No meio de um manguezal esturricado pelo sol, um biólogo se ajoelha diante de um tronco oco, cinzento e quebradiço. A lama ao redor está dura como cimento rachado, sem qualquer sinal de água. Com uma faca, ele abre a madeira ressecada esperando encontrar apenas cupins e fungos. Em vez disso, algo se mexe: um pequeno peixe marmorizado, o Rivulus, salta vivo dentro da cavidade, ofegante, como se tivesse sido arrancado de um aquário segundos antes, desafiando qualquer noção básica de biologia.
Como o Rivulus sobrevive em troncos secos nos manguezais?
Ao longo das últimas décadas, pesquisadores que estudam o Kryptolebias marmoratus, o Rivulus, registraram repetidamente a cena de troncos ocos servindo de cápsulas de sobrevivência. Em uma paisagem de deserto lamacento, o animal permanece ativo, escondido em microabrigos, questionando a definição clássica de peixe “aquático”.
É esse contraste entre ambiente aparentemente morto e organismo funcional que transformou o Rivulus em um protagonista da chamada engenharia da sobrevivência na natureza. Sua biologia revela um conjunto de ajustes extremos para lidar com secas prolongadas em manguezais costeiros.

Como funciona a respiração cutânea desse peixe?
O segredo desse peixe começa nas brânquias, que em condições normais atuam como filtros delicados e altamente vascularizados para extrair oxigênio da água. Quando a seca aperta e as poças desaparecem, as estruturas branquiais encolhem, a superfície exposta diminui e o órgão passa a funcionar mais como reservatório de umidade.
Nesse cenário, a engenharia da sobrevivência entra em ação: a troca gasosa migra para a pele, fina e bem vascularizada, que se torna o principal portal para o oxigênio do ar. O peixe passa a se comportar como um “anfíbio improvisado”, usando o corpo inteiro como pulmão difuso, e reverte o processo quando a água retorna.
O que acontece com o Rivulus durante mais de 60 dias fora da água?
Para resistir a mais de 60 dias em ambiente seco, o Rivulus reduz drasticamente seu ritmo de vida por meio da estivação, uma dormência profunda associada à seca. O metabolismo desacelera, o consumo de energia cai e funções consideradas “de luxo” são temporariamente suspensas.
Escondido em troncos ocos, fendas de rochas ou cavidades no solo, o peixe aproveita qualquer resquício de umidade e mantém uma fina película de água na pele. Coração, sistema nervoso e músculos operam em marcha lenta, mas permanecem funcionais, permitindo que ele retome a natação rapidamente quando as chuvas voltam.
Com mais de 2,5 mil visualizações, o canal Frederic Silvestre Lab mostra o momento em que o peixe Rivulus é achado em um tronco de árvore:
Por que o Rivulus ajuda a entender a transição da vida para terra firme?
Na biologia evolutiva, o Rivulus funciona como modelo vivo de transição entre água e terra, embora não seja um “ancestral vivo” dos primeiros vertebrados terrestres. Suas estratégias de respiração cutânea, tolerância à seca e uso de microabrigos lembram desafios enfrentados por animais que começaram a explorar ambientes fora d’água.
Em laboratório, esse peixe é usado para investigar adaptações a diferentes meios e mudanças metabólicas profundas. Entre as principais questões estudadas, destacam-se:
- Como tecidos respiratórios se ajustam ao uso de água e ar.
- De que forma o metabolismo é reprogramado em longos períodos de dormência.
- Quais genes regulam a tolerância à desidratação em vertebrados.
Por que o peixe Rivulus é considerado um ícone de sobrevivência extrema?
Combinando resistência à seca, respiração cutânea, estivação prolongada e hermafroditismo autofecundante, o Rivulus tornou-se símbolo de adaptação extrema. Uma única fêmea-hermafrodita pode se autorreproduzir e, após o retorno da água ao manguezal, repovoar rapidamente o ambiente com seus descendentes.
No cotidiano dos manguezais, porém, esse peixe permanece discreto, quase invisível, até que a água desaparece e a lama racha. Nesse intervalo silencioso entre seca e cheia, encolhido em um tronco morto e vivendo em “câmera lenta”, o Rivulus mostra como a sobrevivência pode assumir formas que parecem, à primeira vista, biologicamente impossíveis.

