Desde 2002, o Nordeste brasileiro é visto como uma força eleitoral da esquerda e foi crucial para as cinco vitórias que o PT teve em eleições presidenciais de lá para cá. Em 2024, porém, algo surpreendente ocorreu: centro e direita avançaram de maneira consistente na região, tanto nas capitais quanto no interior. Das nove capitais nordestinas, sete escolheram gestores de partidos como União Brasil, PL, PP e PSD, enquanto apenas Fortaleza e Recife permaneceram sob comando de legendas alinhadas à esquerda.
No conjunto total dos municípios do Nordeste, o MDB despontou como a sigla mais vitoriosa, com 283 prefeituras, seguido de perto por PSD e PP, todos posicionados no espectro de centro ou centro‑direita. Já PSB e PT, principais forças da esquerda na região, somaram 214 e 170 prefeituras, respectivamente. O resultado consolidou uma correlação de forças em que o centro e a direita ampliaram sua presença territorial, deixando a esquerda numericamente atrás em boa parte do Nordeste. Estima-se que, neste pleito, o centro e a direita tenham obtido mais que dois terços das prefeituras.
Vamos imaginar que esse avanço conservador entre os nordestinos possa reduzir a vantagem que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve em 2022 contra Jair Bolsonaro; e que um candidato de direita, no segundo turno, também amplie a vantagem que o ex-presidente obteve na última eleição no Sudeste.
Neste caso, se Lula reduzisse em torno de 20% a diferença que obteve no Nordeste em 2022, sua vantagem regional cairia de cerca de 12 milhões para algo próximo de 9,6 milhões de votos. Ao mesmo tempo, se a direita aumentasse em 20% a margem que teve no Sudeste, sua vantagem ali subiria de aproximadamente 2,5 milhões para algo perto de 3 milhões.
Quando essas duas mudanças são combinadas e as demais regiões mantêm comportamento semelhante ao de 2022, o saldo nacional hipotético se estreita a ponto de produzir uma vitória conservadora apertada. Isso mostra que o Nordeste continua sendo decisivo, mas já não funcionaria como um colchão eleitoral tão amplo quanto no passado, especialmente diante do avanço de partidos de centro e direita nas prefeituras da região. O Sudeste, por sua vez, permanece como o principal campo de disputa, e qualquer oscilação ali tem impacto imediato no resultado nacional.
Esse cenário não depende apenas de máquinas municipais, mas de uma combinação de fatores políticos, econômicos e simbólicos. No Nordeste, seria necessário algum desgaste do governo federal, menor mobilização dos governadores aliados e maior capacidade de prefeitos de centro e direita influenciarem o voto presidencial. No Sudeste, o crescimento conservador exigiria um ambiente favorável a pautas de segurança, economia e gestão, além de lideranças regionais alinhadas a esse campo.
Esse rearranjo não significa uma virada automática, mas mostra que a matemática eleitoral brasileira permite um caminho competitivo para um candidato conservador se dois movimentos ocorrerem simultaneamente: erosão da margem lulista no Nordeste e ampliação da vantagem direitista no Sudeste. A soma desses deslocamentos, mesmo que moderados, já seria suficiente para alterar o equilíbrio nacional. Em outras palavras, a hegemonia regional que marcou as últimas disputas presidenciais pode ser menos estável do que parecia.
O avanço de partidos de centro e direita nas prefeituras nordestinas não garante uma mudança no voto presidencial, mas cria condições políticas e administrativas que podem influenciar parte do eleitorado, especialmente em cidades médias e no interior profundo. Se isso se combinar a um ambiente nacional mais favorável ao discurso conservador nas grandes metrópoles do Sudeste, o mapa eleitoral brasileiro pode se aproximar de um ponto de inflexão.
Assim, embora o Nordeste continue sendo um pilar importante para a esquerda, o conjunto de movimentos recentes indica que existe, sim, espaço para uma vitória da direita caso essas tendências se reforcem mutuamente. O resultado dependerá da capacidade de influenciar a narrativa nacional em 2026. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva irá destacar projetos de cunho trabalhista (fim da jornada 6×1) e social (transporte público gratuito). Já os conservadores vão bater na fragilidade do governo em questões relativas à segurança pública e no apetite pantagruélico do Executivo por impostos junto à classe média e empresas. Quem irá ganhar? Façam suas apostas.













