Na remota Bacia de Tarim, em Xinjiang, a China está perfurando um dos poços mais profundos da história. O Shenditake 1 ultrapassa 10 mil metros de profundidade usando brocas que resistem a 200 °C, em uma missão que busca energia geotérmica “infinita” e reservas de gás natural escondidas nas camadas mais antigas da crosta terrestre.
O que é o poço Shenditake 1 e onde ele está localizado?
O Shenditake 1 é um poço ultraprofundo perfurado pela China na Bacia de Tarim, na região de Xinjiang. Com profundidade superior a 10.000 metros (podendo chegar a 11.100 metros), ele supera em muito os poços convencionais de petróleo e gás, atingindo estratos geológicos com mais de 500 milhões de anos.
A plataforma de perfuração pesa cerca de 2.000 toneladas e utiliza brocas de diamante poligonal, capazes de atravessar rochas extremamente duras. A cada metro perfurado, sensores coletam amostras e dados que ajudam a mapear a crosta profunda, revelando segredos geológicos nunca antes acessados.

O canal SkyBuilds, com 71,9 mil inscritos, produziu um vídeo detalhando a engenharia por trás do Shenditake 1. A reportagem mostra os desafios de perfurar a crosta terrestre em condições extremas. Confira:
Como a broca resiste a 200 graus de temperatura?
Em profundidades superiores a 10 km, a temperatura ultrapassa facilmente os 200 °C e a pressão chega a incríveis 130 MPa (equivalente a 1.300 vezes a pressão atmosférica). Para suportar essas condições, a China desenvolveu brocas de diamante poligonal e um sistema de lama de perfuração especial, à base de água e óleo, que resfria a broca e remove os fragmentos de rocha.
Cada poço consome mais de 20 brocas e cerca de 1.000 tubos de perfuração, que vão sendo acoplados à medida que a profundidade aumenta. A lama também ajuda a estabilizar as paredes do poço, evitando desmoronamentos que poderiam selar para sempre o acesso às camadas profundas.

O que a China espera encontrar a 10 mil metros de profundidade?
O principal objetivo do Shenditake 1 é duplo. Primeiro, a busca por reservas de gás natural em camadas superprofundas da Bacia de Tarim, uma região já conhecida por suas riquezas em petróleo e gás. Acredita-se que existam reservas “secretas” inexploradas abaixo das camadas já mapeadas.
Segundo, e mais importante, o poço é uma aposta na energia geotérmica de rocha quente seca (HDR). A ideia é fraturar a rocha quente em profundidade, injetar água e recuperá-la na forma de vapor para gerar eletricidade de forma contínua, sem emissões de carbono. O fluxo geotérmico na região é de cerca de 84 mW/m², indicando potencial para esse tipo de aproveitamento.
A tabela abaixo resume as principais características do Shenditake 1:
| Característica | Detalhe |
|---|---|
| Localização | Bacia de Tarim, Xinjiang, China |
| Profundidade prevista | 10.000 a 11.100 metros |
| Temperatura máxima | Acima de 200°C |
| Pressão máxima | 130 MPa (equivalente a 1.300 atm) |
| Tipo de broca | Diamante poligonal |
| Lama de perfuração | Base água/óleo, resistente a 220 °C |
| Plataforma | Aproximadamente 2.000 toneladas |
| Objetivos principais | Gás profundo e geotermia HDR |

Como a geotermia de rocha quente seca pode gerar energia “infinita”?
A geotermia HDR é considerada uma das fronteiras da energia renovável. Em vez de depender de fontes hidrotermais naturais, a técnica fratura artificialmente a rocha quente e seca em profundidade, criando um reservatório de calor. Água é injetada sob pressão, circula pelas fraturas, aquece e retorna à superfície como vapor, movimentando turbinas.
A China planeja que a geotermia responda por 10% da matriz energética nacional até 2030. Poços como o Shenditake 1 são essenciais para mapear o gradiente térmico da crosta e testar a viabilidade técnica e econômica da HDR em larga escala. Se bem-sucedida, a tecnologia pode fornecer energia limpa e praticamente inesgotável.
Quais são os desafios de perfurar um poço de 10 mil metros?
Perfurar 10 km na crosta terrestre é comparável a viajar para o espaço em termos de dificuldade técnica. Além das temperaturas e pressões extremas, há o desafio da estabilidade do poço. As paredes tendem a desmoronar sob pressão, e a lama de perfuração precisa ser constantemente ajustada para evitar acidentes.
Outro problema é o desgaste das brocas. Em profundidades extremas, cada centímetro perfurado exige trocas frequentes de equipamento. O Shenditake 1 consumiu mais de 20 brocas e milhares de tubos para atravessar 13 estratos geológicos diferentes, alguns com mais de 500 milhões de anos.
Os principais desafios enfrentados pelos engenheiros incluem:
- Temperatura extrema: Equipamentos eletrônicos e selos mecânicos precisam suportar mais de 200 °C por longos períodos.
- Pressão esmagadora: A cada 10 metros de profundidade, a pressão aumenta cerca de 1 atm, chegando a 1.300 atm no fundo.
- Desgaste de brocas: Rochas ultracompactas exigem brocas de diamante de altíssima resistência, que ainda assim se desgastam rapidamente.
- Instabilidade do poço: As paredes tendem a fechar sob pressão, exigindo lama de perfuração de alta densidade.
- Custo exponencial: Quanto mais fundo, mais caro fica cada metro perfurado, devido à complexidade logística.
- Coleta de dados: Sensores precisam operar em condições extremas para enviar informações à superfície em tempo real.
Como o Shenditake 1 se compara ao lendário poço russo de Kola?
O poço mais profundo já perfurado pela humanidade ainda é o Kola Superdeep Borehole, na Rússia, que atingiu 12.262 metros em 1989. No entanto, o Shenditake 1 representa um avanço em termos de tecnologia e objetivos. Enquanto Kola era um projeto puramente científico para estudar a crosta, o poço chinês tem foco energético, buscando gás e calor aproveitável.
Além disso, as condições no deserto de Taklamakan são diferentes das da península de Kola, na região ártica. A China está desenvolvendo tecnologias de perfuração que podem pavimentar o caminho para poços ainda mais profundos, de até 15 km, nas próximas décadas. O “buraco para o inferno” chinês, como alguns apelidaram, é uma aposta ousada no futuro da energia.
Qual é o impacto geopolítico e energético desse projeto?
A China é o maior importador de petróleo e gás do mundo, e a busca por fontes internas de energia é uma questão de segurança nacional. Encontrar reservas de gás a 10 km de profundidade poderia reduzir a dependência externa e fortalecer a economia do país. Já a geotermia HDR representa uma aposta em energia limpa e descentralizada, alinhada às metas climáticas de Pequim.
O projeto é um dos mais ambiciosos da engenharia chinesa e coloca o país na vanguarda da perfuração ultraprofunda. Se os resultados forem positivos, a tecnologia desenvolvida no deserto de Taklamakan poderá ser exportada para outras regiões do mundo com potencial geotérmico similar.

