O ex-piloto de Fórmula 1, Felipe Massa, afirmou que o grave acidente sofrido em 2009 não alterou sua forma de pilotar, mas mudou sua relação com a vida. Em entrevista ao programa Manifeste-se, ele resumiu o impacto da experiência de forma direta
“A única coisa que eu posso dizer é que eu dou mais valor à vida. Com certeza.”
Ao longo da conversa com Luiz Tastaldi, Massa falou sobre felicidade, pressão por resultados, trajetória no automobilismo, o episódio que marcou a temporada de 2008 e o acidente na Hungria, quando foi atingido por uma mola desprendida de outro carro. O ex-piloto também detalhou como vê hoje a disputa judicial envolvendo o campeonato daquela temporada.
A participação de Felipe Massa no programa foi costurada pela ideia central do episódio: a busca pela felicidade sem se abandonar no caminho. Nesse contexto, o ex-piloto trouxe relatos sobre escolhas, disciplina, cobrança externa e os custos de perseguir um objetivo no mais alto nível do esporte.
Felipe Massa relaciona felicidade a coerência e trajetória
Antes da entrevista, o apresentador Luiz Tastaldi desenvolveu uma reflexão sobre felicidade como algo individual, não comparável e não padronizado. Na sequência, Massa foi apresentado como alguém que chegou ao topo do automobilismo mundial “sem se definir apenas por um resultado”.
Ao comentar sua trajetória, o ex-piloto disse que teve certeza desde cedo de que queria ser piloto. Segundo ele, o objetivo inicial nem era a Fórmula 1, mas viver o automobilismo de forma plena.
“Quando eu andei no kart a primeira vez, eu tinha certeza daquilo que eu queria pra minha vida inteira. Eu nunca pensei em fazer outra coisa diferente”, afirmou.
A fala reforça um dos eixos centrais da entrevista: a relação entre vocação, disciplina e identidade. Massa descreveu a carreira no esporte como uma aposta integral, em que não há espaço real para um “plano B” quando o objetivo é chegar ao topo.
Pressão no automobilismo e cobrança por resultados
Ao falar sobre a rotina de um atleta de alta performance, Felipe Massa destacou que o automobilismo é um ambiente de competição permanente, inclusive fora das pistas. Segundo ele, a disputa por espaço começa muito antes da largada.
“No mundo do automobilismo, você tem relacionamentos, você tem amigos, mas não são muitos amigos, porque é um mundo de muita competição. Na hora que fecha a viseira ninguém é amigo de ninguém”, disse.
Massa também comentou a pressão específica de representar o Brasil em um esporte historicamente associado a vitórias e grandes nomes. Para ele, a cobrança é intensa porque o torcedor brasileiro se acostumou a disputar títulos em categorias como automobilismo e futebol.
Ao mesmo tempo, afirmou que aprendeu a transformar essa pressão em combustível competitivo, especialmente em Interlagos.
“Você tem que também ter a capacidade de usar a pressão e de usar a torcida a seu favor”, disse.
Título de 2008 volta ao centro da entrevista
Um dos momentos centrais da conversa foi a retomada da temporada de 2008, marcada pela disputa entre Felipe Massa e Lewis Hamilton e pelo episódio que ficou conhecido como “Crashgate”, no GP de Singapura.
Massa foi direto ao separar o desfecho esportivo da temporada do episódio envolvendo a Renault. Segundo ele, o que ocorreu em Interlagos faz parte do esporte. Já o que aconteceu em Singapura, não.
“O que aconteceu em Singapura não é esporte. O que aconteceu em Singapura foi uma picaretagem”, afirmou.
Na entrevista, ele relembrou que, após a investigação sobre a batida proposital de Nelsinho Piquet, houve apuração, mas, em sua visão, sem punições efetivas para os principais envolvidos. Massa afirmou que nunca buscou judicialmente a revisão do caso enquanto entendia que havia um impedimento regulatório. Isso mudou quando Bernie Ecclestone deu uma declaração anos depois, segundo a qual o “verdadeiro campeão” de 2008 teria sido Massa.
