As renovações das máximas do Ibovespa no início de 2026 tem sido sustentadas muito mais por um movimento intenso de fluxo estrangeiro do que por uma melhora estrutural dos fundamentos da economia brasileira. A avaliação é de Helena Veronese, economista-chefe da B.Side Investimentos, em entrevista à BM&C News.
Segundo a economista, apenas até o dia 26 de janeiro, a bolsa brasileira registrou cerca de R$ 20 bilhões em entrada líquida de capital externo, número que se aproxima do total observado ao longo de todo o ano de 2025.
“Janeiro historicamente é um mês fraco em volume para a bolsa, e isso não está acontecendo agora. Esse movimento é consequência do medo que o investidor está tendo com os Estados Unidos, o que gera uma busca maior por diversificação”, afirmou.
Fluxo explica a euforia do Ibovespa
Para Helena, o ambiente global tem favorecido mercados emergentes, especialmente o Brasil, em função de um dólar mais fraco e do diferencial de juros ainda elevado. Esse cenário torna os ativos brasileiros mais atrativos do ponto de vista relativo.
“Essa alta excessiva depois de uma valorização muito forte ao longo de 2025 é muito mais consequência de fluxo do que de fundamentos”, avaliou.
Apesar disso, ela ressalta que a bolsa brasileira segue com preços atrativos e que, do ponto de vista microeconômico, as empresas vêm apresentando resultados consistentes.
“A bolsa brasileira está barata. As empresas têm entregado bons números, então faz sentido a gente ter a bolsa subindo”, explicou.
2026 pode ser dividido em dois tempos
A leitura da B.Side é que o primeiro semestre de 2026 ainda deve ser favorável para o mercado acionário, sustentado pelo fluxo externo e pela expectativa de início do ciclo de cortes de juros no Brasil.
No entanto, o segundo semestre tende a ser mais desafiador, principalmente por causa do avanço do calendário eleitoral.
“A partir do segundo semestre, principalmente, pode ser que o cenário eleitoral fale mais alto. Isso vai fazer preço, dependendo do que as pesquisas mostrem e de como as campanhas se desenrolem”, afirmou Helena.
Na visão da economista, o mercado deve migrar gradualmente de um ambiente de euforia para um de maior seletividade e cautela, à medida que as incertezas políticas ganharem protagonismo.
Inflação melhora, mas trabalho ainda preocupa
Do lado inflacionário, a economista reconhece avanços, especialmente nos serviços subjacentes, que já mostram desaceleração nos últimos 12 meses. Esse movimento abre espaço para corte de juros
Por outro lado, o mercado de trabalho segue resiliente, o que ainda impõe riscos para a dinâmica inflacionária e reforça a necessidade de prudência.
“O mercado de trabalho é extremamente resiliente. Isso exige cautela, mas do ponto de vista da inflação, já dá para o Banco Central soltar um pouco mais”, concluiu.
Otimismo do Ibovespa tem prazo de validade?
A leitura central da B.Side é que o momento do Ibovespa é positivo, mas frágil do ponto de vista estrutural. A alta atual reflete mais uma realocação global de portfólio do que uma transformação profunda do cenário doméstico.
“O fluxo sustenta, mas não garante. A bolsa pode continuar subindo no curto prazo, mas o investidor precisa entender que esse movimento tem prazo de validade”, alertou Helena.













