A Arábia Saudita anunciou cortes significativos no projeto futurista Neom, a megacidade desértica que pretendia revolucionar o conceito de urbanismo moderno com arranha-céus espelhados de 500 metros atravessando 160 quilômetros de deserto. Após anos de gastos exorbitantes, atrasos constantes e preocupações crescentes sobre a viabilidade financeira do empreendimento, o governo saudita admitiu ter gasto demais e está reavaliando completamente a escala do projeto que era considerado o carro-chefe da transformação econômica do país para além do petróleo.
O que era o projeto original da megacidade Neom?
O Neom foi apresentado como um projeto revolucionário que criaria uma cidade completamente nova no deserto saudita, com tecnologia de ponta e sustentabilidade ambiental sem precedentes. O elemento mais ambicioso era The Line, uma cidade linear composta por duas paredes paralelas de arranha-céus espelhados de 500 metros de altura que se estenderiam por 170 quilômetros através do deserto, abrigando até 9 milhões de pessoas.
A proposta incluía funcionamento sem estradas, carros ou emissões de carbono, com toda a energia vinda de fontes renováveis e 95% da área preservada como natureza intocada. Os moradores se deslocariam através de trens de alta velocidade que conectariam toda a extensão da cidade em questão de minutos. O projeto deveria estar concluído até 2030, mas a realidade se mostrou muito mais complexa e cara do que as projeções iniciais sugeriam. As principais características do plano original incluíam:
- Estrutura linear de 170 quilômetros formada por dois arranha-céus paralelos atravessando o deserto saudita de ponta a ponta
- Capacidade para 9 milhões de habitantes vivendo em um ambiente totalmente planejado sem veículos convencionais
- Energia 100% renovável eliminando completamente dependência de combustíveis fósseis em toda a operação da cidade
- Preservação ambiental extrema mantendo 95% da área territorial natural sem interferência da construção urbana
Por que o governo saudita decidiu reduzir drasticamente o projeto?
além da capacidade sustentável. Em um fórum de investimentos realizado em novembro de 2024, um funcionário saudita admitiu abertamente que o governo correu demais na implementação dos projetos e agora enfrenta déficits orçamentários que exigem redefinição completa de prioridades.
A economia saudita está lidando com o impacto duplo de décadas de gastos excessivos combinados com quedas nos preços do petróleo, principal fonte de receita do país. Mesmo para uma nação rica em petróleo, construir uma megacidade do zero no deserto com tecnologias ainda não testadas em larga escala provou ser financeiramente insustentável. Os atrasos constantes na construção também frustraram o príncipe Mohammed bin Salman, governante de facto do país e principal defensor do projeto, forçando uma reavaliação realista das ambições originais.

Qual será o novo foco do projeto Neom após os cortes?
Segundo informações recentes, o Neom pode mudar seu foco principal de megacidade residencial para se tornar um centro de dados e infraestrutura para inteligência artificial. O príncipe Mohammed estaria impulsionando essa mudança estratégica como forma de posicionar a Arábia Saudita como líder global na indústria de tecnologia, aproveitando os recursos energéticos e espaço físico disponíveis no deserto.
Ainda não está claro se o projeto The Line continuará fazendo parte dos planos em escala reduzida ou será completamente abandonado. A única parte do Neom que foi efetivamente inaugurada até agora é Sindalah, um resort náutico no Mar Vermelho que foi lançado em outubro de 2024 com três anos de atraso e custando três vezes mais que o orçamento inicial. A inauguração cara com presença de celebridades como Will Smith e Alicia Keys teria desagradado o príncipe Mohammed, resultando na demissão do diretor executivo do Neom. Entre as mudanças esperadas na nova direção do projeto, destacam-se:
- Priorização de centros de dados aproveitando o espaço desértico para infraestrutura tecnológica de inteligência artificial
- Redução drástica da escala habitacional abandonando ou redimensionando significativamente os planos da cidade linear The Line
- Foco em projetos economicamente viáveis privilegiando empreendimentos com retorno financeiro mais rápido e previsível
- Expectativas mais modestas e realistas estabelecendo metas de conclusão que considerem limitações orçamentárias e técnicas reais
O que esse recuo revela sobre megaprojetos futuristas?
O redimensionamento forçado do Neom serve como lembrete poderoso de que mesmo países com recursos financeiros abundantes enfrentam limites práticos ao tentar materializar visões futuristas extremamente ambiciosas. Construir cidades completamente novas do zero sempre foi desafio monumental, e adicionar camadas de tecnologia experimental e conceitos urbanísticos nunca testados multiplica exponencialmente os riscos e custos envolvidos.
A história está repleta de megaprojetos que prometiam revolucionar a forma como vivemos, mas acabaram sendo reduzidos, adiados ou abandonados quando a realidade financeira e técnica se impôs sobre o entusiasmo inicial. O caso do Neom demonstra que ter dinheiro para começar não garante ter recursos suficientes para terminar, especialmente quando as estimativas iniciais subestimam drasticamente a complexidade real da execução. Para outros países e empreendedores que contemplam projetos igualmente ambiciosos, a lição é clara: planejamento realista, fases incrementais de implementação e avaliações honestas de viabilidade são mais importantes que visões grandiosas desconectadas das limitações do mundo real.

