Dubai sempre teve petróleo, mas nunca teve costa suficiente para virar um destino global. Em 2001, o governo local decidiu resolver isso da única forma que parecia absurda: criando terra do zero. A Palm Jumeirah custou US$ 12 bilhões, consumiu 94 milhões de metros cúbicos de areia e 5,5 milhões de toneladas de rocha. Hoje, é a maior ilha artificial em extensão de costa do planeta e abriga 120 mil pessoas.
Por que Dubai precisava construir uma ilha artificial do nada?
No final dos anos 1990, Dubai tinha apenas 72 quilômetros de praia. O plano do xeique Mohammed bin Rashid Al Maktoum era triplicar o turismo, mas não havia onde colocar hotéis, mansões e infraestrutura. A solução veio com um desenho feito à mão pelo próprio xeique: uma palmeira de 5,6 quilômetros quadrados que multiplicaria a costa por nove vezes.
O formato não era apenas estético. Cada frond, cada curva do tronco e cada pedaço do quebra‑mar de 11 quilômetros foi calculado para enganar o mar e fazer com que a ilha parecesse natural. A engenharia, ali, começou antes da primeira draga entrar na água.

Como 94 milhões de metros cúbicos de areia viram terra firme?
A areia do deserto não serve para construção no mar. Ela é fina demais e se dissipa na água. Os engenheiros holandeses contratados para a obra tiveram que dragar areia do fundo do Golfo Pérsico, mais grossa e estável. Foram 94 milhões de metros cúbicos retirados do mar e despejados por draga hidráulica, um volume suficiente para cobrir Manhattan com um metro de areia.
Paralelamente, 5,5 milhões de toneladas de rocha das Montanhas Hajar foram transportadas por caminhões e balsas para construir o quebra‑mar de 11,5 quilômetros. Cada bloco de pedra pesa até seis toneladas e foi posicionado individualmente por guindastes flutuantes. Não há concreto nem vergalhão: a ilha é sustentada apenas pelo peso e encaixe das pedras.
Para entender a escala dessa operação, o canal Provident Real Estate, que soma 87,7 mil inscritos, publicou um documentário completo mostrando como draga, rocha e GPS trabalharam juntos. No vídeo abaixo, é possível ver as máquinas criando as primeiras faixas de areia em meio ao mar aberto:
Quais números mostram a magnitude da Palm Jumeirah?
Os volumes envolvidos na construção são difíceis de visualizar sem comparar com estruturas conhecidas. Abaixo, os principais indicadores físicos da obra:
- 94 a 120 milhões de m³ de areia dragada do fundo do mar — suficiente para encher 40 estádios de futebol
- 5,5 a 7 milhões de toneladas de rocha das Montanhas Hajar — o equivalente a duas Pirâmides de Gizé
- 56 km de costa artificial adicionados aos 72 km originais
- 11,5 km de extensão do quebra‑mar protetor
- 120 mil habitantes atuais
- US$ 12 bilhões investidos apenas no projeto base
O que mudou no litoral de Dubai com a ilha artificial?
Antes da Palm Jumeirah, a costa de Dubai era uma linha reta de 72 quilômetros, com ocupação concentrada em poucos bairros. Depois da ilha, a geografia urbana da cidade foi completamente redesenhada. A tabela abaixo mostra o contraste entre o litoral original e o atual:
Os números mostram que a ilha não apenas adicionou metros lineares de praia, mas reprogramou a economia turística do país. O Atlantis, The Palm, inaugurado em 2008, sozinho emprega mais de 3 mil funcionários e recebe hóspedes do mundo inteiro.

A Palm Jumeirah é sustentável ou sofre com o mar?
Construir uma ilha de areia em um golfo sujeito a tempestades e erosão exige manutenção constante. O quebra‑mar de 11,5 quilômetros é revisado periodicamente por mergulhadores e engenheiros, que verificam o deslocamento das pedras de seis toneladas. Até hoje, a estrutura resistiu a todas as tempestades sazonais.
Outro desafio foi a circulação da água. As primeiras simulações mostraram risco de estagnação entre as frondes. A solução veio com duas aberturas no quebra‑mar, permitindo que a maré renovasse a água a cada duas semanas. Hoje, a qualidade da água é monitorada diariamente para evitar proliferação de algas.
O que essa ilha artificial representa para a engenharia mundial?
A Palm Jumeirah não é apenas um ícone do luxo. Ela provou que é possível construir cidades inteiras onde antes só existia mar, usando exclusivamente materiais naturais e técnicas de precisão milimétrica. O GPS de alta resolução, os modelos computacionais de onda e a logística de dragagem em escala jamais vista se tornaram referência para obras como aeroportos sobre água e expansões portuárias.
Mais do que um símbolo de Dubai, a ilha é um lembrete de que a engenharia não precisa domar a natureza: ela pode, com inteligência e paciência, negociar centímetro por centímetro com o oceano. E vencer.

