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5.100 metros e metade do oxigênio: a cidade onde respirar já é um ato de resistência

Vitor Por Vitor
11/03/2026
Em Cidades

Cada inspiração em La Rinconada entrega aos pulmões apenas metade do oxigênio disponível ao nível do mar. Encravada na encosta do Monte Ananea, nos Andes peruanos, essa aglomeração mineradora desafia o que a ciência considerava o limite da permanência humana. Mesmo assim, dezenas de milhares de pessoas dormem, trabalham e nascem ali todas as noites, a temperaturas médias de 1,2 °C.

Por que cientistas dizem que ninguém deveria morar tão alto?

A pressão atmosférica a 5.100 m equivale a cerca de 50% do valor registrado ao nível do mar. Isso significa que o ar contém a mesma proporção de oxigênio, mas a densidade reduzida dificulta a absorção pelos pulmões. Pesquisadores da Inserm e da Universidade Grenoble Alpes estimam que o limite fisiológico para residência permanente esteja entre 5.000 e 5.500 m. La Rinconada fica exatamente nessa faixa, o que a torna um laboratório a céu aberto.

A cidade se espalha entre 5.000 e 5.300 m de altitude, ao pé de uma geleira chamada La Bella Durmiente. Apesar de estar a apenas 14 graus do equador, o clima lembra a costa oeste da Groenlândia: tundra alpina sem possibilidade de cultivo, neve frequente e noites abaixo de zero durante o ano inteiro.

La Rinconada brilha como o assentamento mais alto da Terra e o lugar mais próximo do céu // Créditos: Wikipedia

O sangue dos moradores revela o preço da altitude

Em 2019, a Expedition 5300, liderada pelo fisiologista Samuel Vergès, montou um laboratório improvisado no coração da cidade. Foi o primeiro programa científico e médico conduzido a essa altitude. Os resultados, publicados no The Journal of Physiology em 2024, impressionaram a comunidade médica.

A concentração de hemoglobina dos moradores saudáveis atingiu 20,3 g/dL, valor quase o dobro de uma pessoa ao nível do mar. Nos pacientes com doença crônica da montanha, o índice subiu para 23,1 g/dL. Segundo o CNRS, o hematócrito, percentual de glóbulos vermelhos no sangue, chegou a 80% em La Rinconada, contra 40% em Lima. Esse espessamento do sangue aumenta o risco de obstrução vascular e problemas cardíacos.

Mesmo com essas alterações drásticas, o monitoramento de 24 horas mostrou que a pressão arterial dos moradores permanece essencialmente normal. A ciência ainda não entende completamente os mecanismos compensatórios por trás dessa aparente proteção. Durante o sono, porém, a saturação de oxigênio despenca: a mediana registrada foi de 79%, valor que em um hospital ao nível do mar seria considerado emergência.

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Um quarto da população convive com a doença da montanha

A revista Science classificou La Rinconada como “Hypoxia City”. Cerca de 25% dos moradores sofrem de doença crônica da montanha, uma síndrome sem cura. Em Puno, a 3.800 m, a incidência fica abaixo de 5%. A única solução conhecida é mudar para altitudes mais baixas, mas a maioria não tem recursos para isso. Os sintomas acompanham os pacientes diariamente:

  • Cefaleia persistente: dor de cabeça intensa que não cede com analgésicos comuns, agravada pelo esforço físico dentro das minas.
  • Cianose: a falta de oxigênio confere tom azulado aos lábios, gengivas e mãos, sinal visível da privação crônica.
  • Apneia do sono: a saturação de oxigênio despenca durante a noite, interrompendo o descanso e agravando a fadiga.
  • Zumbido e tontura: o excesso de glóbulos vermelhos aumenta a viscosidade do sangue e dificulta a circulação cerebral.
  • Fadiga extrema: até caminhar curtas distâncias exige um esforço desproporcional a 5.100 m de altitude.

Populações andinas carregam adaptações genéticas moldadas por cerca de 15 mil anos de vida em altitude elevada. A produção elevada de hemoglobina é uma dessas respostas evolutivas. Em parte dos moradores, no entanto, o mecanismo sai do controle: os glóbulos vermelhos proliferam em excesso e o sangue se torna perigosamente viscoso. É esse descompasso entre adaptação e doença que a Expedition 5300 tenta decifrar.

Quem tem curiosidade sobre lugares extremos, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Ruhi Çenet Português, que conta com mais de 1 milhão de visualizações, onde Ruhi mostra como é a vida em La Rinconada, no Peru, a cidade mais alta do mundo:

Trinta dias sem salário e uma aposta no 31º

La Rinconada existe por um único motivo: ouro. A mineração funciona sob o sistema cachorreo, documentado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). Os mineradores trabalham entre 25 e 30 dias sem receber nenhum pagamento. No último dia do ciclo, podem entrar na mina e carregar nos ombros o máximo de minério que conseguirem. Se a rocha não contiver ouro, o mês inteiro terá sido gratuito.

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A Corporación Ananea é a única empresa com licença governamental para operar na região, mas centenas de operações informais proliferam ao redor. Segundo pesquisa da Universidade de Antuérpia, 87,2% dos trabalhadores em 2019 eram cachorreros, e 55% se diziam insatisfeitos com o sistema. A cidade não tem água encanada, rede de esgoto nem coleta de lixo. Mercúrio usado na extração do ouro contamina o solo, a geleira e os rios que descem até o Lago Titicaca.

La Rinconada encanta com a mística da Bela Adormecida e a resiliência de seus mineiros // Créditos: Wikipedia

O que a ciência de La Rinconada pode ensinar ao resto do mundo

Os pesquisadores da Expedition 5300 não estudam a cidade apenas para ajudar seus moradores. As descobertas sobre adaptação à hipóxia crônica podem beneficiar pacientes com doenças respiratórias, apneia do sono e insuficiência cardíaca em qualquer altitude. O Instituto Weizmann, em Israel, participou de uma das missões para investigar como a escassez de oxigênio afeta os relógios biológicos circadianos, campo que pode influenciar tratamentos futuros para distúrbios do sono. Segundo a Inserm, os resultados também interessam a agências espaciais: astronautas enfrentam condições de oxigenação comparáveis em habitats fora da atmosfera terrestre.

A NASA registrou La Rinconada por satélite em 2019 usando dados do Landsat 8. A imagem mostra o assentamento colado à geleira, sem nenhuma área verde ao redor. A 650 km da fronteira com a Bolívia, a cidade permanece isolada: o acesso é feito apenas por estrada de terra, em caminhões que levam horas subindo curvas geladas.

Onde o corpo encontra seu próprio limite

La Rinconada não aparece em guias de viagem nem figura em cartões-postais. É um lugar onde cada respiração custa mais caro, onde o sangue se adapta e às vezes se volta contra o próprio corpo, onde o ouro sustenta sonhos e cobra um preço que a maioria só entende depois de subir. Poucos locais no planeta revelam tão claramente até onde a fisiologia humana pode ser empurrada.

Se a ciência te fascina tanto quanto as paisagens, vale acompanhar os próximos resultados da Expedition 5300, a expedição que transformou a cidade mais alta do mundo em um dos laboratórios mais extraordinários da medicina contemporânea.

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