Distrito de Aveiro, no oeste do Pará, Fordlândia guarda ruínas de um projeto industrial de 1928 às margens do Rio Tapajós, a cerca de 300 km ao sul de Santarém.
O sonho de um magnata que nunca pisou na Amazônia
Na década de 1920, a Ford Motor Company consumia quantidades enormes de borracha para fabricar pneus, mangueiras e vedações. O problema era que o fornecimento dependia de plantações asiáticas controladas por um cartel britânico, o que deixava Henry Ford refém de preços que não podia negociar. A solução parecia óbvia: plantar seringueiras na terra de onde a árvore era nativa.
Em 1927, a empresa adquiriu cerca de 1 milhão de hectares às margens do Rio Tapajós, no município de Aveiro. O terreno foi comprado do cafeicultor brasileiro por 125 mil dólares, embora o governo paraense oferecesse terras devolutas gratuitamente a quem plantasse seringueiras. A concessão estadual, aprovada pelo governador Dionísio Bentes, gerou intensa oposição política e debates sobre soberania nacional. Dois navios, o Lake Ormoc e o Lake Farge, trouxeram dos Estados Unidos madeira, telhas, mudas e todo o material necessário para erguer uma cidade do zero na floresta. Em 1928, Fordlândia começou a funcionar.

O que ver entre galpões enferrujados e o Rio Tapajós
Visitar Fordlândia é caminhar por um museu a céu aberto, onde o silêncio dos maquinários contrasta com o som da floresta que avança sobre o concreto. Cerca de 2 mil pessoas vivem hoje no distrito, muitas delas em casas originais do projeto, o que cria um cenário híbrido entre cidade fantasma e comunidade viva.
- Hospital de Fordlândia: projetado pelo arquiteto Albert Kahn, foi considerado o mais moderno da Amazônia na época. Tinha sala de cirurgia e até radiologia. Hoje, a vegetação invade pelos corredores e pelas janelas quebradas, mas a estrutura de concreto e as amplas janelas ainda impõem respeito. A luz amazônica atravessa os vãos vazios e cria sombras que mudam ao longo do dia.
- Caixa d’água metálica: com cerca de 50 metros de altura, é o primeiro marco que se avista ao chegar de barco. Funciona como um farol enferrujado sobre a vila e oferece, para quem sobe com autorização, uma vista panorâmica do Tapajós e da mata ao redor. É o ponto mais fotografado do distrito.
- Galpão da Serraria: enorme estrutura que ainda abriga maquinários originais, incluindo caminhões Ford dos anos 1930. As marcas da Ford Motor Company continuam visíveis nos equipamentos abandonados, testemunhando um tempo em que se acreditava possível dominar a floresta com engrenagens.
- Vila Americana (Palm Avenue): alameda onde resistem casas de madeira com varandas teladas e telhados inclinados, típicas do subúrbio americano. Algumas foram restauradas e são habitadas por moradores locais; outras estão em ruínas. Hidrantes vermelhos com a inscrição Detroit ainda pontuam as calçadas.
- Cemitério Americano: escondido na mata, guarda restos mortais de expatriados que viveram na cidade durante o auge do projeto. O local reforça a atmosfera melancólica que envolve Fordlândia e funciona como parada simbólica para quem quer entender a dimensão humana do empreendimento.
- Praias do Tapajós: durante a estação seca (julho a dezembro), faixas de areia clara surgem nas margens do rio, com águas cristalinas que lembram praias caribenhas de água doce. A orla da vila combina banho, contemplação e o cenário improvável de ruínas industriais ao fundo.
Como chegar a uma cidade que não tem estrada
O isolamento geográfico é parte da experiência e também a razão pela qual as ruínas sobreviveram quase intactas por décadas. Não há estradas asfaltadas até Fordlândia; o acesso principal é fluvial.
- De barco a partir de Santarém: lanchas rápidas saem diariamente do Porto de Santarém e levam de 4 a 6 horas pelo Rio Tapajós. A viagem em si já é atração: praias de areia branca e mata fechada acompanham todo o percurso.
- De Alter do Chão: agências de turismo organizam expedições de barco que combinam Fordlândia com paradas em praias e igarapés ao longo do Tapajós. O trajeto completo costuma durar de 2 a 3 dias.
- De avião até Santarém: o Aeroporto Maestro Wilson Fonseca (STM) recebe voos diretos de Belém, Manaus e Brasília. De Santarém, segue-se de barco até o distrito.

A floresta venceu, mas a história ficou
Fordlândia fracassou por quase tudo que Henry Ford ignorou: o fungo mal-das-folhas devastou as seringueiras plantadas em monocultura; os trabalhadores se revoltaram contra horários rígidos, proibição de álcool e alimentação americana; e a borracha sintética, produzida em escala após a Segunda Guerra, tornou o látex natural menos interessante. Em 1945, sem jamais ter visitado suas terras brasileiras, Ford vendeu tudo ao governo por 250 mil dólares, um prejuízo estimado em quase 9 milhões de dólares da época.
Visitar Fordlândia é confrontar o que acontece quando se tenta impor um modelo industrial a um ecossistema que funciona por lógica própria. A floresta retomou o espaço, os ribeirinhos mantiveram sua cultura, e as ruínas contam a história em silêncio para quem se dispõe a navegar até lá.

