O sonho de viajar pelo país sobre trilhos está mais próximo de sair do papel. O Governo Federal confirmou a retomada de seis projetos estratégicos que prometem instituir novas rotas de trem de passageiros no Brasil, visando diminuir a dependência histórica do transporte rodoviário.
Quais são os trechos confirmados pelo plano nacional?
Diferente das linhas turísticas que operam em baixa velocidade, o foco deste novo pacote é o transporte regional pendular. O objetivo é atender quem mora em uma cidade e trabalha ou estuda na vizinha, oferecendo uma alternativa rápida ao ônibus e ao carro.
A iniciativa prioriza ligações de curta e média distância entre polos econômicos consolidados. Confira abaixo as seis rotas que estão no radar prioritário para estudos de viabilidade e implementação:
- Brasília (DF) – Luziânia (GO): Conexão vital para o Entorno do Distrito Federal.
- Londrina (PR) – Maringá (PR): Integração do norte paranaense.
- Pelotas (RS) – Rio Grande (RS): Ligação estratégica no sul gaúcho.
- Salvador (BA) – Feira de Santana (BA): Conexão entre as duas maiores economias do estado.
- Fortaleza (CE) – Sobral (CE): Expansão da malha cearense.
- São Luís (MA) – Itapecuru Mirim (MA): Aproveitamento da estrutura existente no Maranhão.

De onde virá o dinheiro para reativar os trilhos?
O financiamento desses projetos envolve uma engenharia econômica complexa, fugindo do modelo tradicional de custeio 100% estatal. Os recursos estão atrelados ao Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), que prevê um montante global de R$ 94 bilhões para o setor ferroviário até 2026.
Uma parte crucial dessa verba virá das renovações antecipadas das concessões de carga. Segundo o Ministério dos Transportes, o governo utilizará recursos de indenizações e outorgas, com aportes iniciais estimados na casa dos R$ 600 milhões, para custear os estudos e obras das linhas de passageiros, criando um subsídio cruzado entre o lucro da carga e a necessidade do transporte público.
O gargalo técnico: trem de carga e passageiro juntos funcionam?
Apesar do otimismo, existe um desafio de engenharia que precisa ser superado: o tráfego compartilhado. A maioria dessas novas rotas pretende utilizar a malha ferroviária já existente, que hoje é dominada pelos trens de carga.
O problema reside na incompatibilidade operacional. Enquanto o trem de carga é pesado, lento e pode sofrer atrasos sem grandes impactos, o trem de passageiros exige velocidade comercial constante e pontualidade britânica. Conciliar esses dois mundos em um único par de trilhos (singela) é o grande desafio técnico para evitar que o transporte de pessoas se torne ineficiente.

O modelo brasileiro atual vs. o padrão europeu
Atualmente, o Brasil possui pouquíssimas linhas regulares de longa distância, sendo as operadas pela Vale (Vitória-Minas e Carajás) as únicas exceções relevantes. O novo plano busca inspiração no modelo de Trens Intercidades (TIC), como o projeto pioneiro licitado em São Paulo, focado em Parcerias Público-Privadas (PPPs).
Conforme análise técnica do DIEESE sobre o Novo PAC, o sucesso dessas implementações depende da capacidade do Estado em regular o setor e garantir que o interesse público (mobilidade) não seja sufocado pela lógica puramente comercial das concessionárias de carga.
Qual o impacto real na economia regional?
A reativação dessas linhas representa mais do que nostalgia ferroviária; é uma ferramenta de desenvolvimento descentralizado. Ligar cidades como Salvador e Feira de Santana por trilhos cria um corredor de desenvolvimento, facilitando o fluxo de mão de obra e reduzindo o custo de vida nas metrópoles.
A mobilidade sobre trilhos tem o potencial de redesenhar a demografia urbana. De acordo com a página oficial do Novo PAC, o investimento em transporte eficiente e sustentável é um dos pilares para reduzir as emissões de carbono e melhorar a qualidade de vida nos grandes centros urbanos, oferecendo uma alternativa viável ao caos das rodovias.

