Em 20 de janeiro de 2026, o governo de Donald Trump completou um ano. Não foi um ano trivial nem previsível. Foi um período marcado por declarações explosivas, tensões diplomáticas, ameaças comerciais e uma sensação crescente, dentro e fora dos Estados Unidos, de que a liderança americana entrou em uma fase de ruptura. Para compreender esse comportamento, a análise econômica, sozinha, é insuficiente. É preciso recorrer a uma leitura sociológica e antropológica do poder.
Trump: a política do ressentimento
Trump governa menos por consensos e mais por emoções coletivas. Seu capital político nasce de uma narrativa de perda: perda de hegemonia, de renda, de status e de identidade. A ascensão acelerada da China, a globalização que deslocou empregos industriais e a imigração convertida em bode expiatório alimentam a ideia de que algo “foi tirado” do americano médio.
Nesse contexto, o lema America First deixa de ser um programa de governo e se transforma em identidade política. Não se trata apenas de políticas públicas, mas de um discurso de restauração simbólica da grandeza nacional, ainda que isso implique confronto com aliados históricos.
Do pragmatismo institucional à confrontação
No primeiro mandato, Trump se apoiou em assessores e quadros tradicionais da Casa Branca, o que impôs limites institucionais às suas ações. Agora, esses freios se mostram muito mais frágeis. O perdão concedido a envolvidos no ataque ao Capitólio dos Estados Unidos foi um marco simbólico: a lealdade política passou a se sobrepor à preservação institucional.
O padrão que emerge é claro. O uso de tarifas como instrumento político, a pressão pública sobre parceiros comerciais, a retórica agressiva contra organismos multilaterais e até declarações públicas polêmicas sobre a possibilidade de compra da Groenlândia apontam para uma estratégia de intimidação simbólica. Ainda que muitas dessas ações não se convertam em medidas concretas, o efeito político e psicológico é imediato.
O contraponto: resultados de curto prazo do governo Trump
É inegável que apoiadores do governo apontam conquistas no primeiro ano: algum crescimento econômico, endurecimento no controle da imigração ilegal e renegociação de acordos comerciais sob uma ótica mais favorável aos interesses americanos. Esses pontos existem e ajudam a explicar a resiliência política de Trump.
O problema é que tais ganhos são pontuais e de curto prazo. Eles vêm acompanhados de custos elevados: desgaste institucional, isolamento diplomático e aumento da imprevisibilidade global. O saldo estratégico, portanto, é mais frágil do que parece à primeira vista.
O colapso do sonho americano
Do ponto de vista sociológico, o “sonho americano” sempre foi um pacto implícito: o esforço individual levaria à prosperidade. Para milhões de pessoas, esse pacto se rompeu. Endividamento crônico, frustração social, drogas e aumento dos índices de suicídio são sintomas de uma sociedade que continua cobrando sucesso, mas já não oferece as mesmas condições para alcançá-lo.
Trump promete restaurar esse sonho pela força, fechando fronteiras, punindo parceiros e reafirmando uma supremacia que já não encontra respaldo na realidade global. É uma promessa politicamente sedutora, mas estruturalmente ilusória.
O paradoxo do poder
Os Estados Unidos seguem sendo a maior potência econômica e financeira do planeta. O Federal Reserve ainda ancora o sistema monetário global, e trilhões de dólares continuam circulando com base na confiança na estabilidade americana. O paradoxo é evidente: quanto mais o poder é exercido de forma coercitiva, mais a confiança que sustenta esse poder se desgasta.
Capital não convive bem com imprevisibilidade. Credibilidade não se perde de uma vez; ela se esvai lentamente. E, nesse processo silencioso, a liderança americana vai sendo corroída por dentro.
Cálculo político, não ignorância
Donald Trump não age por ignorância. Age por cálculo político consciente. Ele compreende profundamente os símbolos, os medos e as frustrações de uma parcela expressiva da sociedade americana e os transforma em instrumento de mobilização permanente. A crítica, portanto, não é à sua capacidade, mas à estratégia escolhida: converter ressentimento em política de Estado.
Ao optar pelo confronto em vez da cooperação, Trump aposta que o medo pode sustentar a liderança global dos Estados Unidos. A história mostra que essa é uma aposta de alto risco. Se insistir nesse caminho, o país pode descobrir, tarde demais, que a promessa de colocar a América em primeiro lugar não reconstruiu o sonho americano, apenas acelerou sua erosão.
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