No centro de Mianmar, escondida dos olhos do mundo, existe uma capital com avenidas de 20 faixas, hotéis de luxo vazios e um parlamento de 31 edifícios. Batizada de Naypyidaw, a cidade foi construída em segredo pelos militares a partir de 2002, custou bilhões de dólares e hoje é uma das metrópoles mais bizarras do planeta: imensa, moderníssima e completamente deserta.
Qual o tamanho de Naypyidaw e por que ela impressiona?
A área da cidade é de 7.000 km², quase quatro vezes o tamanho de Londres (que tem 1.572 km²). Para comparar, é maior que o Distrito Federal brasileiro (5.780 km²). Dentro desse território, os militares construíram:
- Rodovias de 20 pistas (10 em cada sentido), projetadas para funcionar como pistas de pouso de emergência para aviões militares.
- Bulevares de 10 faixas igualmente largas e permanentemente vazios.
- Um complexo parlamentar com 31 edifícios, cercado por um fosso e acessado por pontes monumentais.
- Pagodes gigantes, como o Uppatasanti, réplica do famoso Shwedagon de Yangon.
- Hotéis de luxo com capacidade para milhares, mas quase sempre sem hóspedes.
- Zonas segregadas para governo, militares, hotelaria e residencial, separadas por largas avenidas.

O canal Places, que soma mais de 346 mil inscritos, produziu um vídeo detalhando esse fenômeno urbano:
Por que os militares construíram uma capital secreta?
Em 2005, a junta militar que governava Mianmar anunciou de repente a transferência da capital de Yangon (Rangum) para uma área de floresta perto da cidade de Pyinmana. O nome escolhido, Naypyidaw, significa “sede dos reis”. As razões oficiais nunca foram completamente esclarecidas, mas os analistas apontam algumas motivações:
- Fugir de protestos populares: Yangon era palco de manifestações contra o regime, como o levante de 2007.
- Proteção contra invasões marítimas: a nova capital fica no interior, longe da costa vulnerável.
- Controle militar absoluto: a cidade foi desenhada para ser facilmente isolada e defendida.
- Influência de adivinhações: rumores indicam que generais consultaram astrólogos para escolher o local.
Estima-se que a construção tenha custado entre US$ 4 bilhões e US$ 7 bilhões, um rombo nos cofres públicos de um país extremamente pobre. Há suspeitas de que a Coreia do Norte tenha auxiliado na construção de túneis subterrâneos e bunkers, o que explicaria a ausência de imagens de satélite de certas áreas.
Leia também: Adeus ao gesso: novo revestimento custa 40% menos, dispensa pintura e fica pronto em horas
Como é a vida em Naypyidaw hoje?
A população oficial é de 1 a 2 milhões de habitantes, mas a sensação em qualquer fotografia é de abandono. As avenidas de 20 faixas têm um ou dois carros por minuto. Os semáforos funcionam sem ninguém esperando. Os hotéis construídos para receber diplomatas e turistas estão às moscas, especialmente depois do golpe de 2021 e da guerra civil que se seguiu.
A tabela abaixo resume os números impressionantes da cidade fantasma:
Críticos apontam que a cidade foi desenhada para carros e militares, não para pessoas. Não há calçadas dignas desse nome, e as distâncias são tão grandes que, sem veículo, é impossível se locomover. O isolamento dos funcionários públicos, obrigados a viver ali longe das famílias, gerou baixo moral e alta rotatividade.

O que os rumores de túneis subterrâneos escondem?
Especula-se que abaixo das ruas largas exista uma cidade subterrânea completa, com bunkers, hospitais e depósitos de armas, capaz de abrigar a elite militar em caso de invasão ou levante popular. A suspeita ganha força com a recusa do governo em permitir imagens de satélite detalhadas de certas áreas e com o histórico de cooperação com a Coreia do Norte em projetos de túneis.
Até hoje, nenhuma evidência concreta foi divulgada, mas a aura de mistério contribui para a fama de Naypyidaw como a capital mais estranha do mundo.
Naypyidaw é um símbolo do fracasso?
Para muitos, a cidade fantasma representa o desperdício de recursos de uma ditadura paranoica, que preferiu construir fortalezas a alimentar seu povo. Para outros, é um monumento à megalomania militar e ao desprezo pela vida urbana genuína. Enquanto Mianmar sangra em guerra civil, Naypyidaw segue vazia, com suas avenidas de 20 faixas esperando um futuro que talvez nunca chegue.

