Uma cidade planejada para ser vitrine de luxo, tecnologia e sustentabilidade, avaliada em US$ 100 bilhões (aproximadamente R$ 529 bilhões), hoje acumula prédios vazios, ruas silenciosas e um apelido curioso: a “cidade fantasma mais cara do mundo”. Forest City, na costa de Johor, na Malásia, virou um dos casos mais comentados quando o assunto é megaprojetos urbanos que não saíram como o esperado.
Como surgiu o projeto bilionário de Forest City na Malásia?
Forest City foi lançada em 2014 como um dos maiores projetos imobiliários do planeta, com quatro ilhas artificiais somando cerca de 30 km². O plano era abrigar entre 700 mil e 1 milhão de moradores em torres de luxo, jardins verticais e infraestrutura inteligente.
O empreendimento foi desenvolvido pela chinesa Country Garden (60%) em parceria com o governo de Johor (40%), em sintonia com a Iniciativa Cinturão e Rota. Os imóveis, a partir de US$ 170 mil, eram vendidos sobretudo para chineses, com foco em investimento e proximidade com Singapura.

Por que as vendas iniciais de Forest City foram tão rápidas?
Entre 2014 e 2017, o clima era de euforia, com o projeto vendido como “cidade do futuro”, inspirada em Dubai, com shoppings de luxo, escolas internacionais e resorts. Mesmo após suspensão temporária por questões ambientais, a abertura oficial em 2016 contou com o então premiê Najib Razak.
A estratégia de marketing em grandes cidades chinesas impulsionou as pré-vendas: até 75% das 700 mil unidades planejadas teriam sido comercializadas. O apelo combinava refúgio tropical, oportunidade de negócios e porta de entrada para o Sudeste Asiático.
Quais fatores transformaram Forest City em uma cidade fantasma?
A partir de 2017, a China endureceu controles de saída de capital, dificultando pagamentos de compradores no exterior. Ao mesmo tempo, a Malásia restringiu vistos e cresceu a crítica a uma cidade fantasma voltada quase só a estrangeiros, sem forte ancoragem na demanda local.
A pandemia de COVID-19 derrubou turismo e viagens, enquanto a Country Garden acumulou cerca de US$ 200 bilhões em dívidas. A construção das ilhas ainda destruiu o maior campo de ervas marinhas da Malásia, afetando a pesca de 38 vilarejos e alimentando controvérsias ambientais.
Com mais de 14,3 mil inscritos, o canal EngeZone conta detalhes da história da Forest City:
Como é a realidade atual de Forest City e o mercado imobiliário local?
Em 2026, estima-se que apenas 15% a 20% do projeto esteja concluído, com cerca de 30 blocos entregues e somente 20 mil moradores. À noite, muitos prédios permanecem escuros e áreas comerciais operam com movimento reduzido e serviços limitados.
Os preços caíram cerca de 30% a 40% em relação ao lançamento, gerando frustração entre investidores. Apesar disso, Forest City ainda atrai produções de mídia e algumas empresas de tecnologia, criando “bolsões” de atividade em meio à baixa densidade.
Quais lições e estratégias de retomada Forest City oferece para megaprojetos?
Para tentar reverter o quadro, o governo de Johor aposta na transformação da área em hub financeiro, apoiado na proximidade com Singapura. Em 2024 foi anunciada uma Zona Financeira Especial, com políticas voltadas a finanças, tecnologia e residência de longo prazo.
Entre as principais medidas discutidas e implementadas para reposicionar Forest City, destacam-se:
- Proposta de zona duty-free com isenção de impostos para determinados produtos.
- Ampliação de vistos de longo prazo, como o MM2H, com duração de até 10 anos.
- Incentivos para family offices e empresas de finanças e tecnologia.
- Debates sobre novos pacotes de investimento integrando Singapura e Kuala Lumpur a partir de 2026.
O caso ilustra os riscos de depender de um único público-alvo, subestimar impactos ambientais e políticos e confundir megaprojeto imobiliário com cidade viva. Forest City hoje é referência mundial em estudos sobre planejamento urbano, governança e viabilidade de cidades planejadas em grande escala.

