Mesmo com o IPCA-15 de janeiro vindo abaixo das expectativas e sinalizando algum alívio inflacionário no curto prazo, o Banco Central deve seguir cauteloso e resistir ao início do ciclo de cortes da taxa Selic. A principal razão está na persistência das pressões nos preços de serviços, especialmente aqueles intensivos em mão de obra, que continuam rodando em patamar elevado.
Em entrevista à BM&C News, o economista-chefe da Suno, Gustavo Sung, explicou que o dado de inflação trouxe sinais positivos, mas ainda insuficientes para alterar de forma relevante o diagnóstico da autoridade monetária.
“Não só o IPCA, mas nos últimos meses vemos bens industriais, muito por conta desse câmbio mais apreciado, commodities mais estáveis e preço de alimentos, apesar da alta em janeiro, contribuindo bastante para essa desinflação”, afirmou.
Segundo Sung, esse movimento ajuda o cenário do Banco Central, mas não elimina o principal foco de preocupação: os serviços ligados ao mercado de trabalho, que seguem pressionados em função do nível ainda elevado de atividade econômica.
“Tem uma preocupação ainda com grupo de serviços, principalmente aqueles intensivos em mão de obra, muito por conta desse mercado de trabalho brasileiro que segue muito dinâmico, com a taxa de desemprego em uma das mínimas históricas”, destacou.
Serviços seguem no radar do Banco Central
De acordo com Sung, quando se observa o comportamento dos serviços por métricas mais refinadas, como médias móveis ajustadas sazonalmente, o ritmo de alta ainda chama atenção.
“Quando a gente pega métricas com média móvel de três meses, com ajuste sazonal, que captam melhor a tendência dos preços de serviços intensivos em mão de obra, isso já está rodando em torno de 8%, o que merece atenção do Banco Central”, explicou.
Esse patamar é considerado incompatível com um processo mais sólido de convergência da inflação para a meta, o que justifica a postura conservadora da autoridade monetária.
Expectativa de desaceleração ao longo do ano
Apesar disso, a avaliação da Suno é de que esse quadro deve começar a mudar nos próximos meses, à medida que a economia brasileira perca fôlego e o mercado de trabalho comece a esfriar.
“Nossa expectativa é que haja uma desaceleração em breve. Se olharmos os últimos dados de atividade econômica e mercado de crédito, projetamos que a economia brasileira perca mais força, o que deve contribuir para que o mercado de trabalho esfrie ao longo dos próximos meses”, afirmou.
Segundo o economista, esse movimento deve se refletir diretamente nos preços de serviços.
“A gente fechou o ano passado em torno de 6% e nossa expectativa é que os preços de serviços terminem este ano mais baixos, em torno de 5%”, disse.
Gasolina ajuda, mas não muda o cenário estrutural
Outro fator que contribui para a melhora do cenário inflacionário é o recente corte anunciado pela Petrobras no preço da gasolina. Embora o impacto seja limitado, Sung avalia que a medida traz alívio relevante no curto prazo, especialmente para a inflação de fevereiro.
“Isso vai trazer um certo alívio para a inflação de fevereiro, dado que o corte foi agora e vai se refletir na inflação do próximo mês”, explicou.
Ele ressalta, porém, que o efeito vai além do preço na bomba.
“Gasolina não é só a questão do preço na bomba. Isso afeta toda a cadeia de fretes, caminhões, e traz um alívio em cadeia”, afirmou.
Mesmo com esse impacto positivo, a projeção da Suno para o IPCA permanece em torno de 4% em 2026.
“A gente segue projetando aqui para o IPCA deste ano algo em torno de 4%, que é um cenário um pouquinho acima da meta, mas dentro do intervalo”, completou.
Comunicação do Banco Central será decisiva
Para Sung, mais do que a decisão em si, o que o mercado realmente monitora neste momento é o tom do comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom).
“O mercado espera uma sinalização ou uma postura que pavimente o terreno para o Banco Central iniciar o corte de juros em março, se o cenário evoluir da forma esperada”, afirmou.
O risco, segundo ele, está em uma comunicação excessivamente dura.
“Se ele mantiver palavras como que vai manter essa taxa de juros por um período bastante prolongado ou que pode voltar a ajustar o ciclo, isso deve frustrar o mercado, que vem precificando que em breve haverá corte”, disse.
Na avaliação do economista, o desafio do Banco Central é equilibrar cautela e credibilidade sem fechar completamente a porta para o início do afrouxamento monetário.
“O mais importante é que o Banco Central mantenha a credibilidade, mantenha a cautela, mas sinalize para que em março as coisas aconteçam sem grandes problemas para a sua credibilidade”, concluiu.













