A atividade do comércio brasileiro encerrou 2025 em desaceleração. Os dados da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), divulgados pelo IBGE e analisados por economistas, mostram queda das vendas em dezembro e reforçam a perda de ritmo da economia na segunda metade do ano.
Na avaliação de Rodolfo Margato, economista da XP, o resultado reflete o esfriamento gradual da economia doméstica. Segundo o analista, “os dados do varejo confirmaram a desaceleração da atividade doméstica ao longo do segundo semestre de 2025”. A instituição estima que o Produto Interno Bruto (PIB) tenha avançado apenas 0,1% no quarto trimestre, compatível com crescimento de 2,3% no acumulado do ano.
Queda no mês interrompe sequência de altas
As vendas no varejo ampliado — que inclui veículos e material de construção — recuaram 1,2% em dezembro frente a novembro, resultado pior que o esperado pelo mercado. O dado interrompeu uma sequência de cinco meses consecutivos de crescimento.
No varejo restrito, que exclui esses itens de maior valor, também houve retração: queda de 0,4% no mês.
O enfraquecimento foi generalizado. Oito dos dez segmentos pesquisados apresentaram recuo, com destaque para:
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veículos
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materiais de construção
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produtos farmacêuticos, perfumaria e cosméticos
Houve apenas um contraponto relevante: a categoria de equipamentos de escritório, informática e comunicação registrou alta mensal de 6%, ajudando a evitar um resultado agregado ainda mais negativo.
Apesar do tom mais fraco no mês, o trimestre ainda ficou positivo. O varejo ampliado avançou 1,5% na comparação trimestral, enquanto o restrito subiu 1,0% no período.
Juros altos explicam desaceleração
A leitura dos economistas aponta forte relação com a política monetária restritiva. A economia perdeu tração no segundo semestre diante do custo elevado do crédito, embora alguns fatores tenham amortecido a desaceleração.
Margato destaca que o mercado de trabalho ainda funciona como sustentação do consumo. “O mercado de trabalho segue robusto, com taxa de desemprego em níveis historicamente baixos e aumento contínuo da renda real”, aponta.
A expectativa, segundo o economista, é de melhora gradual: “a atividade doméstica deve ganhar tração no primeiro semestre de 2026 após o desempenho fraco observado no segundo semestre de 2025”.
Consumo mais seletivo em 2026
As projeções do IBEVAR-FIA Business School, também baseadas na PMC, reforçam esse cenário: crescimento continuará, mas de forma moderada e desigual entre setores.
No varejo restrito, as vendas devem subir cerca de 1,7% em 12 meses no início de 2026, com desaceleração ao longo do trimestre. Já o varejo ampliado tende a apresentar maior volatilidade, com quedas previstas em meses específicos, refletindo a dependência de crédito.
Os segmentos mostram comportamentos bem distintos:
Desempenho positivo
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artigos farmacêuticos e perfumaria
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tecnologia e informática
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móveis e eletrodomésticos (com oscilações)
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vestuário e calçados
Desempenho mais fraco
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veículos
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material de construção
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livros e papelaria (queda estrutural)
Segundo Claudio Felisoni, presidente do IBEVAR, “os resultados mostram um varejo que segue crescendo, mas de forma seletiva. O consumidor está mais cauteloso, priorizando gastos essenciais e adiando compras de maior valor”.
O que os dados dizem sobre a economia
O comportamento do comércio é um dos principais termômetros da atividade econômica. A leitura combinada dos dados sugere:
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perda de dinamismo no fim de 2025
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impacto relevante dos juros elevados
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consumo sustentado por renda, não por crédito
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recuperação gradual prevista para 2026
A XP projeta expansão do PIB em 2,0% em 2026, apoiada por estímulos de renda e crédito, embora ainda limitada pelas condições financeiras restritivas.
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