“A gente tem chance”, disse o ex-piloto ao comentar o processo.
Felipe Massa detalha disputa judicial sobre 2008
Na entrevista, Massa afirmou que sua equipe jurídica passou a atuar em diferentes países após as declarações de Ecclestone. Segundo ele, o caso está hoje concentrado na Inglaterra e houve avanço recente.
“Já faz mais de dois anos que a gente entrou e avisou que a gente vai lutar contra aquilo que aconteceu. A gente ganhou a prescrição”, afirmou.
Na avaliação do ex-piloto, isso fortaleceu o processo.
“Hoje ficou numa situação muito forte”, declarou.
Em seguida, reforçou sua convicção sobre o desfecho: “Tenho certeza que a gente vai ganhar.”
A fala recoloca no debate um tema que, anos depois da temporada de 2008, ainda mobiliza torcedores e segue presente na narrativa pública em torno da carreira do piloto brasileiro.
Acidente de 2009: “Como se eu tivesse tomado um tiro de uma AK-47”
Outro trecho de forte impacto na entrevista foi o relato sobre o acidente sofrido por Felipe Massa em 2009, durante a classificação para o GP da Hungria. O ex-piloto explicou que foi atingido por uma mola de quase 1 quilo desprendida do carro de Rubens Barrichello, em um momento em que trafegava a cerca de 240 a 250 km/h.
“Eles fizeram um teste depois, a FIA, foi um impacto que era como se eu tivesse tomado um tiro de uma AK-47”, relatou.
Massa contou que não se lembra do momento do impacto e explicou que perdeu a consciência imediatamente. Também descreveu que, após ser atingido, continuou com as pernas esticadas sobre os pedais, o que fez o carro seguir em linha reta até a barreira de proteção.
O ex-piloto disse ainda que o principal problema não foi a batida em si, mas o trauma causado pelo objeto na região frontal da cabeça.
“Eu perdi todo esse osso que a gente tem na testa”, afirmou.
Segundo ele, houve risco real à vida e à visão.
“1 mm ou 1 cm para lá, eu poderia ter morrido”, disse.
Massa ficou três dias em coma e passou por procedimentos cirúrgicos para reconstrução da área atingida.
“Nada mudou” ao pilotar, mas a vida ganhou outro peso
Questionado sobre os efeitos posteriores do acidente, Felipe Massa disse que não consegue afirmar com precisão se houve mudança em sensações como medo ou confiança ao volante. No entanto, foi categórico ao falar do impacto pessoal da experiência.
“A gente nunca acha que um acidente vai acontecer, algo grave vai acontecer com a gente. Mas o que mudou é você dar muito mais valor à vida.”, afirmou.
Em outro momento, repetiu a mesma ideia em resposta objetiva sobre o que ficou depois daquele episódio:
“A única coisa que eu posso dizer é que eu dou mais valor à vida. Com certeza.”
A declaração conecta o relato biográfico ao tom do programa, centrado em reflexões sobre identidade, coerência e permanência diante de perdas, frustrações e riscos.
Disciplina, sonho e aposta total
Ao fim da entrevista, Felipe Massa deixou uma mensagem voltada a quem enfrenta seus próprios desafios profissionais e pessoais. Para ele, perseguir um objetivo exige mais do que vontade: exige talento, disciplina, confiança e persistência.
“Acredite no seu sonho e faça mais. Você tem que acreditar e tem que ir atrás e você tem que fazer mais daquilo que você pode para conseguir chegar no seu sonho”, disse.
A fala final sintetiza o tom da participação do ex-piloto no Manifeste-se: uma leitura da carreira não apenas como acúmulo de troféus, mas como trajetória atravessada por pressão, acidentes, frustrações, disciplina e continuidade.
No encerramento do episódio, a ideia foi resumida em uma frase que dialoga diretamente com a presença de Massa no palco: ser feliz, mais do que vencer, é não se abandonar durante o caminho.












