No arquipélago norueguês de Svalbard, no Ártico, uma construção impressionante está encravada no permafrost. O Svalbard Global Seed Vault, conhecido como o “cofre do fim do mundo”, guarda mais de 1,2 milhão de amostras de sementes de todo o planeta. A estrutura foi criada para proteger a biodiversidade agrícola contra guerras, desastres naturais ou qualquer colapso que ameace os bancos genéticos espalhados pelo mundo.
Onde fica e como foi construído o cofre de sementes?
O cofre está localizado na ilha de Spitsbergen, em Svalbard, território norueguês a cerca de 1.300 quilômetros do Polo Norte. A escolha do local não é aleatória: a região tem permafrost (solo permanentemente congelado) e baixa atividade tectônica, garantindo que as sementes permaneçam congeladas mesmo sem energia elétrica.
A construção foi feita escavando um túnel horizontal de mais de 100 metros na rocha da montanha. As câmaras de armazenamento ficam a cerca de 40 a 60 metros abaixo da superfície rochosa, protegidas naturalmente pelo gelo eterno. Segundo o governo norueguês, a estrutura foi pensada para resistir a terremotos, explosões nucleares e mudanças climáticas extremas.

O que está guardado dentro do cofre?
O Svalbard Global Seed Vault funciona como um backup global. Ele guarda duplicatas de sementes que já existem em bancos genéticos nacionais e internacionais. Atualmente, são mais de 1,2 milhão de amostras, representando milhares de variedades de culturas agrícolas de quase todos os países do mundo.
As sementes são armazenadas em embalagens seladas e mantidas a uma temperatura de −18 °C. Mesmo que a refrigeração mecânica falhe, o permafrost mantém as amostras congeladas por décadas. O Crop Trust, uma das organizações responsáveis pelo projeto, explica que a capacidade total é de 4,5 milhões de amostras, então ainda há espaço para crescer.

Para que serve esse “cofre do fim do mundo”?
A ideia não é que as pessoas busquem sementes no cofre para plantar diretamente. O objetivo é garantir que, se um banco genético nacional for destruído por guerra, desastre natural ou má gestão, as amostras possam ser recuperadas de Svalbard e devolvidas ao país de origem para replantio e pesquisa.
Os principais cenários que justificam a existência do cofre são:
- Guerras e conflitos – bancos de sementes destruídos em países como Afeganistão e Iraque já tiveram amostras reabastecidas por Svalbard.
- Desastres naturais – enchentes, incêndios ou terremotos podem destruir coleções locais.
- Mudanças climáticas – variedades adaptadas a condições específicas podem ser perdidas com alterações bruscas no clima.
- Pragas e doenças – surtos podem devastar lavouras e eliminar variedades locais.
A tabela abaixo resume as principais características da instalação:
Quem pode acessar as sementes?
As sementes depositadas no cofre continuam pertencendo aos países ou instituições que as enviaram. Qualquer nação pode, em caso de necessidade, solicitar a devolução de suas amostras. O processo já ocorreu algumas vezes, como quando o Centro Internacional de Pesquisa Agrícola em Zonas Áridas (ICARDA), que operava na Síria, precisou recuperar sementes após o conflito no país.
O ICARDA transferiu suas operações para o Líbano e Marrocos e usou as amostras de Svalbard para recomeçar suas coleções. O site oficial do cofre destaca que esse foi o primeiro grande teste do sistema, e ele funcionou perfeitamente.

O cofre realmente salvaria a humanidade de um colapso?
A expressão “salvar a humanidade de um colapso global” é um exagero poético. O cofre é uma peça fundamental na segurança alimentar mundial, mas sozinho não garantiria a sobrevivência humana. Ele protege a diversidade genética das culturas agrícolas, o que é essencial para reconstruir sistemas de produção de alimentos após desastres regionais ou globais.
O portal Visit Svalbard explica que a instalação é um seguro para a agricultura mundial, não um bunker de sobrevivência. Mas, sem ela, muitas variedades importantes de alimentos poderiam desaparecer para sempre, comprometendo a capacidade de adaptação da agricultura futura.
O que o futuro reserva para o cofre?
Com as mudanças climáticas, o permafrost de Svalbard tem mostrado sinais de degelo em algumas áreas. Para garantir a segurança do cofre, obras de reforço foram feitas recentemente, incluindo impermeabilização e novos sistemas de drenagem. A Noruega, que administra a instalação, planeja manter e expandir o projeto por décadas.
Novas remessas de sementes chegam regularmente, e a meta é preencher gradualmente a capacidade total de 4,5 milhões de amostras. Cada uma delas representa não apenas uma planta, mas a história, a cultura e a segurança alimentar de povos ao redor do mundo, guardadas sob o gelo eterno do Ártico.

