O mês de fevereiro está chegando, as eleições vão ocorrer em outubro e até agora a direita não parece ter encontrado um mínimo de consenso. O senador Flávio Bolsonaro é, em tese, o nome oficial do conservadorismo – mas sua candidatura ainda não convenceu todos os caciques direitistas. Um exemplo disso é o pastor Silas Malafaia, que ainda não aderiu à campanha de Flávio e aparentemente prefere que o governador Tarcísio de Freitas seja o nome para unir o centro e a direita.
Na semana que passou, o deputado Nikolas Ferreira conseguiu um feito ao liderar uma caminhada entre Minas Gerais e Brasília, que arregimentou milhares de apoiadores (apesar do trovão que caiu em cima da concentração de manifestantes que clamavam por uma anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro). Teve o apoio de Michelle Bolsonaro, mas sua iniciativa foi ignorada pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro.
O próprio Tarcísio vem sofrendo os efeitos do fogo supostamente amigo. O PP, volta e meia, ameaça lançar o deputado Guilherme Derrite à sucessão estadual para disputar com o próprio governador. Ninguém, no entanto, leva a sério essa intenção. Derrite tem grandes chances de ser eleito senador – e poucas possibilidades de fazer frente a Tarcísio no páreo pelo Bandeirantes. Mas, se o governador se lançar à disputa presidencial, a coisa muda de figura. Para isso, porém, o titular do Bandeirantes teria de desafiar a candidatura de Flávio. Isso poderá ocorrer? Sim, mas dependeria da desistência do senador. Hoje, isso seria impossível.
A fragmentação da direita em 2026 se manifesta em múltiplas frentes e revela que a unidade que existiu no auge do bolsonarismo já não é a mesma. Um exemplo disso é a tensão que existe em torno de Janaína Paschoal, que se afastou do núcleo bolsonarista ao criticar o que considera excessos retóricos e jurídicos. A ex-deputada estadual passou a ser tratada como dissidente por influenciadores e parlamentares que antes a celebravam. Esse afastamento mostra como a direita jurídica, que já foi um dos pilares do movimento, hoje opera de forma descolada da militância mais ideológica.
A tensão entre o PL e setores do Centrão por causa da candidatura de Carlos Bolsonaro ao Senado em Santa Catarina também expôs fissuras importantes dentro da ala direitista. Lideranças locais resistem ao nome dele e reclamam de interferência externa. O impasse desgasta o governador Jorginho Mello e cria atritos com aliados tradicionais no estado. No plano nacional, a disputa embaralha articulações para 2026 e afeta a tentativa do PL de manter coesão interna.
Em Minas Gerais, temos uma situação que beira a fissura política envolvendo o governador Romeu Zema. Sua postura liberal e gerencial o coloca em choque com setores do PL e com lideranças conservadoras que esperam dele um alinhamento mais explícito às pautas morais e ao estilo combativo do bolsonarismo. O resultado é um estado politicamente dividido entre uma direita técnica e uma direita identitária, sem que nenhuma das duas consiga hegemonia.
No Paraná, ocorre outro tipo de conflito: o governador Ratinho Jr. enfrenta uma disputa silenciosa com partidos que compõem a base conservadora, como União Brasil e Republicanos, que tentam ampliar sua influência local e pressionam o governador a ceder espaço. Essa competição interna enfraquece a coesão dos direitistas e mostra que nem mesmo governadores bem avaliados conseguem impor disciplina partidária.
No plano nacional, temos ainda o caso do deputado Kim Kataguiri. Suas críticas às pautas conservadoras de costumes e a defesa de uma agenda econômica mais ortodoxa o colocam em rota de colisão com influenciadores e parlamentares que priorizam temas morais. O MBL, grupo de que faz parte, disputa espaço com PL e Republicanos em diversas cidades, alimentando rivalidades que se refletem no Congresso e nas redes.
A persistente dificuldade da direita em construir um entendimento mínimo, somada às disputas internas que se multiplicam nos estados e no plano nacional, cria um cenário de incerteza que pode cobrar um preço alto quando outubro chegar. Cada semana perdida em conflitos, hesitações e vetos cruzados reduz a capacidade de apresentar um projeto coeso ao eleitorado e amplia o risco de que a fragmentação se transforme em vulnerabilidade eleitoral.
Se fevereiro já desponta no calendário e ainda não há clareza sobre lideranças, alianças ou prioridades, a direita corre o risco de entrar na disputa atrasada, dividida e sem a musculatura política necessária para competir com força num pleito que tende a ser dos mais disputados dos últimos tempos.
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