A Groenlândia voltou ao centro do debate geopolítico internacional e passou a simbolizar uma transformação mais profunda na ordem global. O interesse renovado dos Estados Unidos pela ilha, território autônomo ligado à Dinamarca, não representa um movimento isolado, mas a retomada de uma agenda estratégica antiga, agora inserida em um mundo que voltou a operar por zonas de influência, contenção e competição sistêmica.
Para Fabio Ongaro, economista, empresário e vice-presidente de Finanças da Câmara Italiana de Comércio de São Paulo (Italcam), a leitura precisa ir além do episódio diplomático.
“O interesse dos Estados Unidos pela Groenlândia não é novo. Trata-se de uma agenda antiga, que remonta à Guerra Fria, quando a ilha já era peça-chave da defesa do Atlântico Norte. O que vemos agora é essa lógica retornando ao primeiro plano, em um mundo que voltou a se organizar por linhas de contenção e influência.”, destaca Ongaro.
Por que a Groenlândia se tornou estratégica
A Groenlândia ocupa uma posição geográfica singular entre a América do Norte e a Europa, funcionando como ponto de controle natural sobre o Atlântico Norte e o acesso ao Ártico. Historicamente, a região já teve papel central durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, quando os EUA instalaram bases militares para vigilância aérea e defesa contra ameaças externas.
Nos últimos anos, no entanto, o interesse ganhou novas camadas. O avanço do degelo ampliou o potencial de novas rotas comerciais, reduziu custos logísticos no hemisfério norte e aumentou o valor econômico do território.
Além disso, a ilha concentra minerais críticos, como terras raras, essenciais para a transição energética, a indústria tecnológica e a produção de equipamentos militares.
De território remoto a infraestrutura de poder
Segundo Ongaro, o peso estratégico da Groenlândia cresceu porque o tabuleiro global mudou.
“O Ártico deixou de ser uma geografia distante e passou a funcionar como infraestrutura de poder. Degelo, novas rotas marítimas, competição tecnológica e pressão por minerais críticos transformaram a ilha em um nó logístico e estratégico, não apenas em um território.”
O avanço do degelo abriu caminhos comerciais mais curtos entre grandes economias, enquanto a concentração de minerais críticos, fundamentais para a transição energética, defesa e tecnologia, elevou o valor econômico e estratégico da região. Nesse novo contexto, a Groenlândia passou a integrar diretamente a discussão sobre segurança, indústria e autonomia estratégica.
EUA ampliam discurso de segurança nacional
O governo americano passou a tratar a Groenlândia como peça-chave para sua estratégia no Ártico, sob o argumento de segurança nacional e contenção de adversários globais. O tema voltou ao debate público após declarações do presidente Donald Trump, que retomou a ideia de ampliar o controle ou a influência direta dos EUA sobre o território.
Embora não haja qualquer negociação formal para aquisição da ilha, o episódio gerou desconforto entre aliados europeus.
Reação europeia e papel da OTAN
A resposta da Europa foi imediata. A Dinamarca reforçou que a Groenlândia “não está à venda” e que qualquer decisão sobre o futuro do território cabe aos próprios groenlandeses. Outros países europeus manifestaram apoio à soberania dinamarquesa e intensificaram exercícios militares conjuntos na região, dentro do escopo da OTAN.
O movimento evidenciou uma tensão delicada: embora EUA e Europa façam parte da mesma aliança militar, o episódio expôs desalinhamentos estratégicos e receios de que pressões unilaterais enfraqueçam a coesão do bloco.
Na visão de Ongaro, a reação europeia depende diretamente da forma como o tema é conduzido.
“Quando o assunto é tratado como coordenação dentro da OTAN e com respeito à soberania, há cooperação. Quando surge como pressão política ou narrativa de posse, o sinal muda completamente. Para a Europa, fronteiras e soberania não são negociáveis.”
A OTAN aparece, assim, como espaço natural de coordenação — mas também como linha de sensibilidade institucional.
O pano de fundo global: Rússia e China
O aumento da atenção americana ao Ártico ocorre em um contexto de maior presença da Rússia na região e de avanços econômicos e científicos da China em rotas polares. Para Washington, garantir influência sobre pontos estratégicos como a Groenlândia é visto como forma de preservar vantagem militar e logística em um cenário de competição global crescente.
Ongaro destaca que o movimento americano no Ártico responde a dois vetores distintos de risco.
“A presença dos EUA no Ártico está ligada tanto à contenção da Rússia quanto da China, mas por razões diferentes. A Rússia é o fator militar direto. A China é o fator sistêmico: entra via tecnologia, cadeias de suprimento, infraestrutura e influência econômica.”
Na leitura do especialista, Washington enxerga um risco imediato de segurança, combinado a uma disputa de longo prazo por controle de cadeias estratégicas e influência global.
Defesa, economia e cadeias estratégicas se fundem
Embora a defesa continue sendo o eixo central da discussão, o especialista ressalta que o jogo mudou de escala.
“Hoje, a defesa segue sendo o eixo central. Mas minerais e rotas mudaram a escala do jogo: o Ártico virou também uma disputa por autonomia industrial e controle de cadeias estratégicas. A diferença é que agora segurança e economia são a mesma conversa.”
Esse fator ajuda a explicar por que o Ártico passou a ocupar espaço permanente na agenda das grandes potências, e não apenas em momentos de tensão militar.
O que o episódio da Groenlândia revela sobre a ordem internacional
Mais do que uma disputa pontual, o caso da Groenlândia sinaliza uma mudança estrutural na ordem internacional. Mesmo entre aliados tradicionais, a lógica da cooperação vem sendo substituída, em alguns casos, por abordagens mais pragmáticas e orientadas por interesses nacionais imediatos.














