A agenda de Donald Trump entrou, na avaliação de especialistas ouvidos no Painel BM&C, em uma etapa mais arriscada: depois de usar tarifas como instrumento de pressão econômica, o presidente americano passou a vocalizar disputas territoriais como parte do reposicionamento dos Estados Unidos no mundo.
No programa, o professor de Relações Internacionais Marcus Vinícius de Freitas e o economista Carlos Honorato destacaram que a Groenlândia virou símbolo desse movimento por reunir, ao mesmo tempo, defesa, energia, logística e rotas de comércio.
A leitura apresentada no Painel BM&C é que o Ártico deixa de ser um “tema distante” e passa a ser uma variável econômica: com o avanço das rotas polares, o encurtamento do trajeto entre Ásia, Europa e Estados Unidos pode reduzir prazos e custos e, por consequência, alterar cadeias produtivas, financiamento e seguro de cargas.
“O Ártico está se tornando relevante como rota comercial”, disse Freitas.
O professor apontou uma contradição de Trump ao rejeitar a pauta climática e, ainda assim, se beneficiar de mudanças que tornam essas rotas mais navegáveis.
Trump no centro do debate: um projeto claro ou teste de limites?
Questionado sobre o “projeto de poder” por trás da guinada, Freitas afirmou que não há um desenho totalmente previsível, mas há um componente político interno: Trump tentaria evitar o rótulo de “pato manco”, acelerando anúncios e disputas para manter protagonismo e colher resultados ainda no mandato.
“Esse padrão amplia a instabilidade porque, ao governar por medidas de impacto imediato, cria-se um ambiente em que decisões podem ser revistas por governos seguintes, alimentando incerteza“, analisa Trump.
Honorato acrescentou um componente pessoal à análise.
“Trump “testa o sistema até o limite”, força a barra e recua apenas depois de esticar a corda. Ele opera com uma lógica antiga, comparável à expansão territorial do século XIX nos EUA, mas adaptada ao estilo de negociação de um “agente imobiliário”, em busca de uma marca histórica“, analisa.
Dólar, ouro e juros: o risco para Trump começa dentro de casa
Se o motor é geopolítico, o custo pode ser econômico. Honorato apontou que a fragilidade central para Trump pode vir do ambiente doméstico, sobretudo se medidas pressionarem inflação e poder de compra.
“O americano médio não está preocupado com Groenlândia; está preocupado com o preço do hambúrguer”, resumiu.
Honorato também citou sinais de desconforto em variáveis financeiras, como dólar mais fraco, ouro em alta e juros longos elevados, como parte do pano de fundo que pode limitar o fôlego político do presidente.
Freitas, por sua vez, avaliou que a dimensão militar da Groenlândia aparece com força na narrativa da Casa Branca, mesmo com a presença histórica de interesses e estruturas de defesa já conectadas à região.
Europa “sem resposta” e a conta da OTAN
Os dois convidados convergiram em um ponto: a Europa estaria com pouca capacidade de reação. Freitas afirmou que as lideranças europeias não teriam “coluna vertebral” para enfrentar Trump e que isso abre espaço para avanços de pressão americana.
No debate, ele levantou inclusive a hipótese de Trump tentar “precificar” a relação com a OTAN como parte do discurso político e da barganha internacional.
Honorato reforçou que a desarticulação europeia cria incentivos para movimentos graduais: não necessariamente uma tomada formal imediata, mas a criação de condições, presença, pressão comercial, imposições, para empurrar a região a uma dependência ainda maior.
Davos e a mensagem do Brasil ao capital
O Painel BM&C também abordou o fato de o Brasil não buscar protagonismo em fóruns como Davos, e o que isso comunica ao capital internacional. Freitas relativizou o impacto direto e sugeriu que há outros espaços de articulação e busca de parcerias, enquanto Honorato foi mais duro: chamou Davos de “playground dos ricos e famosos” e disse que a relevância do encontro deveria ser medida por ações concretas, não por simbolismo.
Mercosul–União Europeia: oportunidade ou assimetria?
Ao tratar do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, Freitas defendeu cautela e descreveu o desenho como assimétrico, com o Mercosul ofertando mais peso agrícola e a Europa com tecnologia e manufaturados, além de regras e exigências para acesso ao mercado europeu.
Honorato, em tom mais otimista, argumentou que, em um mundo multipolar, o Brasil pode aproveitar aberturas para buscar investimentos e tecnologia, desde que trabalhe para agregar valor e reduzir dependência de commodities.
O ponto final: interesse nacional
Na conclusão, os entrevistados voltaram ao mesmo eixo: interesse nacional. Para Freitas, o Brasil oscila conforme o governo e contamina a política externa com ideologia, sem uma estratégia de longo prazo.
O professor citou que relações internacionais não têm amigos ou inimigos permanentes, apenas interesses permanentes, e defendeu a necessidade de “cérebros” e instituições capazes de planejar o país com horizonte de décadas.













