Uma máquina industrial desceu a 4.300 metros no Pacífico para coletar nódulos metálicos. Em horas, removeu 3.300 toneladas e abriu trilhas no sedimento. O resultado, após cinco anos de estudo: queda de 32% na diversidade de espécies e marcas que podem durar décadas, acendendo alerta sobre os riscos da mineração em alto-mar.
O que foi testado a 4.300 metros de profundidade?
O estudo liderado por pesquisadores do Museu de História Natural de Londres ocorreu na Zona Clarion-Clipperton, uma região entre o México e o Havaí rica em nódulos polimetálicos. Essas formações contêm metais como níquel, cobalto e manganês, usados em baterias e equipamentos de energia limpa.
Um coletor industrial operou por algumas horas, retirando aproximadamente 3.300 toneladas de nódulos. Durante cinco anos, os cientistas monitoraram a área afetada e áreas de controle próximas, usando métodos estatísticos para separar o impacto real da variação natural do ecossistema.
Leia também: Adeus ao gesso: novo revestimento custa 40% menos, dispensa pintura e fica pronto em horas
O que os cientistas encontraram nas áreas impactadas?
Nos laboratórios, mais de 4.300 organismos (com tamanho acima de 0,25 mm) foram identificados e agrupados em 788 espécies de vermes e pequenos crustáceos a moluscos que vivem enterrados na camada superior do sedimento. Essa camada é justamente a que a máquina remexe ao aspirar os nódulos.

Os resultados foram claros:
- Diversidade de espécies caiu 32% dentro das trilhas abertas pelo equipamento.
- Densidade de animais também diminuiu significativamente.
- Mesmo onde a máquina não passou por cima, a nuvem de sedimentos levantada pela atividade já alterou quais espécies dominavam o ambiente.
Por que o impacto pode ser irreversível?
O estudo também registrou fauna pouco conhecida, incluindo um coral solitário preso aos nódulos, descrito como nova espécie para a ciência, além de pequenas aranhas marinhas e outros grupos raramente coletados. Muitas dessas espécies aparecem em padrões irregulares, em escalas de poucos metros.
Isso significa que o fundo abissal pode ser muito mais rico e fragmentado do que os mapas atuais sugerem. Como os nódulos crescem milímetros ao longo de milhões de anos, removê-los não é apenas extrair minério: é eliminar um recurso não renovável em escala humana e também o suporte físico de grande parte da vida local.
Comparações com testes históricos em outras regiões oceânicas mostram que as marcas físicas da maquinaria continuam visíveis décadas depois. Alguns grupos móveis até retornam, mas outros simplesmente não voltam, nem no médio prazo.

O programa 60 Minutes, que soma mais de 4,01 milhões de inscritos, produziu uma reportagem aprofundada sobre o tema:
Onde esse debate está sendo discutido agora?
O estudo sai no momento em que a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ligada à ONU) negocia as regras que podem permitir ou frear a mineração comercial em águas internacionais. Há anos se discute um “Código de Mineração” com padrões ambientais, exigência de estudos de impacto e monitoramento de recuperação.
Pesquisas recentes defendem que qualquer regra deveria impor limites máximos de perda de biodiversidade e de alteração de habitats, abaixo dos quais a recuperação ainda seria possível. Uma parte crescente da comunidade científica defende uma moratória global até existir informação suficiente sobre impactos acumulados e sobre limites ecológicos que, uma vez ultrapassados, podem tornar o dano irreversível.
A tabela abaixo resume os números do estudo publicado na Nature Ecology & Evolution:
Os números são claros e vêm de um experimento real, não de simulações. A pergunta que fica, agora com dados concretos na mão, é se a humanidade está disposta a repetir em escala inédita um erro que não dá para desfazer. O fundo do mar não é um vazio inerte. É um ecossistema vivo, lento e frágil. E as marcas que a máquina deixou ali podem durar muito mais que os lucros que alguns esperam obter.

