A proposta em discussão no Congresso Nacional para a redução da jornada de trabalho de 44 para 36 horas semanais, no modelo 4 dias de trabalho por 3 de descanso (4×3), recolocou no centro do debate um ponto clássico da economia do trabalho: o custo por hora trabalhada.
Se os salários forem mantidos, a diminuição da carga horária implica aumento automático do custo unitário do trabalho. Economistas apontam que, sem ganhos equivalentes de produtividade, o ajuste tende a ocorrer por meio de preços, margens empresariais ou emprego.
Segundo o professor Álvaro Camargo, consultor e pesquisador convidado da Fundação Getulio Vargas (FGV) na área de gerenciamento de projetos, a relação econômica é direta.
“Se a jornada diminui e o salário permanece, o custo unitário do trabalho aumenta. Sem aumento prévio de produtividade, o sistema precisa ajustar em algum ponto.”
Redução da jornada de trabalho, custo do trabalho e impacto no emprego
Do ponto de vista microeconômico, quando o custo do fator trabalho cresce acima da geração de valor por hora trabalhada, empresas passam a rever decisões de contratação, reajuste de preços ou redução de margens.
A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) publicou, em 2024, a nota técnica Impactos Econômicos da Redução da Jornada para 36 Horas Semanais. Utilizando modelo de equilíbrio geral computável, o estudo simulou cenários com manutenção salarial.
No cenário de maior impacto estimado, o Produto Interno Bruto poderia registrar retração de até 16% no longo prazo, com efeitos sobre emprego formal e competitividade industrial.
A premissa central do estudo é que a redução da carga horária, sem aumento compensatório de produtividade, eleva o custo por hora trabalhada.
Produtividade é o fator determinante
Dados da OCDE de 2023 indicam que a produtividade por hora trabalhada no Brasil permanece significativamente abaixo da média das economias desenvolvidas. Estimativas do Conference Board apontam que o trabalhador brasileiro gera menos da metade do valor produzido por hora nos Estados Unidos.
A experiência internacional mostra que reduções estruturais de jornada ocorreram após ciclos prolongados de aumento de produtividade, investimento em capital humano e avanço tecnológico.
Camargo observa que a sequência histórica importa.
“Reduções estruturais de jornada bem-sucedidas foram consequência de produtividade elevada, não seu ponto de partida.”
Setores intensivos em mão de obra podem ser mais afetados
Estudo da FecomercioSP, divulgado em 2024, estimou que a redução da jornada para 36 horas semanais, com manutenção salarial, pode elevar o custo da hora trabalhada entre 20% e 22%, dependendo do setor.
Atividades com operação contínua, como hospitais, condomínios e logística, precisariam ampliar contratações para manter o nível de serviço.
Na construção civil, responsável por cerca de 6% do PIB brasileiro em 2023 segundo o IBGE, o tempo de execução das obras é variável relevante para o custo final. Mudanças na jornada podem alongar cronogramas ou elevar despesas financeiras, sobretudo em ambiente de juros elevados.
Competitividade e automação
A participação da indústria de transformação no PIB brasileiro caiu de cerca de 25% na década de 1980 para aproximadamente 11% em 2023, segundo IBGE e Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Relatório do Banco Mundial sobre o chamado “custo Brasil” aponta que carga tributária e complexidade regulatória já limitam a competitividade da produção nacional. Nesse contexto, o aumento estrutural do custo do trabalho pode acelerar processos de automação e adoção de tecnologia importada.
“Se o custo do trabalho cresce mais rápido que a produtividade e o país não possui base tecnológica robusta, a economia tende a importar tecnologia em vez de desenvolvê-la”, afirma Camargo.
Apoio social e limite econômico
Pesquisa da Nexus Research & Data Intelligence, realizada entre 30 de janeiro e 5 de fevereiro de 2026 com 2.021 entrevistados e divulgada pela Agência Brasil, mostrou que 73% dos brasileiros apoiam o fim da escala 6×1 desde que não haja redução salarial.
O apoio social é amplo. O condicionante econômico, porém, permanece: a redução da jornada de trabalho com salários mantidos eleva automaticamente o custo por hora trabalhada.
Sem aumento correspondente de produtividade, o ajuste tende a ocorrer via preços, margens ou emprego.
Camargo resume:
“A redução de jornada pode ser uma meta social desejável. Mas, do ponto de vista econômico, ela é sustentável quando decorre de produtividade elevada. Se vier antes, o custo aparece depois.”














