Mesmo em um ambiente de juros elevados, incertezas em relação ao fiscal e ruídos geopolíticos, o Ibovespa tem mostrado resiliência. Para Fernando Siqueira, da Eleven Research, esse desempenho recente não é fruto de uma melhora estrutural do quadro doméstico, mas da dinâmica internacional, especialmente do fato de o Brasil não estar no epicentro das tensões entre Estados Unidos e Europa.
Em entrevista à BM&C News, Siqueira explica que a disputa comercial e política entre as grandes economias desenvolvidas tem concentrado o estresse nos mercados centrais, deixando países emergentes como o Brasil “fora do radar” no curto prazo.
“Essa briga está muito concentrada em Estados Unidos e Europa. O Brasil acaba ficando mais isolado e, nesse contexto, isso chega a ser positivo”, afirma.
Fiscal segue como risco estrutural
Apesar do alívio relativo trazido pelo cenário externo, o especialista reforça que o principal problema do mercado brasileiro continua sendo fiscal. Segundo ele, as falas pontuais do ministro da Fazenda sobre resultado primário têm impacto limitado, porque o investidor está focado na trajetória da dívida pública.
Com projeções que apontam a dívida bruta se aproximando de 82% do PIB e juros reais próximos de 8%, o Brasil carrega um prêmio de risco estrutural elevado.
“O mercado olha muito mais para a dinâmica da dívida do que para o número fechado do primário. É isso que ancora as taxas longas”, diz.
Na avaliação de Siqueira, boa parte desse risco já está precificada. As taxas de juros no Brasil permanecem em patamares elevados justamente para atrair financiamento para uma dívida crescente.
“O governo precisa o tempo todo de novos compradores para a dívida. Para isso, o juro tem que ser alto”, explica.
Brasil na contramão do ciclo global de juros
Enquanto diversas economias reduzem juros com a desaceleração da inflação, incluindo países desenvolvidos e emergentes da América Latina, o Brasil segue na contramão. Para o Siqueira, isso se deve, em grande medida, à expansão fiscal recente, que estimulou a atividade acima do ritmo sustentável.
“O Brasil chegou a iniciar um ciclo de queda, mas precisou reverter. A economia cresceu rápido demais por causa dos impulsos fiscais, e isso pressionou o Banco Central”, afirma.
Além do fiscal: eleições podem reacender o prêmio de risco
O cenário, no entanto, pode se deteriorar mais à frente. Siqueira alerta que, à medida que o calendário eleitoral de 2026 ganhar tração, o prêmio de risco pode voltar a subir, caso não surjam candidatos comprometidos com um ajuste fiscal mais duro.
“Se as campanhas começarem sem uma sinalização clara de compromisso com o fiscal, os prêmios tendem a aumentar de novo, principalmente do fim do segundo para o início do terceiro trimestre”, projeta.
Queda de juros como gatilho para a Bolsa
No curto prazo, assumindo que o cenário internacional não piore, o especialista vê espaço para um ambiente mais favorável à Bolsa brasileira. A expectativa de início do corte de juros, possivelmente em março, pode estimular um fechamento adicional da curva, sobretudo nos vencimentos mais curtos.
A parte longa, porém, deve reagir mais lentamente, justamente por continuar ancorada no risco fiscal. Ainda assim, a combinação de juros em queda e estabilização externa pode favorecer setores mais sensíveis ao ciclo doméstico.
Rotação setorial reflete risco global
Siqueira observa que o comportamento recente dos ativos mostra uma rotação clara. Com o aumento das tensões geopolíticas, ativos de proteção como o ouro renovaram máximas históricas, enquanto, na Bolsa, empresas ligadas à economia real ganharam protagonismo.
“Indústria, siderurgia e setores mais ligados a ativos reais passaram a liderar. Já varejo, educação e saúde, mais sensíveis a juros, perderam força desde o fim do ano passado”, explica.
Para ele, esse movimento está mais ligado ao ajuste dos investidores ao risco global do que a mudanças relevantes no cenário doméstico.
“É uma realocação típica de períodos de maior incerteza internacional”, conclui.












