A taxa Selic em patamar elevado não é resultado exclusivo do comportamento recente da inflação ou da atividade econômica, é o que aponta Zeina Latif. Segundo a economista, o principal fator que mantém os juros altos no Brasil é estrutural: a fragilidade do regime fiscal e a dificuldade de construir uma perspectiva crível de estabilização das contas públicas.
Em entrevista à BM&C News, Latif afirmou que, enquanto o país não apresentar um horizonte mais claro de ajuste fiscal, a taxa de juros neutra tende a permanecer elevada, limitando o espaço para cortes mais agressivos.
“Não se trata apenas dos números atuais, mas da expectativa de organização das contas públicas ao longo do tempo. Isso impacta diretamente a taxa de juros de equilíbrio da economia”, explicou.
Fiscal pressiona o ponto final da Selic
Segundo a economista, há duas discussões distintas no atual debate monetário. A primeira é estrutural e está relacionada ao fiscal. Nesse contexto, mesmo quando o ciclo de afrouxamento começar, o mercado seguirá questionando até onde a Selic pode cair sem gerar novos desequilíbrios.
“A pergunta central é: qual é o juro mínimo que o país consegue sustentar diante dessa realidade fiscal?”, afirmou.
Para Latif, essa limitação estrutural explica por que o Banco Central mantém uma postura cautelosa, mesmo diante de sinais de desaceleração econômica.
Há espaço para iniciar cortes, ainda que modestos
Apesar do cenário fiscal adverso, Zeina Latif avalia que o atual patamar da Selic embute uma “gordura significativa”. Com a taxa em 15% ao ano, ela entende que já haveria condições para iniciar um processo gradual de relaxamento monetário.
“Independentemente de onde se estime a taxa neutra, há um espaço relevante. Mesmo que o início seja lento, cauteloso e modesto, já seria possível começar”, afirmou.
Ela ressalta que a política monetária já começa a produzir efeitos sobre a atividade, ainda que de forma gradual, o que reforça a leitura de que os juros elevados estão operando como freio econômico.
Mercado de trabalho não deve ser o único critério
Latif também questiona o peso excessivo dado ao mercado de trabalho nas decisões de política monetária. Segundo ela, a resiliência do emprego no Brasil é um fenômeno histórico e não deve ser interpretada como sinal de que os juros não estão funcionando.
“O mercado de trabalho no Brasil só reage de forma mais intensa em crises muito específicas, como em 2008, na recessão do governo Dilma ou na pandemia”, explicou.
Ainda assim, ela observa sinais de acomodação na geração de vagas, indicando que os mecanismos da política monetária estão em operação.
Inflação de serviços não deve travar a Selic
Outro ponto destacado pela economista é a inflação de serviços, frequentemente citada como obstáculo para cortes de juros. Para Latif, esse componente da inflação é estruturalmente mais rígido e sofre influência de fatores que escapam ao controle direto da política monetária, como reajustes do salário mínimo e mudanças de preços relativos.
“Colocar peso excessivo na inflação de serviços como fator determinante para não cortar juros é uma avaliação equivocada”, disse.
Segundo ela, a dinâmica desse segmento não pode ser analisada da mesma forma que outros itens da cesta de consumo.
Ruídos institucionais afetam confiança
Além do fiscal e dos dados econômicos, Zeina Latif chamou atenção para o impacto institucional sobre as expectativas. A economista criticou a discussão levantada pelo governo sobre ampliar atribuições regulatórias do Banco Central, avaliando que o debate é desconectado das necessidades reais da autoridade monetária.
“Banco Central e CVM precisam de fortalecimento técnico, recomposição de quadros e investimentos em tecnologia. Não é uma questão de rever papéis”, afirmou.
Para ela, esse tipo de proposta gera ruído e aumenta a insegurança jurídica, afetando o ambiente de negócios e a confiança dos investidores.
Latif reforçou ainda a importância de preservar a autonomia do Banco Central, especialmente em um momento em que autoridades monetárias ao redor do mundo também enfrentam pressões políticas.
Comunicação do BC entra no radar
Por fim, a economista destacou que a comunicação do Banco Central será decisiva nos próximos meses, especialmente às vésperas das reuniões do Copom. Segundo ela, o mercado ajusta expectativas não apenas com base nos dados, mas também nos sinais emitidos pela autoridade monetária.
“É um novo presidente, um novo time e uma forma diferente de se comunicar. Isso ainda está sendo testado”, avaliou.
Para Latif, uma sinalização mais clara sobre os próximos passos ajudaria a reduzir volatilidade e ancorar expectativas.












