No topo de uma montanha na Turquia, arqueólogos encontraram algo que não deveria existir: um complexo de templos monumentais erguido há 11.500 anos por caçadores-coletores que, em tese, não teriam organização social para tal. Göbekli Tepe tem pilares de 6 metros e 20 toneladas esculpidos com animais, é 6 mil anos mais antigo que as pirâmides do Egito e forçou historiadores a repensar tudo o que sabiam sobre o nascimento da civilização.
O que é Göbekli Tepe e onde fica?
Localizado no sudeste da Turquia, na região da Mesopotâmia, Göbekli Tepe é um sítio arqueológico composto por círculos de pedra megalíticos com enormes pilares em formato de T. As datações por radiocarbono situam sua construção entre 9.600 e 9.500 a.C., ou seja, no final da última era glacial, quando a humanidade ainda vivia exclusivamente da caça e coleta.
Identificado em 1963 pelo arqueólogo Peter Benedict, o local só começou a ser escavado seriamente em 1994, pelo alemão Klaus Schmidt, que trabalhou ali até sua morte em 2014. Desde então, foram revelados 20 círculos de pedra com 200 pilares, muitos decorados com relevos de animais selvagens como leões, raposas, javalis, serpentes e abutres. Apenas 5% da área total de 8 hectares foi escavada, e o sítio é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2018.

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Por que Göbekli Tepe reescreveu a história?
Até sua descoberta, a teoria dominante era a de que a agricultura e o sedentarismo teriam surgido primeiro, permitindo o acúmulo de excedentes e, só depois, o surgimento de templos e hierarquias sociais. Göbekli Tepe inverteu essa lógica: construído por caçadores-coletores, ele prova que a crença em algo maior pode ter sido o combustível que levou os humanos a se fixarem, domesticarem plantas e animais e criarem as primeiras vilas.
Como disse Klaus Schmidt, “primeiro veio o templo, depois a cidade”. O complexo está a apenas 30 km de onde o trigo foi domesticado pela primeira vez, sugerindo que os rituais em Göbekli Tepe podem ter atraído pessoas de uma vasta região, gerando a necessidade de produzir alimentos em escala e, consequentemente, dando início à revolução neolítica.
A tabela abaixo compara a antiguidade de Göbekli Tepe com outros monumentos famosos:
O canal Vogalizando a História, que soma mais de 1,32 milhão de inscritos, produziu um vídeo detalhado sobre o sítio:
Quem construiu os pilares e como fizeram isso?
A construção teria exigido centenas de pessoas trabalhando em conjunto, transportando blocos de pedra calcária de até 20 toneladas por distâncias consideráveis, sem o uso de metal ou animais de carga. As ferramentas eram de pedra lascada, e a engenharia, puramente humana. Os pilares em T, muitos com 6 metros de altura, foram esculpidos diretamente na rocha-mãe e depois movidos para suas posições.
As principais características dos pilares incluem:
- Gravuras de animais em relevo, algumas realistas, outros estilizados, incluindo escorpiões, aves e insetos.
- Símbolos abstratos que podem representar conceitos ainda não decifrados.
- Figuras antropomórficas em alguns pilares, sugerindo que os T podem representar humanos estilizados.
- Ausência de marcas de moradia no local, reforçando a tese de que era um santuário e não uma aldeia.

Quais mistérios ainda cercam Göbekli Tepe?
Quanto mais se escava, mais perguntas surgem. Alguns dos enigmas que intrigam os pesquisadores:
- Por que o complexo foi deliberadamente soterrado por volta de 8.000 a.C.? As camadas de entulho indicam que os próprios construtores cobriram os templos, preservando-os para a posteridade.
- Alinhamentos astronômicos: estudos recentes sugerem que alguns círculos podem estar orientados para o solstício de inverno, indicando conhecimento avançado de observação celeste.
- Rede de sítios vizinhos: Göbekli Tepe faz parte de um conjunto chamado Taş Tepeler, com dezenas de outros montes artificiais na mesma região, alguns ainda inexplorados.
- Significado dos símbolos: as gravuras podem representar um sistema de crenças complexo, talvez um panteão de divindades ligadas aos animais.
O que ainda pode estar enterrado?
Com apenas 5% escavados, a maior parte de Göbekli Tepe continua intocada. Georradares indicam a presença de mais círculos de pedra e estruturas sob os montes vizinhos. Arqueólogos acreditam que novas descobertas podem revelar mais sobre a transição para a agricultura e, quem sabe, até formas de protoescrita ou calendários.
O debate sobre se o local era puramente cerimonial ou se também abrigava moradores permanentes segue em aberto. O que já está claro, porém, é que a história da civilização humana é muito mais antiga e complexa do que se imaginava.

