No sertão do Ceará, a 225 km de Fortaleza, existe uma cidade que nasceu duas vezes. Jaguaribara teve sua sede original demolida e engolida pelas águas do Açude Castanhão, o maior reservatório para múltiplos usos da América Latina. Em seu lugar, uma cidade inteira foi desenhada do zero com participação dos próprios moradores.
Por que o sertão precisou virar mar em Jaguaribara?
A história da antiga Jaguaribara remonta ao século XVII, quando colonizadores portugueses instalaram a Fazenda de Santa Rosa às margens do Rio Jaguaribe. Por séculos, a vida local girou em torno do rio, da pecuária e da agricultura de vazante. Em 1985, chegou a notícia que mudaria tudo: o governo planejava construir ali o maior açude do Ceará.
O Castanhão armazena 6,7 bilhões de metros cúbicos de água e abastece a Região Metropolitana de Fortaleza, além de controlar as enchentes do Vale do Jaguaribe. Para isso, dois terços do território de Jaguaribara precisaram ser inundados, incluindo toda a sede urbana. Cerca de 3.600 pessoas da área urbana e outras 4.400 da zona rural foram deslocadas entre 2000 e 2001.

Como os moradores desenharam a própria cidade?
A resistência inicial foi intensa. Durante sete anos, a população lutou contra a obra na Justiça e nas ruas. Quando ficou claro que o açude seria construído, os jaguaribarenses impuseram uma condição: participar de cada decisão sobre a nova cidade. A arquiteta Marilac Cabral, coordenadora do projeto, envolveu os moradores em reuniões frequentes sobre o traçado das ruas, o formato das casas e a localização dos equipamentos públicos.
O resultado foi a primeira cidade totalmente planejada do Ceará. A Prefeitura de Jaguaribara registra que todas as decisões foram tomadas em colegiado, com agentes públicos e representantes comunitários. A Igreja Matriz de Santa Rosa de Lima ganhou uma réplica ampliada da original, erguida como símbolo de continuidade. Em 25 de setembro de 2001, a nova sede foi inaugurada com saneamento, rede de esgoto e energia em 100% do território.
Uma cidade para 70 mil que abriga 10 mil pessoas
A nova Jaguaribara foi projetada para receber até 70 mil habitantes. O Censo de 2010 registrou pouco mais de 10 mil moradores, e a proporção se mantém modesta. Ruas largas, praças generosas e equipamentos públicos dimensionados para uma população maior dão à cidade um ritmo tranquilo, diferente de qualquer outro município do sertão cearense.
A economia se apoiou na piscicultura do Castanhão, que chegou a ser uma das maiores produções de tilápia em cativeiro do Nordeste. As secas recentes reduziram o volume do açude e trouxeram desafios, mas a atividade pesqueira segue como base econômica. O comércio local atende moradores e pescadores que circulam pela região do Vale do Jaguaribe.
Quem se interessa pela história de cidades que deram lugar ao progresso, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Diário do Nordeste, que conta com mais de 645 mil inscritos, onde é narrada a emocionante trajetória de Jaguaribara, no Ceará, a cidade que foi inundada para a construção do Castanhão, o maior açude do Brasil:
Quando ir ao sertão do Castanhão?
Jaguaribara tem clima semiárido quente, com chuvas concentradas no primeiro semestre e seca prolongada no restante do ano. As temperaturas raramente ficam abaixo de 22 °C.
| Período | Meses | Temperatura | Chuva | O que fazer |
|---|---|---|---|---|
| Chuvoso | Jan-Mai | 23-34 °C | Alta | Paisagem verde, açude cheio |
| Transição | Jun-Jul | 22-35 °C | Baixa | FestPeixe, clima ameno à noite |
| Seco | Ago-Dez | 24-38 °C | Muito baixa | Pesca esportiva, ruínas visíveis |
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Jaguaribara?
A cidade fica a 225 km de Fortaleza pela BR-116, cerca de 3 horas de carro. Ônibus intermunicipais partem do Terminal Rodoviário de Fortaleza com parada em Jaguaribe, de onde é possível seguir por transporte local. Não há aeroporto no município; o mais próximo é o Aeroporto de Juazeiro do Norte, a 200 km.
Conheça a cidade que o sertão engoliu e o povo reconstruiu
Jaguaribara carrega uma história que nenhuma outra cidade cearense consegue contar. Foi demolida, submersa e reerguida a 50 km de distância, com ruas desenhadas pelos próprios moradores. O Castanhão trouxe água para milhões de pessoas, mas levou junto uma cidade inteira.
Você precisa conhecer Jaguaribara e caminhar pelas ruas largas de uma cidade que precisou ser inventada de novo para continuar existindo.

