Os países da União Europeia aprovaram nesta sexta-feira (09) o acordo comercial com o Mercosul, encerrando um processo de negociações iniciado há 26 anos. A decisão foi tomada em reunião de embaixadores do bloco, realizada em Bruxelas, e abre caminho para a assinatura formal do tratado já na próxima semana.
Apesar da aprovação, o acordo avançou em meio a resistências internas. França, Polônia, Áustria, Hungria e Irlanda se posicionaram contra o texto, enquanto a Bélgica optou pela abstenção. Ainda assim, houve consenso suficiente entre os Estados-membros para autorizar o prosseguimento do processo.
Acordo União Europeia-Mercosul é aprovado, mas vigor não é imediato
O tratado, no entanto, ainda não entra em vigor de forma imediata. Para isso, será necessário o aval do Parlamento Europeu, etapa que deve concentrar novos debates, especialmente em torno dos impactos do acordo sobre o setor agrícola do bloco.
Para viabilizar a aprovação política, os países da União Europeia concordaram com a adoção de mecanismos de salvaguarda voltados à proteção da agricultura europeia. Entre as medidas previstas estão instrumentos de monitoramento mais rigoroso das importações, com o objetivo de mitigar eventuais impactos sobre produtores locais.
Acordo pode criar maior área de livre-comércio do mundo
Caso seja ratificado, o acordo entre União Europeia e Mercosul criará a maior área de livre-comércio do mundo, envolvendo cerca de 700 milhões de pessoas. O tratado abrange temas como redução de tarifas, acesso a mercados, regras comerciais, sustentabilidade e cooperação regulatória.
No contexto internacional, o avanço do acordo é visto pela União Europeia como um movimento estratégico diante do aumento das tensões no comércio global e da reorganização das cadeias internacionais de produção e fornecimento. Para o Mercosul, o entendimento representa a ampliação do acesso a um dos maiores mercados consumidores do mundo, além de potencial estímulo a exportações e investimentos.
A expectativa agora se concentra no cronograma de assinatura e no processo de análise no Parlamento Europeu, que será decisivo para a efetiva implementação do acordo.
Vitória política em Bruxelas e cálculo geopolítico
Na avaliação de Igor Lucena, economista e doutor em Relações Internacionais, a aprovação do acordo pelo Conselho Europeu representa uma vitória política relevante para a Comissão Europeia e, especialmente, para a presidente Ursula von der Leyen, ao autorizá-la formalmente a avançar com a assinatura do tratado.
“A resistência francesa precisa ser lida mais como um jogo político doméstico do que como um veto real: enquanto o governo Macron responde à forte pressão dos agricultores, a indústria francesa vê no acordo uma oportunidade estratégica de expansão no mercado latino-americano”, avalia.
Para o especialista, o fato de países-chave, como a Itália, terem votado a favor neutralizou a capacidade de bloqueio da França. Lucena ressalta, no entanto, que o processo ainda pode enfrentar obstáculos no Parlamento Europeu e até questionamentos judiciais, embora a decisão do Conselho enfraqueça significativamente os lobbies contrários.
Ele também chama atenção para o contexto geopolítico mais amplo, destacando que a busca europeia por alternativas ao petróleo russo, somada ao reposicionamento energético envolvendo a Venezuela e os Estados Unidos, ajuda a explicar o timing do avanço do acordo, indicando uma leitura estratégica de médio e longo prazo por parte da União Europeia.
Ganhos graduais e efeitos estruturais no longo prazo
Na avaliação de Fabio Ongaro, vice-presidente de finanças da Câmara Italiana do Comércio de São Paulo, o acordo entre União Europeia e Mercosul deve ser entendido como um instrumento de transformação estrutural de longo prazo, e não como um catalisador de ganhos imediatos.
“Os efeitos econômicos mensuráveis tendem a surgir apenas alguns anos após a entrada em vigor, à medida que tarifas sejam reduzidas, cadeias produtivas se reorganizem e regras regulatórias se harmonizem. Embora o impacto macroeconômico agregado seja moderado, os ganhos são permanentes e cumulativos, com potencial de elevar a eficiência econômica tanto da Europa quanto do Mercosul“, destaca.
Ele avalia que para a União Europeia, o acordo tem caráter estratégico e industrial, ao ampliar o acesso a mercados para setores de maior valor agregado e reforçar sua presença na América do Sul em um cenário de competição geopolítica. Já para o Brasil, o tratado representa uma oportunidade de ir além da expansão das exportações agrícolas, funcionando como vetor de modernização produtiva, aumento de produtividade e maior integração às cadeias globais de valor, desde que acompanhado de escolhas políticas e econômicas consistentes.
Oportunidade comercial com desafios internos
Na avaliação de Jackson Campos, diretor de Relações Institucionais da AGL Cargo, o acordo entre União Europeia e Mercosul representa um avanço estrutural para a inserção do Brasil no comércio internacional, ao oferecer previsibilidade regulatória, redução gradual de barreiras e integração mais consistente às cadeias globais de valor.
“O impacto positivo vai além do aumento do volume exportado, especialmente no agronegócio, ao abrir espaço para produtos com maior valor agregado, certificações e diferenciação, enquanto, no campo industrial, cria incentivos à modernização tecnológica e eleva a atratividade do país para investimentos produtivos“, avalia.
Campos ressalta que a queda progressiva das tarifas tende a reduzir custos de insumos estratégicos, como máquinas, equipamentos, fertilizantes e produtos químicos, aumentando a eficiência da economia como um todo. Ao mesmo tempo, o diretor da AGL alerta que o acordo expõe desafios estruturais do Brasil, como logística onerosa, burocracia e necessidade de adaptação regulatória, o que exigirá planejamento, investimentos e uso inteligente do período de transição para que os ganhos de longo prazo se materializem.












