O comportamento do dólar e juros nos EUA voltou ao centro das atenções dos investidores brasileiros. Em um cenário global marcado por tensões geopolíticas e mudanças na política monetária americana, os efeitos sobre o Brasil podem ser diretos, especialmente nas decisões do Banco Central.
Em entrevista à BM&C News, Carla Argenta, economista-chefe da CM Capital, explicou que países emergentes, como o Brasil, são particularmente sensíveis ao ambiente internacional.
“Nós somos muito vulneráveis a questões externas. Países em desenvolvimento sofrem bastante quando há algum contrapé na conjuntura geopolítica e econômica global”, afirmou.
Dólar e juros nos EUA: Fed dita o humor dos mercados
Segundo Argenta, apesar das incertezas políticas ao redor do mundo, o fator dominante no curto prazo continua sendo a política monetária americana. A expectativa de queda de juros pelo Federal Reserve reduziu a percepção de risco global.
No início do ano passado, o mercado temia que mudanças comerciais e produtivas nos Estados Unidos gerassem inflação elevada. O cenário, porém, não se confirmou.
“A inflação nos Estados Unidos se mostrou mais branda do que era esperado, permitindo uma política monetária menos tensionada e a queda dos juros ao longo do último quadrimestre.”
Com juros mais baixos nos EUA, o fluxo global de capital tende a migrar para ativos de maior risco, entre eles, os mercados emergentes.
Por que isso mexe com o dólar no Brasil?
A economista explica que a relação entre dólar e juros nos EUA é praticamente automática. Quando os juros americanos caem, o rendimento dos títulos do Tesouro americano diminui e o investidor internacional passa a buscar retorno em outros países.
Esse movimento costuma:
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enfraquecer o dólar globalmente
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favorecer moedas emergentes
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melhorar o desempenho de bolsas e ativos brasileiros
“A perspectiva de queda dos juros nos Estados Unidos faz com que o dólar permaneça mais baixo e as economias emergentes se beneficiem desse processo.”
Isso ajuda a reduzir pressões inflacionárias no Brasil e abre espaço para flexibilização da política monetária local.
Dólar e juros nos EUA e a geopolítica
Apesar do cenário mais benigno no curto prazo, Argenta destaca que a aversão ao risco continua elevada. Conflitos diplomáticos e disputas comerciais ainda representam ameaça relevante.
Entre os fatores observados pelos investidores estão:
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tensões entre Estados Unidos e China
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conflitos no Oriente Médio
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disputas diplomáticas envolvendo países latino-americanos
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mudanças na política comercial americana
“Esses fatores aumentam a aversão ao risco, principalmente no médio e longo prazo.”
Ou seja, mesmo que o mercado esteja mais otimista agora, qualquer deterioração internacional pode provocar fuga de capital dos emergentes.
Impacto direto nas decisões do Banco Central
Para a economista, o Banco Central brasileiro não pode ignorar o ambiente externo. A condução da política monetária depende diretamente do comportamento do dólar e do fluxo financeiro internacional.
Caso os juros americanos caiam, o Brasil ganha espaço para cortar a Selic. Mas se houver reversão, o efeito pode ser oposto.
“Uma eventual mudança nesse cenário teria consequências muito nocivas para países em desenvolvimento, especialmente para o Brasil.”
Assim, mais do que indicadores domésticos, o rumo da economia brasileira em 2026 pode depender do que acontecer em Washington.












