A Reforma Tributária marca uma mudança profunda na forma como as empresas brasileiras lidam com impostos. O tema deixou de ser essencialmente jurídico e passou a se tornar uma variável financeira estratégica, com impacto direto sobre margem operacional, fluxo de caixa, geração de crédito e, no limite, valuation.
Na prática, o fiscal deixa de ser apenas uma área de compliance para as empresas e passa a integrar o núcleo da gestão de resultado. A lógica não é mais simplesmente “cumprir imposto”, mas gerir imposto como parte da performance financeira da empresa.
Com o novo modelo, decisões fiscais passam a afetar diretamente indicadores como EBITDA, capital de giro, estrutura de custos e previsibilidade de caixa. Erros antes tratados como passivos jurídicos passam a se traduzir em perda econômica imediata.
IVA Dual: o que muda na prática com a Reforma Tributária
O coração da Reforma é a substituição dos principais tributos indiretos por dois novos impostos:
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CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) – de competência federal
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IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) – de competência estadual e municipal
Com isso, deixam de existir PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS, que hoje formam um dos sistemas mais fragmentados e complexos do mundo.
Segundo Thomas Becker Pfeferman e Diego Penas, sócios do Nabarro & Pfeferman Advogados, a principal mudança está na lógica de funcionamento do imposto, que deixa de ser cumulativo e passa a operar de forma amplamente não cumulativa, com crédito estruturado ao longo de toda a cadeia.
“No modelo atual, há imposto sobre imposto, o que praticamente impede que as empresas saibam quanto efetivamente pagam. Com a reforma, quase todo imposto pago gera crédito na etapa seguinte”, explicam.
Outra mudança central é que o imposto passa a ser recolhido no destino, ou seja, onde ocorre o consumo, e não mais no local de origem da operação. Além disso, a alíquota deixa de variar conforme o produto ou serviço, o que elimina grande parte dos litígios fiscais hoje existentes.
Crédito tributário vira linha de resultado
O maior ganho, e também o maior risco, da nova estrutura está no crédito tributário. A partir da Reforma, o crédito deixa de ser exceção e passa a ser elemento estrutural da apuração do imposto.
Na prática, isso significa:
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Crédito mal capturado = imposto maior = margem menor
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Crédito bem gerido = melhora recorrente de caixa
O fiscal passa a influenciar diretamente:
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EBITDA
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Capital de giro
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Planejamento financeiro
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Estrutura de custos
Com a introdução do split payment, o imposto tende a ser recolhido automaticamente no momento da liquidação da operação. Por um lado, isso evita que a empresa pague tributo antes de receber a receita. Por outro, elimina a possibilidade de utilizar temporariamente esses recursos até o vencimento.
“O crédito passa a ser uma variável financeira real. Sua não geração, atraso ou glosa resulta em aumento do imposto efetivo e maior necessidade de capital de giro. Qualquer ineficiência gera perda econômica imediata”, afirmam os especialistas.
Reforma tributária e o split payment
A partir da introdução do split payment, a apuração do imposto passa a ser cada vez mais automatizada o que eleva significativamente o grau de dependência das empresas em relação aos sistemas da Receita Federal.
Em termos de infraestrutura, a Receita está construindo o maior sistema informacional da história do país. Segundo Pfeferman e Penas, o sistema de controle do split payment deve ser mais de 150 vezes maior que o Pix em volume e complexidade de dados.
Risco para empresas desorganizadas
A Reforma expõe brutalmente a fragilidade operacional de muitas empresas brasileiras.
Erros que antes geravam apenas contingência jurídica agora se traduzem em perda direta de dinheiro:
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Erro cadastral → perda de crédito
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Produto mal classificado → imposto errado
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Documento inconsistente → glosa automática
“Já hoje a escrituração fiscal depende muito da qualidade da informação. A diferença é que agora haverá um sistema centralizado controlando todas as transações da economia”, alertam.
Setores de serviços tendem a ser os mais afetados. A alíquota estimada de CBS e IBS em torno de 27,5% pode superar significativamente a carga anterior de ISS e PIS/Cofins cumulativos, que girava em torno de 8,65%.
Além disso, setores antes pouco tributados, como receitas de aluguéis e royalties, passam a integrar a base.
Fiscal como nova área estratégica
O efeito final da Reforma é claro: o fiscal entra definitivamente no núcleo estratégico das empresas, ao lado de financeiro, jurídico e tecnologia.
A área deixa de ser suporte operacional e passa a ser:
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centro de geração de valor
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variável de margem
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fator de eficiência de caixa
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elemento de competitividade
A Reforma Tributária não é mais um debate jurídico. É um tema de resultado, caixa e valor econômico.
A partir de agora, quem não dominar seus dados fiscais corre o risco de pagar mais imposto do que deveria, e nem perceber.













