há mais de um século, com roupas tradicionais, ferramentas de extração de turfa e utensílios domésticos.
O vilarejo fica a cerca de 120 km de Amsterdã, acessível por trem até Steenwijk e depois por ônibus. Apesar da aparência de museu a céu aberto, Giethoorn é uma comunidade real, com famílias, rotina e regras. Os moradores pedem que visitantes respeitem os jardins particulares, não espiem pelas janelas e mantenham o volume baixo, como convém a um lugar onde o silêncio faz parte da infraestrutura.

O vilarejo onde a água substituiu o asfalto há oito séculos
Giethoorn existe porque escavadores de turfa transformaram o solo pantanoso em canais sem imaginar que estavam desenhando uma cidade. Oitocentos anos depois, o vilarejo continua funcionando sobre a água, sem ruas, sem motores barulhentos e sem pressa. É a prova de que, às vezes, a ausência de uma estrada cria um caminho mais bonito.
Se algum dia você estiver nos Países Baixos com tempo de sobra, suba num whisper boat em Giethoorn e navegue pelos canais em silêncio. O pato que cruzar na sua frente provavelmente será o vizinho mais barulhento do dia.

