Pendurados em um paredão de calcário, nos Apeninos centrais da Itália, um grupo de alpinistas se concentrava apenas em ganchos, cordas e fendas na rocha. Até que um deles, ao apoiar a mão num trecho mais liso, percebeu algo que não combinava com a ideia de montanha árida: marcas arredondadas, alinhadas em fileiras, que pareciam repetir um mesmo padrão ao longo da parede. Não eram rachaduras nem fraturas naturais, mas rastros que transformaram aquela face cinzenta em registro silencioso de um movimento coletivo ocorrido há cerca de 80 milhões de anos.
Como uma montanha italiana pode revelar um antigo fundo de oceano?
A região da montanha de Majella, nos Apeninos centrais, funciona hoje como uma verdadeira cápsula do tempo geológica. Durante o Período Cretáceo, o local era uma ampla planície de maré rasa, parte de um oceano dinâmico onde sedimentos finos se acumulavam em camadas sucessivas.
Com o passar de milhões de anos, esses sedimentos foram compactados e transformados em rocha, depois elevados por movimentos tectônicos intensos. O que hoje aparece como paredão vertical já foi um chão quase horizontal, coberto por água salgada e pisoteado por animais marinhos em deslocamento.

O que as trilhas de tartarugas pré-históricas indicam sobre migração em massa?
A estampida de tartarugas registrada em Majella não é um tumulto caótico, mas um padrão organizado de trilhas paralelas. As marcas indicam que vários indivíduos se deslocavam na mesma direção, sugerindo um comportamento de migração em massa em ambiente costeiro raso.
Trilhas sobrepostas e de diferentes tamanhos apontam para passagens repetidas, talvez sazonais, por animais de portes variados. Isso permite inferir não apenas o tamanho aproximado das tartarugas, mas também indícios de sociabilidade e uso recorrente de rotas específicas ao longo do Cretáceo tardio.
Quais fatores podem ter provocado essa migração coletiva?
O registro fossilizado não descreve a causa exata da movimentação, mas permite levantar cenários plausíveis sobre o comportamento desses répteis marinhos. Em uma planície de maré do Cretáceo, tartarugas podiam reagir rapidamente a mudanças no ambiente, como ocorre com espécies modernas.
A partir das trilhas, pesquisadores discutem diferentes hipóteses para explicar essa migração coordenada:
- Busca por alimento: deslocamento rumo a áreas com maior abundância de presas, como invertebrados marinhos concentrados.
- Rotas reprodutivas: movimento em direção a zonas de desova ou acasalamento, guiado por ciclos sazonais.
- Estresse ambiental: resposta a alterações no nível do mar, tempestades intensas ou mudanças na química da água.

Como esses fósseis ajudam a entender mudanças climáticas antigas?
Em um contexto de aquecimento global atual, trilhas de tartarugas fósseis em migração tornam-se pistas valiosas sobre a resposta de animais marinhos a variações ambientais. O Período Cretáceo teve clima mais quente, níveis do mar elevados e episódios de mudanças climáticas drásticas.
Esses rastros preservados permitem reconstruir padrões de distribuição, rotas migratórias e flexibilidade comportamental diante de alterações costeiras. Ao combinar fósseis, sedimentos e dados geoquímicos, cientistas montam uma linha do tempo das expansões e retrações das planícies de maré e de seus impactos na fauna.
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Por que a descoberta em Majella é importante para a paleontologia?
O achado nas montanhas de Majella mostra como um paredão aparentemente inóspito pode guardar detalhes minuciosos da vida em um oceano antigo. A “cena congelada” de tartarugas em movimento oferece um raro retrato de comportamento coletivo preservado em escala de paisagem.
Cada trilha esculpida na rocha é um fragmento da memória longa da Terra, útil para estudar comportamento social, migração e resiliência ecológica em tempos de mudanças climáticas extremas. Ao decifrar esses sinais, a paleontologia ganha parâmetros para comparar respostas de ecossistemas marinhos do passado com os desafios enfrentados pelos oceanos atuais.

