A eleição presidencial de 2026 tende a ser determinante para o rumo econômico do Brasil nos próximos anos. Em um ambiente de desaceleração da atividade, juros elevados e deterioração das contas públicas, a avaliação entre gestores é que a disputa eleitoral será definida pela capacidade de os candidatos apresentarem uma solução crível para o problema fiscal.
Para Walter Maciel, CEO da AZ Quest, quem conseguir endereçar essa pauta de forma consistente terá vantagem decisiva no processo eleitoral. Na avaliação do gestor, o país entra em 2026 com um quadro fiscal já contratado, que limita crescimento, pressiona juros e condiciona a precificação dos ativos.
“O debate eleitoral vai girar em torno de quem consegue resolver o fiscal. Não é uma questão ideológica, é matemática”, afirmou.
Segundo Maciel, o mercado ainda se antecipa pouco ao cenário eleitoral porque o nível elevado dos juros funciona como um amortecedor temporário de risco. Com a Selic próxima de 15%, o retorno oferecido pelos ativos defensivos reduz o incentivo a movimentos mais agressivos antes de sinais políticos claros.
Mercado reage à probabilidade de ajuste fiscal
Para o CEO da AZ Quest, movimentos recentes dos mercados financeiros não devem ser interpretados como julgamentos pessoais sobre candidatos, mas como ajustes de probabilidade em relação à condução da política fiscal a partir de 2027.
“O mercado não precifica discurso nem promessa. Precifica a chance real de o fiscal ser endereçado”, disse.
Na leitura do gestor, a deterioração das contas públicas elevou estruturalmente o prêmio exigido para financiar a dívida brasileira, pressionando juros, crédito e atividade econômica. Sem correção, o país se aproxima de um cenário em que despesas obrigatórias passam a superar receitas, aumentando o risco de desequilíbrio permanente.
Custo do juro e risco de dominância fiscal
Maciel destaca que o Brasil opera hoje muito acima do juro neutro estimado pelo próprio Banco Central, em torno de 4,5%. A diferença entre esse patamar e a taxa efetiva atual gera um custo fiscal anual próximo de R$ 600 bilhões.
“Esse valor é maior do que os orçamentos somados de Bolsa Família, saúde e educação. Não é uma distorção criada pelo mercado, é consequência direta do descontrole fiscal”, afirmou.
Caso esse quadro não seja revertido, o CEO da AZ Quest avalia que o país pode entrar em um regime de dominância fiscal, no qual nem juros mais elevados seriam suficientes para estabilizar expectativas, levando a taxas exigidas para financiar o governo semelhantes às observadas em períodos de forte instabilidade econômica.
Bolsa reage ao cenário externo
Apesar da valorização registrada pela bolsa ao longo de 2025, Maciel avalia que o movimento foi sustentado principalmente por fatores externos e concentrado em grandes empresas, mais líquidas e acessíveis ao capital estrangeiro. As companhias de menor capitalização seguem negociadas a múltiplos historicamente deprimidos.
“A bolsa brasileira está barata em termos reais, mas segue travada pelo fiscal”, disse.
Segundo ele, a manutenção do atual quadro tende a produzir um ambiente de “ilhas de prosperidade”, em que grandes empresas preservam resultados enquanto médias, pequenas e famílias enfrentam crédito caro e crescimento limitado.
Haddad perde poder de ancoragem fiscal
A avaliação de Maciel é que a percepção do mercado em relação à política fiscal também foi influenciada pela trajetória do Ministério da Fazenda ao longo do atual governo. Fernando Haddad chegou ao cargo com o benefício da dúvida e um discurso alinhado à responsabilidade fiscal, mas perdeu credibilidade após a não entrega das metas e a adoção de uma retórica que, segundo gestores, relativizou o descumprimento dos objetivos fiscais.
A possível saída de Haddad do Ministério da Fazenda, não altera o quadro se não houver respaldo político para fazer o ajuste.
“O problema não é o ministro, é a falta de decisão”, afirmou.
Sinal político como gatilho de preços
Para o CEO da AZ Quest, o primeiro sinal relevante para uma mudança mais consistente na precificação dos ativos não será a apresentação de planos econômicos detalhados, mas o avanço, nas pesquisas eleitorais, de um candidato comprometido com o ajuste fiscal.
“Quando o mercado perceber que alguém tem condições reais de enfrentar o fiscal, os preços vão reagir rapidamente. Quem esperar confirmação completa pode perder o movimento”, destacou.
Segundo Maciel, o diagnóstico do ajuste é amplamente conhecido. O desafio está menos na técnica econômica e mais na coordenação política.
“O ajuste é possível. O que falta é liderança, coragem e articulação. A eleição de 2026 vai mostrar se o Brasil está disposto a enfrentar esse problema ou a empurrar a conta mais uma vez.”, concluiu.












