O que parecia ser apenas erosão natural revelou-se a ação silenciosa de um molusco perfurador capaz de dissolver pedras sólidas. Conhecido cientificamente como Lithophaga lithophaga, ou dátil-do-mar, esse animal utiliza uma sofisticada secreção química para escavar rochas calcárias, criando um problema ambiental que obrigou governos europeus a intervir drasticamente na legislação de pesca.
O que revela o ataque do molusco perfurador nas rochas submersas?
O mistério começou quando mergulhadores no Mediterrâneo notaram que grandes blocos de costões rochosos estavam estranhamente “ocos”, assemelhando-se a favos de mel petrificados. A estrutura, aparentemente sólida por fora, escondia uma rede complexa de túneis internos. Não era desgaste da maré, mas a casa de um molusco perfurador que vive a vida inteira dentro da pedra.
Essa espécie é um engenheiro do ecossistema. Ao contrário de outros animais que buscam tocas prontas, o dátil-do-mar constrói seu próprio abrigo. O problema surge quando a biologia fascinante colide com a ganância humana: para extrair o animal (uma iguaria culinária), pescadores precisam quebrar a rocha, destruindo em minutos o que a natureza levou séculos para esculpir.
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Como funciona a química biológica que dissolve a pedra?
O mecanismo utilizado pelo Lithophaga é uma obra-prima da evolução. Diferente do que se pensava antigamente, ele não usa ácidos fortes. O animal secreta substâncias químicas especiais de sua glândula palial (com pH neutro) que realizam a complexação do cálcio, permitindo a dissolução seletiva da rocha sem ferir o próprio animal.
Esse processo, conhecido como chemical boring, envolve etapas precisas:
- Secreção química: Glândulas do manto liberam mucoproteínas que se ligam ao cálcio e dissolvem o calcário.
- Microabrasão: Movimentos rotativos da concha removem os resíduos amolecidos pela reação química.
- Fixação permanente: O molusco nunca sai do buraco; ele alarga a toca à medida que cresce.
Por que a caça ao molusco perfurador destrói falésias inteiras?
O verdadeiro perigo não é o animal em si, mas a forma como ele é coletado. Como o molusco perfurador vive encapsulado na rocha, a única maneira de capturá-lo é destruindo seu habitat. Pescadores ilegais utilizam martelos pneumáticos e ferramentas pesadas para fragmentar recifes e costões, deixando para trás um deserto subaquático de pedras quebradas.
Essa prática, chamada de pesca destrutiva, causa erosão costeira acelerada. Sem a barreira natural das rochas íntegras, a ação das ondas atinge a costa com mais violência. A recuperação desses ambientes é considerada extremamente lenta na escala de tempo humana, com danos permanentes ao substrato rochoso que não se regenera facilmente.

Quais países proibiram a captura para evitar o colapso costeiro?
Diante do cenário de devastação, a legislação ambiental precisou ser endurecida. A extração, venda e consumo do dátil-do-mar tornaram-se crimes ambientais em diversas nações, amparados pela Diretiva Habitats da União Europeia e pela Convenção de Berna.
Abaixo, listamos a situação legal nos países mais afetados:
| País | Status Legal | Consequência para Infratores |
|---|---|---|
| Itália | Proibição Total | Apreensão de equipamentos e processos penais |
| Croácia | Crime Ambiental | Multas pesadas e prisão para reincidentes |
| Espanha | Espécie Protegida | Fiscalização costeira rigorosa |
| Grécia | Pesca Ilegal | Proibição de venda em restaurantes |
O molusco perfurador é um vilão ou uma vítima da ação humana?
Cientificamente, o Lithophaga lithophaga vive um paradoxo. Enquanto sua biologia de molusco perfurador é essencial para a biodiversidade, criando micro-habitats para outras espécies nas rochas, sua valorização gastronômica o tornou um vetor de destruição.
Como é quase impossível filmar esse animal sem quebrar a rocha (o que é ilegal), registros em vídeo são raros. O canal intotheblue.it conseguiu capturar imagens de um polvo interagindo com o ambiente desses moluscos, ilustrando a dificuldade de acesso:
A proibição rigorosa visa não apenas salvar a espécie, mas proteger a integridade física da costa mediterrânea. Hoje, encontrar rochas “escavadas” no fundo do mar deve ser visto apenas como um fenômeno natural a ser admirado, e nunca como um convite ao extrativismo predatório.
